* Cristina S. Pecequilo
Desde primeiro de Janeiro, em quase todos os lugares encontramos
uma contagem regressiva de quantos dias faltam para o próximo milênio.
Embora existam controvérsias se esta "nova era" começa em
2000 ou 2001, a expectativa é de que o tempo passe rápido
para que entremos, o mais breve possível, nesta fase de promessas
e realizações incomparáveis. Simultaneamente, toda
a excitação esconde o temor de que o dia 31 traga, como prevêm
os pessimistas, somente o apocalipse. Em meio a todas estas discussões
e possibilidades, mesmo antes de começar, 1999 já nasce como
uma coisa do passado e corremos o risco de jogar fora doze meses de oportunidades.
Para as relações internacionais, 1999 é um marco importante
cujo significado não tem sido adequadamente percebido: uma década
do fim da Guerra Fria. Há dez anos atrás, a área vivia
seu clima de "fim de milênio" e até agora parece não
ter se recuperado totalmente dos efeitos da queda do Muro de Berlim (09/11).
Enquanto o mundo corre para o ano 2000, a política internacional
revela um alto grau de passividade e conformismo, trabalhando dentro de
parâmetros conhecidos e repetindo clichês. À medida
em que os "bons fluxos" da paz e cooperação foram superados
e acompanhados por guerras e enfrentamentos, os analistas se tornaram tímidos
em ousar, demonstrando falta de fôlego e cansaço. Paradoxalmente,
por enquanto, o grande projeto de política externa do ano é
a ampliação da OTAN ao Leste Europeu, (República Theca,
Hungria e Polônia), aliança que, durante a Guerra Fria, foi
o principal sustentáculo da disputa com a URSS.
Frustradas com o "recomeço" da história
e com sua aparente inabilidade em delinear o mundo pós-bipolaridade
que deveria ser criado, as relações internacionais têm
esquecido de seu propósito central: estudar o sistema, seus fenômenos
e agentes. Embora parte e tarefa importante da disciplina, a reflexão
conjuntural não pode exclusivamente dominar o pensamento, tornando-o
sujeito às inspirações, contradições
e acontecimentos do momento. Se os mercados sobem, venceu a globalização,
se caem, é seu fracasso; se árabes e israelenses conversam,
há paz, se confrontos ocorrem, o mundo está em perigo; se
a União Européia realiza seu projeto de integração,
os blocos são o único caminho, a desaceleração
é a volta do protecionismo e do revanchismo. Pensando somente em
extremos e em termos absolutos, as relações internacionais
perderam sua sofisticação e nuances. Oscilando entre três
padrões, o do otimismo inabalável,
do pessimismo interminável ou da descrição linear,
as discussões acabam presas a seus próprios mitos.
É preciso escapar deste círculo vicioso,
refletindo de maneira equilibrada e com menores expectativas. Acertaremos
algumas previsões, erraremos outras, mas é fundamental recuperar
a importância de indicar tendências nas análises, debatendo
sem a obrigação do consenso ou de soluções
universais. O mundo do pós-guerra fria (a transição
não lhe forneceu um nome diferente do anterior) começou há
dez anos e guarda contradições e continuidades. Na verdade,
tais fenômenos existiam na Guerra Fria, só que se escondiam
na aparência monolítica do conflito leste-oeste. O mundo de
1989 não era o mesmo de 1947, assim como o de 1999 não é
igual ao de 1989, ajustaram-se posições relativas e recursos
de poder, transformaram-se homens, idéias e sociedades.
Neste exercício, o novo milênio, para o
pós-guerra fria, não traz promessas de grandes modificações.
As mudanças são graduais. Profundas crises ou alterações
radicais serão até menos constantes do que o esperado, apesar
de poderem ser muito intensas, principalmente na economia, gerando graves
instabilidades sociais. Observaremos a convivência das formas "modernas"
de relacionamento, os acordos regionais, a cooperação, com
protecionismos, nacionalismos, fundamentalismos e violência. Existirão
a globalização e a interdependência, permanecerão
os interesses e os desacordos.
Na estrutura de poder, no curto prazo, manter-se-ão
posições, com alterações pontuais constantes,
percebidas e incorporadas de maneiras diferenciadas pelos Estados, o que
definirá a configuração e os modos de vida a prevalecerem.
Dentre os atores importantes, há os que chegam
com maior possibilidade de ação e os que se perdem em seus
problemas, como a Rússia, incapaz de promover sua modernização.
Do lado oposto, surgem como variáveis a China, a UE e os Estados
Unidos. Participando do cenário dentro das regras do jogo e delas
se utilizando instrumentalmente, a China segue em sua estratégia
de projeção de poder externo e manutenção do
progresso e estabilidade internas e, finalmente, emerge (e é reconhecida)
como um grande poder e uma alternativa viável de regime misto político,
social e econômico. Para a UE, parece chegar o momento de completar
a integração. Se avançar no econômico,
e além dele, a UE crescerá ainda mais em importância,
podendo confrontar os Estados Unidos ou, em uma hipótese também
provável, renovar a Aliança Atlântica e imprimir globalmente
os valores comuns do ocidente.
Referindo-se a si mesmos como a "nação
indispensável", os Estados Unidos permanecerão exercendo
sua liderança sem contestação. Em termos de custos
e benefícios, melhor contar com os americanos, do que ter de inserir
preocupações e responsabilidades de liderança na agenda
de política externa, preferindo a expansão lenta e pacífica,
em outras palavras, "imperceptível", de zonas de influência
regionais. Para os Estados Unidos, será possível liderar
dominando este equilíbrio desde que mantidas sua expansão
econômica, sua prioridade externa para o internacionalismo e a continuidade
da aceitação da hegemonia política, militar e diplomática.
A "ressaca dos novos tempos" das relações
internacionais deve servir de alerta quanto ao exagero de expectativas
e à pressa por mudanças. Quanto maiores elas forem, maiores
as desculpas pela incapacidade em buscar ritmos e caminhos diferenciados.
Não há porque acumular frustrações ou
aguardar que uma data resolva todos os nossos problemas e dúvidas,
vivemos de descobertas e de experiências que se acumulam no dia a
dia. O Muro de Berlim caiu e em 31 de Dezembro entraremos no ano 2000,
até lá, e depois disso, mais interessante do que sentar e
esperar é continuar a trabalhar, crescer e questionar. A propósito,
faltam hoje (26/1) 340 dias para o ano 2000 e 286 para os dez anos da queda
do Muro.
* Doutoranda do Departamento de Ciência Política
e Pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais
da USP.