1. A provocação - a genética criará o homem perfeito?
2. China - A Revolução Cinquentona
3. Cabeças raspadas por fora e por dentro
4. Rússia - o superespião no Kremlin
5. Alegria no Kremlin
 


1.

                      ALEMANHA

                      A provocação

                      Na polêmica do ano, filósofo alemão diz que a engenharia
                      genética deve ser usada para criar seres superiores

                      Peter Sloterdijk, 52 anos, filósofo profissional e humorista eventual,
                      precipitou a Alemanha num feroz debate que nada tem de acadêmico. Foi
                      só juntar a pesada carga do passado recente alemão com a peculiar
                      angústia germânica diante do futuro próximo: Sloterdijk defende a idéia de
                      que a engenharia genética deve ser utilizada para criar seres superiores -
                      uma super-raça. O primeiro passo, diz o filósofo, é aposentar o
                      humanismo e a idéia de que todos os homens são iguais. "Temos que
                      planejar o ser humano" com as técnicas já desenvolvidas em laboratório,
                      provoca Sloterdijk.

                      Foi um escândalo de proporções wagnerianas. Professor de Filosofia na
                      Universidade de Karlsruhe e um dos principais consultores da editora
                      Suhrkamp, sólida instituição do mundo intelectual alemão, Sloterdijk está
                      longe de ser um nazista incorrigível ou um racista hidrófobo. Trata-se,
                      antes, de um livre-pensador, que ficou muito conhecido na Alemanha
                      durante uma polêmica na qual atacou os "reflexos espasmódicos da
                      geração de 1968", ou seja, a consciência liberal-humanista. Por onde
                      passa, Sloterdijk faz barulho. Sua última heresia foi pronunciada num
                      seminário dedicado a um dos grandes nomes da filosofia alemã, Martin
                      Heidegger, em julho passado. "Um terremoto", resumiu o sisudo Die Zeit,
                      um dos primeiros veículos da imprensa alemã a ter acesso ao texto da
                      palestra. Na televisão, mesas-redondas de filósofos examinam a "nova
                      eugenia", também chamada de "projeto genético do super-homem" em
                      reportagem de capa da revista Der Spiegel, na semana passada.

                      Eugenia é o nome que se dá à ciência que estuda o melhoramento da
                      raça humana. Relativamente popular em países como os Estados Unidos,
                      o Reino Unido e a França no começo do século, a "higiene racial" foi
                      transformada pelos nazistas alemães, a partir de 1933, num dos
                      fundamentos da ditadura de Adolf Hitler. A lógica aberrante do regime
                      nazista começou com a aprovação de uma lei para impedir a reprodução
                      de "impurezas genéticas" e terminou com os campos de extermínio, nos
                      quais morreram mais de 6 milhões de pessoas. É compreensível que o
                      espetacular avanço da biologia molecular e da engenharia genética, ou
                      biotecnologia, provoque fortes calafrios na Alemanha. Trata-se de um país
                      onde, depois da Segunda Guerra Mundial, tudo o que for feito, escrito, dito
                      ou até pensado será medido em relação ao passado nazista.

                      Antes mesmo de cientistas na Escócia terem anunciado, em 1997, a
                      clonagem da ovelha Dolly, um filme de ficção científica lotava as salas de
                      cinema de todo o mundo com a idéia de que Adolf Hitler teria inventado
                      um jeito de fazer cópias genéticas perfeitas de si mesmo. Hoje, pelo
                      menos em laboratórios, cientistas já são capazes de tudo aquilo que os
                      ficcionistas previam sobre os genes, louvando ou criticando: diagnosticar
                      em fetos as causas de doenças hereditárias, substituir códigos genéticos
                      defeituosos, clonar mamíferos e implantar células que tornem o organismo
                      imune a determinados distúrbios. Teoricamente, além disso, seria possível
                      manipular os genes responsáveis pela agressividade, pela beleza e pela
                      inteligência. Em pouco tempo, estaria aberto o caminho para um
                      verdadeiro design do ser humano.

                      Orientado por especialistas de uma nova carreira acadêmica, a Bioética, o
                      governo alemão já proibiu por lei quase todos esses experimentos. Mas,
                      aparentemente convencido de que tudo o que é tecnicamente possível
                      acaba mesmo sendo realizado, Peter Sloterdijk decidiu atacar os
                      preceitos filosóficos que regulam a ética da biotecnologia. Chamou como
                      testemunha não só o filósofo grego Platão, cuja República já estava
                      repleta de seres superiores especialmente educados. Tomou como
                      cúmplice um dos grandes nomes da filosofia alemã, Friedrich Nietzsche,
                      para quem não bastava a "domesticação social" do homem. Encontrou
                      consolo filosófico também nos textos de Heidegger. É preciso "dirigir a
                      procriação", afirma Sloterdijk, parafraseando os mestres. E é necessário
                      pensar em "seleção", a palavra que, para todo alemão, revive a imagem
                      dos oficiais nazistas separando, na rampa de Auschwitz, os prisioneiros
                      que iam diretamente para a câmara de gás dos que ainda podiam ser
                      empregados em trabalhos forçados.

                      Abordar esses temas, com essas palavras - na mesma Alemanha onde
                      um escritor presenteia organizações antinazistas com metade de seu
                      Prêmio Nobel de Literatura (leia mais sobre Günter Grass na página 91) -,
                      é suficiente para definir o temperamento provocador de Sloterdijk.
                      Bem-falante e exímio esgrimista verbal, o filósofo batizou a Alemanha de
                      "clube do estresse". Seu mais novo alvo é o "fantasma do humanismo" e
                      a "teoria crítica" desenvolvida por dois outros grandes filósofos alemães,
                      Theodor Adorno e Jürgen Habermas. Críticos apontam no polemista uma
                      forte desconfiança em relação à natureza humana, além de tendências
                      elitistas e antidemocráticas.

                      Onde o consenso liberal e esquerdista enxerga harmonia e progresso,
                      com base na noção de que o ser humano é capaz de domar a si mesmo,
                      Sloterdijk vê apenas uma "orgia de instintos" ou uma explosão de
                      impulsos naturais, só controlável por meio da "reforma genética da raça",
                      agora ao alcance da moderna biotecnologia. Com outras palavras,
                      comentando os últimos avanços da genética, o biofísico Gregory Stick, da
                      Universidade da Califórnia em Los Angeles, disse a mesma coisa:
                      "Acabamos de assumir o controle da nossa própria evolução".

                      A virulência do debate alemão não é, porém, sinal de uma particularidade
                      regional. Sloterdijk provocou não só uma comunidade intelectual ainda às
                      voltas com crimes cometidos por antepassados. Em países como o Reino
                      Unido ou os Estados Unidos, a ética se adapta ao avanço da ciência. Na
                      Alemanha (e, em boa parte, também na França), a ética que regula a
                      utilização da biotecnologia se desenvolve a partir do entendimento
                      filosófico do que é o ser humano e de que é a ciência que tem de se
                      submeter à ética, e não o contrário. Para os alemães (incluindo
                      Sloterdijk), a falta de qualquer premissa filosófica pode levar a extremos
                      como o do bioético americano Peter Singer, da prestigiosa Universidade
                      de Princeton, nos Estados Unidos. Singer afirma que pessoas
                      extremamente debilitadas estão, do ponto de vista ético, no mesmo
                      patamar de chimpanzés, justificando-se, assim, a eliminação de
                      recém-nascidos portadores de graves deficiências físicas. Na semana
                      passada, ao reclamar da pancadaria verbal que vem sofrendo, Sloterdijk
                      tentou esfriar o debate com uma piada. "Quando penso nos meus
                      críticos", escreveu num jornal de Berlim, "gostaria que a arte de procriar
                      gente culta e simpática estivesse mais avançada".

                                                          William Waack, de Londres
 
 
 

                       Perfil Peter Sloterdijk
                       Formação
                       Nasceu em Karlsruhe em 1947. Formou-se em Filosofia e História.

                       Carreira
                       Professor de Filosofia desde 1992 na Universidade de Karlsruhe.

                       Obras
                       Crítica da Razão Cínica, 1983; Auto-Ensaio, 1996.
 
 

                       A ordem nazista

                       Exterminar os "impuros" e promover a "raça superior"

                       Ponto de partida No poder, o regime nazista aprovou uma lei para
                       impedir a reprodução de "impurezas genéticas". O resultado foi a
                       esterilização forçada de milhares de epiléticos, esquizofrênicos,
                       alcoólatras, cegos, surdos e retardados. Outra lei proibiu casamentos
                       de pessoas com "problemas genéticos", a base para experimentos
                       de eutanásia ("abreviar a vida de incuráveis") que levaram à execução
                       de desequilibrados mentais.

                       "Solução final" Os campos de concentração nazistas, onde
                       morreram mais de 6 milhões de pessoas, foram criados para
                       exterminar "raças" consideradas "inferiores", como judeus, eslavos,
                       ciganos etc. Na outra ponta, os nazistas trataram de promover a
                       "raça superior": o governo alemão oferecia créditos subsidiados a
                       casais definidos como "puros" geneticamente. Objetivo: estimular a
                       reprodução dos "melhores".
 

                       Idéias e polêmicas
                       Friedrich Nietzsche
                       Um dos pensadores mais instigantes do século 19 e autor de Assim
                       Falou Zaratustra, é o criador da idéia de que o homem precisa ser
                       superado pelo super-homem.

                       Martin Heldegger
                       Filósofo alemão, autor de O Ser e o Tempo e de Carta sobre o
                       Humanismo. Foi um dos mais originais e polêmicos pensadores do
                       século. Integrou o Partido Nacional-Socialista (nazista) até 1943.

                       Engenharia genética
                       Um dos ramos mais revolucionários da ciência moderna, é a
                       capacidade de interferir nos genes para obter melhoras na saúde dos
                       organismos e na agricultura.

                       Clonagem
                       A duplicação de seres vivos em laboratório começou em 1996 com o
                       cientista escocês Ian Wilmut. Ele clonou uma ovelha e desse
                       procedimento nasceu a famosa Dolly.
 
 

2.
 
 

                      CHINA

                      A revolução cinqüentona

                      O comunismo criado por Mao faz aniversário, mas o
                      movimento que alavancou a prosperidade foi iniciado em
                      1978 por Deng

                      A China fundada por Mao Tsé-tung, o imperador vermelho, comemora 50
                      anos no próximo 1o de outubro, sexta-feira. Fiel a um estilo que cultiva o
                      triunfalismo, o Partido Comunista, centro do poder chinês, organizou uma
                      megafesta em Pequim, a capital do país, que consumirá o equivalente a
                      US$ 60 milhões dos cofres oficiais. Cerca de meio milhão de convidados
                      são aguardados na cidade, cujas praças, avenidas e principais prédios
                      públicos passaram por uma recauchutagem completa. Mais de 100 mil
                      migrantes, ou chineses de áreas rurais desempregados, que vivem de
                      biscates na capital, foram temporariamente removidos da região. Haverá
                      desfiles militares, espetáculos de dança e fogos de artifício. Os dirigentes
                      comunistas, encabeçados pelo presidente Jiang Zemin, assistirão à festa
                      na monumental Praça da Paz Celestial, no coração de Pequim.

                      O simbolismo é notável. Foi lá que o Exército suprimiu a bala as
                      manifestações a favor da democracia, há dez anos, promovendo uma
                      matança que, dependendo da fonte, varia de 200 (a oficial) a mais de 3 mil
                      jovens (a dos dissidentes). Mas foi lá que Mao anunciou o nascimento da
                      República Popular da China, no dia 1o de outubro de 1949, depois de
                      quase meio século de guerra civil entre comunistas e nacionalistas, além
                      da invasão japonesa, que deixou um saldo de 50 milhões de mortos.

                      O maior legado de Mao, nota o historiador inglês Jonathan Spence, é ter
                      unificado um território várias vezes retalhado e humilhado por rebeliões e
                      inimigos estrangeiros em cinco milênios de História. Depois que os
                      comunistas tomaram o poder e as forças nacionalistas se refugiaram em
                      Taiwan, a China impôs-se ao mundo como nação unificada. "Mao teve um
                      papel histórico na unificação", disse Spence a Época. Mas, apesar do
                      respeito e da veneração ainda despertados entre os chineses pela figura
                      do Grande Timoneiro (como Mao era conhecido), a verdadeira razão para
                      festejar tem de ser procurada em outra revolução, mais recente - a
                      capitaneada pelo arquiteto da "economia socialista de mercado", Deng
                      Xiaoping. A utopia igualitária de Mao, em suas diversas fases, nunca
                      encheu de arroz as tigelas dos chineses. A imposição do sistema de
                      produção comunal, no final dos anos 50, revelou-se um desastre. O
                      projeto governamental, apelidado de Grande Salto à Frente, inviabilizou as
                      colheitas e matou de fome e doenças 30 milhões de chineses. A
                      revolução de Deng, que sucedeu a Mao nos anos 70, abriu as portas para
                      um progresso e uma prosperidade inéditos na história chinesa deste
                      século.

                      Sem pirotecnia, Deng engavetou a luta de classes, pedra de toque do
                      maoísmo, e introduziu novo mantra: a modernização econômica. "Ser rico
                      é glorioso", foi o slogan (extraído de uma entrevista de Deng) que serviu de
                      arrancada para as mudanças. O primeiro passo foi liberar o produtor rural
                      das amarras do coletivismo agrário. Em seguida o governo criou as quatro
                      zonas econômicas especiais, verdadeiros bolsões capitalistas, e mais
                      adiante começou a liberar as indústrias tradicionais do jugo estatal. Em
                      20 anos de "socialismo com características chinesas", outra expressão
                      de Deng para explicar a estranha mistura de princípios de mercado com
                      governo comunista, a economia chinesa ingressou na modernidade a
                      galope. O importante era obter resultados, política que Deng ilustrou com
                      a comparação "não importa a cor do gato desde que cace ratos".

                      Entre 1978 e 1992, o Produto Interno Bruto chinês, atualmente próximo do
                      patamar de US$ 1 trilhão, cresceu à média anual de 8,6% (neste ano,
                      beira os 7%). O estatismo absoluto do período de Mao foi trocado por uma
                      economia exportadora, como a dos primos asiáticos, baseada em
                      mão-de-obra farta e barata. A indústria chinesa voltada para a exportação
                      é imbatível em brinquedos, plásticos e têxteis. Há 20 anos, a China
                      exportava o equivalente a US$ 10 bilhões; em 1995, exportou US$ 149
                      bilhões. As reservas monetárias, nulas quando Mao morreu, em 1976,
                      agora superam US$ 150 bilhões.

                      O aumento do PIB gerou conforto, salários melhores e acesso a bens de
                      consumo (leia à pág. 119). Além disso, sepultou um tipo de socialismo
                      que se consagrara em mobilizações populares gigantescas, como a
                      Revolução Cultural (1966-1976), e no coletivismo rural. O país era pobre e
                      isolado. Hoje a China exibe sinais exteriores de riqueza que rivalizam com
                      os de grandes metrópoles ocidentais - basta citar Xangai, a maior cidade,
                      com sua linha de arranha-céus, e Hong Kong, o protetorado britânico que
                      voltou ao regaço de Pequim em 1997.

                      A China que desembarca no novo milênio é um país no meio de uma
                      profunda transformação econômica, mas também em crise de identidade.
                      O Partido Comunista continua preso a princípios stalinistas e maoístas
                      que enfatizam a luta de classes e a ditadura do proletariado. Na verdade,
                      o PC comanda uma ditadura escorada no aparato de segurança e no
                      Exército de Libertação Popular, braço armado do comunismo chinês
                      fundado em 1927, atualmente com 2,8 milhões de soldados. O PC
                      governa e não admite oposição. A cúpula se diz reformista, mas isso não
                      significa que seja favorável à democratização. O que o presidente Jiang
                      Zemin busca é um modo de, conservando o sistema de partido único,
                      tornar o Estado mais eficiente. Ao mesmo tempo, pretende aprofundar os
                      vínculos do capitalismo chinês com o mercado global, como demonstra,
                      aliás, o empenho do governo em associar a China à Organização Mundial
                      de Comércio (OMC). Trata-se, enfim, de combinar o autoritarismo do
                      Estado com crescentes liberdades econômicas e sociais.
 

                       De Mao a Jiang
                       Os 50 anos do comunismo chinês

                       1949 Mao Tsé-tung vence a guerra civil e implanta o comunismo.
                       Os nacionalistas fogem para Taiwan.
                       1958 O Grande Salto à Frente força a coletivização da produção.
                       A fome gerada com o programa do governo deixa 30 milhões de
                       mortos.
                       1966 Começo da Revolução Cultural, momento mais radical da
                       revolução. Mao expurga o Partido Comunista de seus adversários.

                       1972 Richard Nixon visita Pequim e aproxima a China dos
                       Estados Unidos.
                       1976 Morre Mao. Seus seguidores mais próximos e sua viúva são
                       presos.
                       1978 Deng Xiaoping lança reformas econômicas pró-capitalistas.
                       1989 O governo reprime atos por democracia na Praça da Paz
                       Celestial. Cerca de 3 mil são mortos.
                       1997 Morre Deng. Jiang Zemin se fortalece como líder dos
                       comunistas.
 

                      O que se indaga, em essência, é se as crescentes aberturas econômicas
                      não acarretarão uma inevitável mudança democrática. A liderança do PC
                      recusa liminarmente qualquer proposta de democratização da China e não
                      brinca em serviço caso se sinta ameaçada. A melhor prova disso é a
                      repressão ao movimento pró-democracia na Praça da Paz Celestial, em
                      1989. Cometerá um erro, no entanto, quem afirmar que a democracia é
                      um conceito estranho aos chineses. A história chinesa, lembra Jonathan
                      Spence, está repleta de instituições e associações que escolhem seus
                      líderes e tomam decisões com base em eleições. Mas, embora nos dias
                      atuais haja mais liberdade e tolerância do que há 20 anos, a maioria dos
                      chineses não parece disposta a pedir mais democracia aos governantes.
 
 

                             A revolução Deng
                             Entre 1978 e meados dos anos 90, a China
                             cresceu
                             à média anual de 8,6%

                             Grãos - em milhões de toneladas
                             1978: 305
                             1997: 494

                             Aço - em milhões de toneladas
                             1978: 37
                             1996: 101

                             Carvão - em milhões de toneladas
                             1978: 620
                             1996: 1.400

                             TV em cores - por 100 domicílios*
                             1985: 17
                             1997: 100

                             Geladeiras - por 100 domicílios*
                             1985: 7
                             1997: 73

                             Telefones - por mil pessoas*
                             1978: 2
                             1997: 69

                                                         * Áreas urbanas
 

                      A população pode parecer confusa quanto a temas como democracia e
                      cultura, por exemplo, mas sabe muito bem o que deseja. Quer, como
                      qualquer habitante de outro país, melhorar de vida. O presidente Jiang
                      Zemin, engenheiro de 73 anos, manteve as reformas iniciadas por seu
                      mentor, Deng Xiaoping. Mas os obstáculos que tem pela frente são cada
                      vez maiores, a começar pelo abismo que separa as zonas econômicas
                      especiais, nas quais surgiram os primeiros chineses milionários, das
                      áreas rurais, ainda mergulhadas na miséria. A corrupção, que envolve
                      sobretudo funcionários do governo e membros do PC, é outro problema
                      grave. Um único exemplo é suficiente para dimensionar a extensão do
                      desafio: relatório oficial de outubro do ano passado informa que, de US$
                      65 bilhões destinados pelo governo chinês à compra de grãos de
                      fazendeiros, desde 1992, cerca de US$ 25 bilhões, ou quase 40%, foram
                      desviados por um megaesquema de corrupção.

                      Jiang representa a terceira geração de comunistas chineses no poder,
                      depois de Mao e Deng. Não exibe o brilho nem o carisma dos
                      antecessores, mas tem garantido a estabilidade do regime. Esse é seu
                      maior mérito - e não é pouco. Estabilidade é a palavra-chave da história da
                      China comunista.

                                                                Izalco Sardenberg
 
 

                       O que é o regime chinês

                       Como é o sistema de governo?
                       Trata-se de uma república com partido único, o Comunista. Quem
                       dá as ordens é a cúpula do PC. As críticas são proibidas, e os
                       opositores presos e condenados.

                       Qual é o papel do Exército?
                       O Exército de Libertação Popular, criado por Mao Tsé-tung, é uma
                       das principais forças nas quais o regime se apóia. Conta com 2,8
                       milhões de homens e orçamento da ordem de US$ 10 bilhões por
                       ano. Desde 1964 a China é uma potência nuclear.

                       O que foram as reformas implantadas por Deng Xiaoping?
                       Foram uma maneira de tornar a economia mais eficiente, mas
                       sem abrir mão dos princípios socialistas. O sistema recebeu o
                       nome de "economia socialista de mercado". Desde 1978, os
                       chineses foram autorizados a abrir negócios, e grupos
                       estrangeiros puderam investir no país. As exportações são
                       privilegiadas, e o Estado já não é o único dono dos meios de
                       produção. Por causa das reformas, surgiram diferenças de
                       classes, que eram combatidas no começo da revolução.

                       O que foi o massacre da Praça da Paz Celestial, em
                       Pequim?
                       Em 1989, protestos estudantis a favor da democracia, que haviam
                       começado há três anos, atingiram o ápice. Cerca de 1 milhão de
                       pessoas, principalmente estudantes, se estabeleceram em Tian
                       An Men, a Praça da Paz Celestial, em Pequim, para exigir
                       reformas e a demissão do governo. No dia 19 de maio, o
                       primeiro-ministro, Li Peng, chama o Exército para desocupar a
                       praça. Incapazes de dispersar pacificamente os manifestantes, os
                       militares abriram fogo na madrugada de 4 de junho. Estima-se que
                       3 mil pessoas tenham sido mortas.

                       Quem são os dissidentes chineses?
                       São os que se opõem ou criticam o governo comunista. Embora o
                       crime de contra-revolução não exista mais na legislação chinesa
                       desde 1997, a repressão política continua implacável. Há milhares
                       de dissidentes, informam organizações de defesa de direitos
                       humanos.Eles são acusados de "ameaçar a segurança do
                       Estado", segundo uma lei de 1993, ou, se tiverem qualquer
                       contato com estrangeiros, de "espionagem".

                       O que é a questão de Taiwan?
                       As forças nacionalistas do Kumintang, derrotadas por Mao em
                       1949, refugiaram-se na Ilha de Taiwan e lá fundaram um regime
                       autoritário com apoio dos Estados Unidos.A China considera
                       Taiwan uma província rebelde e ameaça invadi-la.
 
 

3.

                                         Cabeças raspadas
                                         por fora e por dentro

                                         A simples vista de um
                                         homossexual os excita

                                         Não é fácil encontrar uma idéia ou algo
                                         parecido na confusão mental que é a cabeça de
                                         um skinhead, em geral mais raspada por dentro
                                         que por fora. Procura-se, procura-se, e o
                                         máximo que se encontra para justificar
                      tamanha reserva de ódio e brutalidade são reflexos condicionados. Os
                      carecas não pensam, respondem a estímulos; não raciocinam, têm
                      impulsos. O que dizem não faz sentido, o que fazem é irracional.

                      Gostam de atacar em bando e cometem as maiores atrocidades, como
                      demonstraram no massacre do homossexual Edson Néris da Silva, que,
                      embora acostumado a adestrar cães, nada pôde fazer diante de 18
                      desses animais enfurecidos. Tais surtos de cólera são em geral letais,
                      não há soro ou vacina para neutralizá-los.

                      Ao contrário das feras animais, que precisam de motivação para a
                      violência - fome, disputa de espaço, vontade de posse -, os espécimes
                      humanos de cabeça raspada praticam o mal gratuitamente, por puro
                      prazer, provavelmente por desvio de libido, que quando muda seu campo
                      natural de ação, migrando de uma parte para outra, transforma a violência
                      em gozo. Eros, o deus do amor, vira Tânatos, a morte.

                      A simples vista de um homossexual, ou de preferência dois, excita-os
                      desvairadamente, assim como o cheiro de sangue aguça o apetite dos
                      carnívoros. Odeiam de tal maneira os gays que deve ocorrer com eles o
                      fenômeno de projeção que psicólogos diagnosticaram na obsessão de
                      Hitler pelos judeus: o führer achava que estava neles o que mais odiava
                      em si mesmo.

                      Transferia suas desilusões artísticas, seus traumas de uma infância
                      infeliz, seus fracassos e culpas sexuais para os judeus. Só essa mistura
                      infalível de inveja e frustração, de amor e ódio, é capaz de produzir e
                      armazenar cargas inesgotáveis de raiva e violência.

                      É como se alguma coisa no "outro", no diferente, no supostamente
                      contrário despertasse certas zonas de interdição e sombra, mobilizando
                      em si fantasias reprimidas e poderosos desvios recalcados. A erupção
                      dessa lava de medo de si e desejo do outro toma a forma e a consistência
                      de um irresistível ódio.

                      O mais engraçado é que os skinheads se consideram normais; anormais
                      são os homossexuais. Um dos acusados pelo trucidamento de Néris
                      declarou que os carecas lutam pelo "melhor convívio entre os
                      semelhantes". Com certeza, entre um massacre e outro. Outra cabeça
                      raspada alegou que o movimento não é racista porque admite negros e
                      nordestinos - "só" não toleram judeus e homossexuais. Falam em defesa
                      de "nossa cultura e de nosso povo" com a mesma tranqüilidade com que
                      trucidam pessoas indefesas.

                      Importação estrangeira, os skinheads brasileiros estão para seus colegas
                      europeus assim como Plínio Salgado, o "ideólogo" que eles dizem
                      admirar, está para Mussolini ou Hitler. Seriam uma paródia risível e
                      grosseira, uma caricatura grotesca, se não tivessem a capacidade de
                      encarnar e fazer o mal - ridículos, mas nocivos. São uma minoria, uma
                      minoria que deve ser mantida como tal. Na impossibilidade de evitar o
                      vírus ou curar o mal, que se impeça pelo menos sua propagação por
                      contágio.

Revista época
4.
 
 

                      RÚSSIA

                      Superespião no Kremlin

                      Embalado pela campanha militar na Tchetchênia, mas de
                      idéias desconhecidas, Putin é o favorito nas
                      eleições presidenciais

                      O presidente interino da Rússia, Vladimir Putin, é um enigma. Acumula o
                      cargo de primeiro-ministro e será candidato à eleição presidencial
                      marcada para 26 de março próximo. Desde já é o favorito, segundo as
                      pesquisas. Ele foi espião da KGB - a polícia política soviética - durante 17
                      anos, sobretudo na então Alemanha Oriental, e é casado com uma
                      professora universitária chamada Ludmila, que até hoje só apareceu em
                      público duas vezes. O casal tem duas filhas adolescentes.

                      Putin é formado em Direito em São Petersburgo, onde nasceu há 47 anos.
                      Como espião, viveu nas sombras e se aposentou com a patente de
                      coronel. No governo Ieltsin, galgou postos, demonstrando lealdade e
                      eficiência. Fora isso, sabe-se pouco a respeito do homem que deverá ser
                      o segundo presidente eleito da Rússia após o colapso da União Soviética.

                      Putin é presidente interino desde o último dia 31, quando Boris Ieltsin
                      renunciou abruptamente ao cargo que mantinha desde 1991. A
                      popularidade de Putin está inteiramente associada à atual campanha
                      militar russa na Tchetchênia, república autônoma de maioria muçulmana
                      no Cáucaso, a 1.200 quilômetros ao sul de Moscou, a capital russa. A
                      ofensiva foi suspensa temporariamente na semana passada. O motivo
                      oficial é a necessidade de proteger civis que estariam sendo usados como
                      escudo por rebeldes tchetchenos em Grozni, a capital da república.

                      Entre 1994 e 1996, os russos sofreram uma derrota humilhante para os
                      separatistas tchetchenos, que declararam a independência de fato da
                      república. A nova guerra restaurou o orgulho e o moral do Exército russo e
                      tem o apoio maciço da população. Putin, enquanto primeiro-ministro,
                      empenhou-se no endurecimento dos ataques e conquistou a simpatia
                      dos russos.

                      Ele cultiva a imagem de homem de ação e parece à vontade entre
                      militares. Sua primeira providência quando se tornou presidente interino,
                      na virada de 2000, foi visitar a frente tchetchena. Ao lado da mulher,
                      Ludmila, distribuiu medalhas e presentes a soldados em Gudermes, a
                      segunda cidade da Tchetchênia, sob domínio russo desde novembro.

                      "Nosso objetivo não é apenas restaurar a honra e a dignidade da Rússia",
                      disse Putin na ocasião. "Trata-se sobretudo de evitar o esfacelamento da
                      Federação Russa", completou, referindo-se ao país por seu nome oficial -
                      a federação é formada por 86 províncias, repúblicas, territórios e regiões
                      autônomas. Ao conceder a primeira entrevista coletiva como presidente,
                      na semana passada, vinculou a integridade da Federação Russa ao
                      sucesso militar no Cáucaso.

                      A guerra começou há quatro meses, depois que guerrilheiros tchetchenos
                      invadiram o Daguestão, outra república autônoma russa, vizinha da
                      Tchetchênia. O objetivo dos rebeldes era instalar um regime islâmico no
                      Daguestão. O Kremlin, sede do poder russo, em Moscou, despachou
                      tropas para o Cáucaso e expulsou os rebeldes. Na mesma ocasião,
                      atentados a bomba derrubaram prédios em cidades russas, inclusive
                      Moscou, matando mais de 300 pessoas.

Revista época
                                                            5.
                      RÚSSIA

                      Alegria no Kremlin

                      Partido pró-governamental ganha cadeiras em eleição
                      legislativa e poderá formar maioria

                      O resultado foi uma vitória para o governo do presidente Boris Ieltsin.
                      Abertas as urnas das eleições de domingo 19, constatou-se que os dois
                      partidos mais próximos do governo receberam votos suficientes para
                      batalhar pela maioria na Duma, a Câmara baixa do Legislativo russo.Com
                      90% dos votos apurados até a semana passada, os números representam
                      uma notícia excelente para um governo que, comandado por um
                      presidente semi-inválido, vinha tropeçando de crise em crise desde o ano
                      passado. As urnas injetaram confiança no Kremlin, a sede do governo, e
                      impulsionaram a candidatura do primeiro-ministro, Vladimir Putin, à
                      sucessão de Ieltsin, em junho próximo. Putin era desconhecido até alguns
                      meses atrás, quando foi indicado por Ieltsin para chefiar o governo.
                      Ex-integrante da KGB, a antiga polícia política dos soviéticos, caiu nas
                      boas graças dos russos ao associar seu nome à atual campanha militar
                      russa na Tchetchênia, pequena república separatista do Cáucaso.

                      A guerra começou em setembro e está sendo bem-sucedida, embora a
                      um alto custo para a população civil tchetchena. Indiferentes com as
                      vítimas civis, os russos se sentem gratificados com a atual ofensiva militar
                      e a atribuem a Putin. Na semana passada, os tanques russos estavam às
                      portas de Grosny, a capital tchetchena. O primeiro-ministro não se
                      candidatou a nenhuma cadeira, mas apoiou o partido Unidade, criado há
                      apenas dois meses pelo Kremlin. Foi o suficiente para que a nova
                      agremiação recebesse uma montanha de votos. Outro nome do Unidade
                      que desperta a simpatia do eleitorado é o do presidente do partido, o atual
                      ministro das Emergências Sociais, Serguei Shoigu. Jovem, Shoigu tem
                      fama de homem de ação.

                      Juntos, Putin e Shoigu parecem reunir forças suficientes para ameaçar o
                      Partido Comunista. Na Duma antiga, os comunistas, liderados por
                      Guennadi Ziuganov, conseguiram bloquear a maioria das reformas
                      propostas pelo governo. Perderam esse poder. No Parlamento novo, o PC
                      continua a ostentar a maior bancada, mas deve perder a maioria para uma
                      coligação pró-governamental, cujas estrelas são o Unidade e a União das
                      Forças doDireito (liberal). A razão principal do avanço dos partidos
                      favoráveis ao Kremlin é a guerra tchetchena. A campanha militar ofuscou
                      todos os demais temas eleitorais.
 

                      O novo Parlamento

                      Com 90% dos votos apurados, comunistas perderam terreno

                      Os comunistas devem ficar com 111 cadeiras; na Duma antiga, tinham
                      127 e bloqueavam as reformas propostas pelo governo.

                      O Unidade é o segundo partido, mas pode constituir maioria se se juntar a
                      outros grupos.

                      O partido Pátria Rússia, do prefeito de Moscou, Iuri Lujkov, e do antigo
                      primeiro-ministro Ievgueni Primakov, decepcionou,

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