A Cúpula das Américas em Santiago estava destinada
a ser mais um exercício retórico desde que ficou claro que
o presidente dos
** Jornalista, é correspondente da Folha de S. Paulo em Washington.
EUA, Bill Clinton, chegaria sem dispor de fast track para negociar
acordos comerciais que o Congresso de seu país não pode emendar.
Sem fast track, as negociações para se constituir a Alca
podem até começar formalmente, como se decidiu em Santiago,
mas as suas possibilidades de êxito se reduzem. É bem verdade,
como repetiram à exaustão os principais assessores de Clinton
que, quando a Rodada Uruguai teve início, o presidente Ronald Reagan
também não dispunha do fast track e, apesar disso, aí
está a Organização Mundial do Comércio em funcionamento.
Mas também é fato, como os mesmos assessores omitem, que
o ambiente político nos EUA em relação a acordos comerciais
em 1998 é muito diverso do de 1986 e as chances de aprovação
do fast track, pelo menos durante o governo Clinton, são muito reduzidas.
A Alca, portanto, passou para segundo plano durante a Cúpula de
Santiago. Abriu-se, então, o espaço para boas intenções
serem declaradas e elas vieram aos borbotões. O documento final
do encontro antecipa a criação de uma sociedade perfeita
no hemisfério ocidental. Se o julgamento dos resultados de Santiago
se limitar ao exame da retórica empregada, não às
ações reais que os presidentes decidiram tomar para transformá-la
em fatos, o veredicto é favorável ao encontro. Houve um consenso
em torno de ideais positivos entre os governantes de todos os países
das Américas (exceto Cuba), e isso não é pouco. Mesmo
assuntos tradicionalmente divisivos, como o combate ao tráfico de
drogas, foram tratados dentro de abordagem que todos consideraram adequada.
De novo, entre a palavra e o ato há uma distância enorme.
A Cúpula resolveu apoiar a criação, sob os auspícios
da Organização dos Estados Americanos, de mecanismos que
permitam uma avaliação conjunta dos países dos esforços
que cada um despende contra o narcotráfico, de modo a tornar "irrelevante"
(como disse o czar antidrogas do governo Clinton, general Barry McCaffrey)
o sistema unilateral de "certificação" que o Congresso norte-americano
utiliza anualmente e que tem criado tantos problemas nas relações
entre EUA e Colômbia e México, por exemplo. Mas é muito
improvável que o Legislativo norte-americano, controlado pela oposição
republicana, venha a aceitar que seu papel de juiz seja dividido com outros
países. Ainda do ponto de vista dos símbolos, a Cúpula
de Santiago impressionou pela diminuição do poder dos EUA
na comunidade hemisférica. Embora Clinton tenha usado sua limusine
para se deslocar enquanto todos os outros colegas andavam de ônibus,
seu papel foi menos hegemônico do que em Miami e em outros encontros
internacionais. Entre os fatores para essa redução relativa
da influência norte-americana, destaca-se, é claro, a vulnerabilidade
com que Clinton se apresentou, desprovido de fast track. Mas a proeminência
adquirida pelo Brasil, graças ao sucesso do Mercosul, também
contribuiu. O papel fundamental do Brasil no futuro das relações
interamericanas ficou evidente quando Fernando Henrique Cardoso foi convidado
a falar na cerimônia de encerramento do encontro, além de
Clinton (que exigiu ser incluído entre os oradores finais), do anfitrião
Eduardo Frei e do futuro anfitrião, o canadense Jean Chrétien.
Chrétien, aliás, também ajudou a reduzir a influência
norte-americana em Santiago, ao anunciar ali sua visita a Cuba. A questão
cubana concentrou muito da atenção do público. Embora
todos os participantes da Cúpula tenham concordado na necessidade
de se democratizar aquele país, eles também deixaram claro
o isolamento dos EUA no que se refere ao embargo comercial que mantém
contra Cuba há 36 anos. Já que retórica era a principal
moeda de troca em Santiago, não se pode deixar de realçar
que o presidente brasileiro foi o mais bem pago entre todos os seus colegas.
FHC foi aplaudido de pé na cerimônia final, graças,
em grande parte, à sua elíptica referência a Cuba,
na qual, apesar de cobrar democracia, elogiou as conquistas sociais, em
especial nas áreas de educação e saúde (afinal,
os grandes objetivos da Cúpula), obtidas por Fidel Castro. O discurso
teve menos impacto na mídia internacional do que deveria porque
FHC falou de improviso e a tradução ficou prejudicada. Mas,
semanas depois, Clinton o citou falando com jornalistas na Casa Branca
e a repercussão aumentou.
Carta Internacional, Número 62, Ano VI, Abril de 1998. p.2