
1.
ALEMANHA
A provocação
Na polêmica do ano, filósofo alemão diz que a engenharia
genética deve ser usada para criar seres superiores
Peter Sloterdijk, 52 anos, filósofo profissional e humorista eventual,
precipitou a Alemanha num feroz debate que nada tem de acadêmico.
Foi
só juntar a pesada carga do passado recente alemão com a
peculiar
angústia germânica diante do futuro próximo: Sloterdijk
defende a idéia de
que a engenharia genética deve ser utilizada para criar seres superiores
-
uma super-raça. O primeiro passo, diz o filósofo, é
aposentar o
humanismo e a idéia de que todos os homens são iguais. "Temos
que
planejar o ser humano" com as técnicas já desenvolvidas em
laboratório,
provoca Sloterdijk.
Foi um escândalo de proporções wagnerianas. Professor
de Filosofia na
Universidade de Karlsruhe e um dos principais consultores da editora
Suhrkamp, sólida instituição do mundo intelectual
alemão, Sloterdijk está
longe de ser um nazista incorrigível ou um racista hidrófobo.
Trata-se,
antes, de um livre-pensador, que ficou muito conhecido na Alemanha
durante uma polêmica na qual atacou os "reflexos espasmódicos
da
geração de 1968", ou seja, a consciência liberal-humanista.
Por onde
passa, Sloterdijk faz barulho. Sua última heresia foi pronunciada
num
seminário dedicado a um dos grandes nomes da filosofia alemã,
Martin
Heidegger, em julho passado. "Um terremoto", resumiu o sisudo Die Zeit,
um dos primeiros veículos da imprensa alemã a ter acesso
ao texto da
palestra. Na televisão, mesas-redondas de filósofos examinam
a "nova
eugenia", também chamada de "projeto genético do super-homem"
em
reportagem de capa da revista Der Spiegel, na semana passada.
Eugenia é o nome que se dá à ciência que estuda
o melhoramento da
raça humana. Relativamente popular em países como os Estados
Unidos,
o Reino Unido e a França no começo do século, a "higiene
racial" foi
transformada pelos nazistas alemães, a partir de 1933, num dos
fundamentos da ditadura de Adolf Hitler. A lógica aberrante do regime
nazista começou com a aprovação de uma lei para impedir
a reprodução
de "impurezas genéticas" e terminou com os campos de extermínio,
nos
quais morreram mais de 6 milhões de pessoas. É compreensível
que o
espetacular avanço da biologia molecular e da engenharia genética,
ou
biotecnologia, provoque fortes calafrios na Alemanha. Trata-se de um país
onde, depois da Segunda Guerra Mundial, tudo o que for feito, escrito,
dito
ou até pensado será medido em relação ao passado
nazista.
Antes mesmo de cientistas na Escócia terem anunciado, em 1997, a
clonagem da ovelha Dolly, um filme de ficção científica
lotava as salas de
cinema de todo o mundo com a idéia de que Adolf Hitler teria inventado
um jeito de fazer cópias genéticas perfeitas de si mesmo.
Hoje, pelo
menos em laboratórios, cientistas já são capazes de
tudo aquilo que os
ficcionistas previam sobre os genes, louvando ou criticando: diagnosticar
em fetos as causas de doenças hereditárias, substituir códigos
genéticos
defeituosos, clonar mamíferos e implantar células que tornem
o organismo
imune a determinados distúrbios. Teoricamente, além disso,
seria possível
manipular os genes responsáveis pela agressividade, pela beleza
e pela
inteligência. Em pouco tempo, estaria aberto o caminho para um
verdadeiro design do ser humano.
Orientado por especialistas de uma nova carreira acadêmica, a Bioética,
o
governo alemão já proibiu por lei quase todos esses experimentos.
Mas,
aparentemente convencido de que tudo o que é tecnicamente possível
acaba mesmo sendo realizado, Peter Sloterdijk decidiu atacar os
preceitos filosóficos que regulam a ética da biotecnologia.
Chamou como
testemunha não só o filósofo grego Platão,
cuja República já estava
repleta de seres superiores especialmente educados. Tomou como
cúmplice um dos grandes nomes da filosofia alemã, Friedrich
Nietzsche,
para quem não bastava a "domesticação social" do homem.
Encontrou
consolo filosófico também nos textos de Heidegger. É
preciso "dirigir a
procriação", afirma Sloterdijk, parafraseando os mestres.
E é necessário
pensar em "seleção", a palavra que, para todo alemão,
revive a imagem
dos oficiais nazistas separando, na rampa de Auschwitz, os prisioneiros
que iam diretamente para a câmara de gás dos que ainda podiam
ser
empregados em trabalhos forçados.
Abordar esses temas, com essas palavras - na mesma Alemanha onde
um escritor presenteia organizações antinazistas com metade
de seu
Prêmio Nobel de Literatura (leia mais sobre Günter Grass na
página 91) -,
é suficiente para definir o temperamento provocador de Sloterdijk.
Bem-falante e exímio esgrimista verbal, o filósofo batizou
a Alemanha de
"clube do estresse". Seu mais novo alvo é o "fantasma do humanismo"
e
a "teoria crítica" desenvolvida por dois outros grandes filósofos
alemães,
Theodor Adorno e Jürgen Habermas. Críticos apontam no polemista
uma
forte desconfiança em relação à natureza humana,
além de tendências
elitistas e antidemocráticas.
Onde o consenso liberal e esquerdista enxerga harmonia e progresso,
com base na noção de que o ser humano é capaz de domar
a si mesmo,
Sloterdijk vê apenas uma "orgia de instintos" ou uma explosão
de
impulsos naturais, só controlável por meio da "reforma genética
da raça",
agora ao alcance da moderna biotecnologia. Com outras palavras,
comentando os últimos avanços da genética, o biofísico
Gregory Stick, da
Universidade da Califórnia em Los Angeles, disse a mesma coisa:
"Acabamos de assumir o controle da nossa própria evolução".
A virulência do debate alemão não é, porém,
sinal de uma particularidade
regional. Sloterdijk provocou não só uma comunidade intelectual
ainda às
voltas com crimes cometidos por antepassados. Em países como o Reino
Unido ou os Estados Unidos, a ética se adapta ao avanço da
ciência. Na
Alemanha (e, em boa parte, também na França), a ética
que regula a
utilização da biotecnologia se desenvolve a partir do entendimento
filosófico do que é o ser humano e de que é a ciência
que tem de se
submeter à ética, e não o contrário. Para os
alemães (incluindo
Sloterdijk), a falta de qualquer premissa filosófica pode levar
a extremos
como o do bioético americano Peter Singer, da prestigiosa Universidade
de Princeton, nos Estados Unidos. Singer afirma que pessoas
extremamente debilitadas estão, do ponto de vista ético,
no mesmo
patamar de chimpanzés, justificando-se, assim, a eliminação
de
recém-nascidos portadores de graves deficiências físicas.
Na semana
passada, ao reclamar da pancadaria verbal que vem sofrendo, Sloterdijk
tentou esfriar o debate com uma piada. "Quando penso nos meus
críticos", escreveu num jornal de Berlim, "gostaria que a arte de
procriar
gente culta e simpática estivesse mais avançada".
William Waack, de Londres
Perfil Peter Sloterdijk
Formação
Nasceu em Karlsruhe em 1947. Formou-se em Filosofia e História.
Carreira
Professor de Filosofia desde 1992 na Universidade de Karlsruhe.
Obras
Crítica da Razão Cínica, 1983; Auto-Ensaio, 1996.
A ordem nazista
Exterminar os "impuros" e promover a "raça superior"
Ponto de partida No poder, o regime nazista aprovou uma lei para
impedir a reprodução de "impurezas genéticas". O resultado
foi a
esterilização forçada de milhares de epiléticos,
esquizofrênicos,
alcoólatras, cegos, surdos e retardados. Outra lei proibiu casamentos
de pessoas com "problemas genéticos", a base para experimentos
de eutanásia ("abreviar a vida de incuráveis") que levaram
à execução
de desequilibrados mentais.
"Solução final" Os campos de concentração nazistas,
onde
morreram mais de 6 milhões de pessoas, foram criados para
exterminar "raças" consideradas "inferiores", como judeus, eslavos,
ciganos etc. Na outra ponta, os nazistas trataram de promover a
"raça superior": o governo alemão oferecia créditos
subsidiados a
casais definidos como "puros" geneticamente. Objetivo: estimular a
reprodução dos "melhores".
Idéias e polêmicas
Friedrich Nietzsche
Um dos pensadores mais instigantes do século 19 e autor de Assim
Falou Zaratustra, é o criador da idéia de que o homem precisa
ser
superado pelo super-homem.
Martin Heldegger
Filósofo alemão, autor de O Ser e o Tempo e de Carta sobre
o
Humanismo. Foi um dos mais originais e polêmicos pensadores do
século. Integrou o Partido Nacional-Socialista (nazista) até
1943.
Engenharia genética
Um dos ramos mais revolucionários da ciência moderna, é
a
capacidade de interferir nos genes para obter melhoras na saúde
dos
organismos e na agricultura.
Clonagem
A duplicação de seres vivos em laboratório começou
em 1996 com o
cientista escocês Ian Wilmut. Ele clonou uma ovelha e desse
procedimento nasceu a famosa Dolly.
2.
CHINA
A revolução cinqüentona
O comunismo criado por Mao faz aniversário, mas o
movimento que alavancou a prosperidade foi iniciado em
1978 por Deng
A China fundada por Mao Tsé-tung, o imperador vermelho, comemora
50
anos no próximo 1o de outubro, sexta-feira. Fiel a um estilo que
cultiva o
triunfalismo, o Partido Comunista, centro do poder chinês, organizou
uma
megafesta em Pequim, a capital do país, que consumirá o equivalente
a
US$ 60 milhões dos cofres oficiais. Cerca de meio milhão
de convidados
são aguardados na cidade, cujas praças, avenidas e principais
prédios
públicos passaram por uma recauchutagem completa. Mais de 100 mil
migrantes, ou chineses de áreas rurais desempregados, que vivem
de
biscates na capital, foram temporariamente removidos da região.
Haverá
desfiles militares, espetáculos de dança e fogos de artifício.
Os dirigentes
comunistas, encabeçados pelo presidente Jiang Zemin, assistirão
à festa
na monumental Praça da Paz Celestial, no coração de
Pequim.
O simbolismo é notável. Foi lá que o Exército
suprimiu a bala as
manifestações a favor da democracia, há dez anos,
promovendo uma
matança que, dependendo da fonte, varia de 200 (a oficial) a mais
de 3 mil
jovens (a dos dissidentes). Mas foi lá que Mao anunciou o nascimento
da
República Popular da China, no dia 1o de outubro de 1949, depois
de
quase meio século de guerra civil entre comunistas e nacionalistas,
além
da invasão japonesa, que deixou um saldo de 50 milhões de
mortos.
O maior legado de Mao, nota o historiador inglês Jonathan Spence,
é ter
unificado um território várias vezes retalhado e humilhado
por rebeliões e
inimigos estrangeiros em cinco milênios de História. Depois
que os
comunistas tomaram o poder e as forças nacionalistas se refugiaram
em
Taiwan, a China impôs-se ao mundo como nação unificada.
"Mao teve um
papel histórico na unificação", disse Spence a Época.
Mas, apesar do
respeito e da veneração ainda despertados entre os chineses
pela figura
do Grande Timoneiro (como Mao era conhecido), a verdadeira razão
para
festejar tem de ser procurada em outra revolução, mais recente
- a
capitaneada pelo arquiteto da "economia socialista de mercado", Deng
Xiaoping. A utopia igualitária de Mao, em suas diversas fases, nunca
encheu de arroz as tigelas dos chineses. A imposição do sistema
de
produção comunal, no final dos anos 50, revelou-se um desastre.
O
projeto governamental, apelidado de Grande Salto à Frente, inviabilizou
as
colheitas e matou de fome e doenças 30 milhões de chineses.
A
revolução de Deng, que sucedeu a Mao nos anos 70, abriu as
portas para
um progresso e uma prosperidade inéditos na história chinesa
deste
século.
Sem pirotecnia, Deng engavetou a luta de classes, pedra de toque do
maoísmo, e introduziu novo mantra: a modernização
econômica. "Ser rico
é glorioso", foi o slogan (extraído de uma entrevista de
Deng) que serviu de
arrancada para as mudanças. O primeiro passo foi liberar o produtor
rural
das amarras do coletivismo agrário. Em seguida o governo criou as
quatro
zonas econômicas especiais, verdadeiros bolsões capitalistas,
e mais
adiante começou a liberar as indústrias tradicionais do jugo
estatal. Em
20 anos de "socialismo com características chinesas", outra expressão
de Deng para explicar a estranha mistura de princípios de mercado
com
governo comunista, a economia chinesa ingressou na modernidade a
galope. O importante era obter resultados, política que Deng ilustrou
com
a comparação "não importa a cor do gato desde que
cace ratos".
Entre 1978 e 1992, o Produto Interno Bruto chinês, atualmente próximo
do
patamar de US$ 1 trilhão, cresceu à média anual de
8,6% (neste ano,
beira os 7%). O estatismo absoluto do período de Mao foi trocado
por uma
economia exportadora, como a dos primos asiáticos, baseada em
mão-de-obra farta e barata. A indústria chinesa voltada para
a exportação
é imbatível em brinquedos, plásticos e têxteis.
Há 20 anos, a China
exportava o equivalente a US$ 10 bilhões; em 1995, exportou US$
149
bilhões. As reservas monetárias, nulas quando Mao morreu,
em 1976,
agora superam US$ 150 bilhões.
O aumento do PIB gerou conforto, salários melhores e acesso a bens
de
consumo (leia à pág. 119). Além disso, sepultou um
tipo de socialismo
que se consagrara em mobilizações populares gigantescas,
como a
Revolução Cultural (1966-1976), e no coletivismo rural. O
país era pobre e
isolado. Hoje a China exibe sinais exteriores de riqueza que rivalizam
com
os de grandes metrópoles ocidentais - basta citar Xangai, a maior
cidade,
com sua linha de arranha-céus, e Hong Kong, o protetorado britânico
que
voltou ao regaço de Pequim em 1997.
A China que desembarca no novo milênio é um país no
meio de uma
profunda transformação econômica, mas também
em crise de identidade.
O Partido Comunista continua preso a princípios stalinistas e maoístas
que enfatizam a luta de classes e a ditadura do proletariado. Na verdade,
o PC comanda uma ditadura escorada no aparato de segurança e no
Exército de Libertação Popular, braço armado
do comunismo chinês
fundado em 1927, atualmente com 2,8 milhões de soldados. O PC
governa e não admite oposição. A cúpula se
diz reformista, mas isso não
significa que seja favorável à democratização.
O que o presidente Jiang
Zemin busca é um modo de, conservando o sistema de partido único,
tornar o Estado mais eficiente. Ao mesmo tempo, pretende aprofundar os
vínculos do capitalismo chinês com o mercado global, como
demonstra,
aliás, o empenho do governo em associar a China à Organização
Mundial
de Comércio (OMC). Trata-se, enfim, de combinar o autoritarismo
do
Estado com crescentes liberdades econômicas e sociais.
De Mao a Jiang
Os 50 anos do comunismo chinês
1949 Mao Tsé-tung vence a guerra civil e implanta o comunismo.
Os nacionalistas fogem para Taiwan.
1958 O Grande Salto à Frente força a coletivização
da produção.
A fome gerada com o programa do governo deixa 30 milhões de
mortos.
1966 Começo da Revolução Cultural, momento mais radical
da
revolução. Mao expurga o Partido Comunista de seus adversários.
1972 Richard Nixon visita Pequim e aproxima a China dos
Estados Unidos.
1976 Morre Mao. Seus seguidores mais próximos e sua viúva
são
presos.
1978 Deng Xiaoping lança reformas econômicas pró-capitalistas.
1989 O governo reprime atos por democracia na Praça da Paz
Celestial. Cerca de 3 mil são mortos.
1997 Morre Deng. Jiang Zemin se fortalece como líder dos
comunistas.
O que se indaga, em essência, é se as crescentes aberturas
econômicas
não acarretarão uma inevitável mudança democrática.
A liderança do PC
recusa liminarmente qualquer proposta de democratização da
China e não
brinca em serviço caso se sinta ameaçada. A melhor prova
disso é a
repressão ao movimento pró-democracia na Praça da
Paz Celestial, em
1989. Cometerá um erro, no entanto, quem afirmar que a democracia
é
um conceito estranho aos chineses. A história chinesa, lembra Jonathan
Spence, está repleta de instituições e associações
que escolhem seus
líderes e tomam decisões com base em eleições.
Mas, embora nos dias
atuais haja mais liberdade e tolerância do que há 20 anos,
a maioria dos
chineses não parece disposta a pedir mais democracia aos governantes.
A revolução Deng
Entre 1978 e meados dos anos 90, a China
cresceu
à média anual de 8,6%
Grãos - em milhões de toneladas
1978: 305
1997: 494
Aço - em milhões de toneladas
1978: 37
1996: 101
Carvão - em milhões de toneladas
1978: 620
1996: 1.400
TV em cores - por 100 domicílios*
1985: 17
1997: 100
Geladeiras - por 100 domicílios*
1985: 7
1997: 73
Telefones - por mil pessoas*
1978: 2
1997: 69
* Áreas urbanas
A população pode parecer confusa quanto a temas como democracia
e
cultura, por exemplo, mas sabe muito bem o que deseja. Quer, como
qualquer habitante de outro país, melhorar de vida. O presidente
Jiang
Zemin, engenheiro de 73 anos, manteve as reformas iniciadas por seu
mentor, Deng Xiaoping. Mas os obstáculos que tem pela frente são
cada
vez maiores, a começar pelo abismo que separa as zonas econômicas
especiais, nas quais surgiram os primeiros chineses milionários,
das
áreas rurais, ainda mergulhadas na miséria. A corrupção,
que envolve
sobretudo funcionários do governo e membros do PC, é outro
problema
grave. Um único exemplo é suficiente para dimensionar a extensão
do
desafio: relatório oficial de outubro do ano passado informa que,
de US$
65 bilhões destinados pelo governo chinês à compra
de grãos de
fazendeiros, desde 1992, cerca de US$ 25 bilhões, ou quase 40%,
foram
desviados por um megaesquema de corrupção.
Jiang representa a terceira geração de comunistas chineses
no poder,
depois de Mao e Deng. Não exibe o brilho nem o carisma dos
antecessores, mas tem garantido a estabilidade do regime. Esse é
seu
maior mérito - e não é pouco. Estabilidade é
a palavra-chave da história da
China comunista.
Izalco Sardenberg
O que é o regime chinês
Como é o sistema de governo?
Trata-se de uma república com partido único, o Comunista.
Quem
dá as ordens é a cúpula do PC. As críticas
são proibidas, e os
opositores presos e condenados.
Qual é o papel do Exército?
O Exército de Libertação Popular, criado por Mao Tsé-tung,
é uma
das principais forças nas quais o regime se apóia. Conta
com 2,8
milhões de homens e orçamento da ordem de US$ 10 bilhões
por
ano. Desde 1964 a China é uma potência nuclear.
O que foram as reformas implantadas por Deng Xiaoping?
Foram uma maneira de tornar a economia mais eficiente, mas
sem abrir mão dos princípios socialistas. O sistema recebeu
o
nome de "economia socialista de mercado". Desde 1978, os
chineses foram autorizados a abrir negócios, e grupos
estrangeiros puderam investir no país. As exportações
são
privilegiadas, e o Estado já não é o único
dono dos meios de
produção. Por causa das reformas, surgiram diferenças
de
classes, que eram combatidas no começo da revolução.
O que foi o massacre da Praça da Paz Celestial, em
Pequim?
Em 1989, protestos estudantis a favor da democracia, que haviam
começado há três anos, atingiram o ápice. Cerca
de 1 milhão de
pessoas, principalmente estudantes, se estabeleceram em Tian
An Men, a Praça da Paz Celestial, em Pequim, para exigir
reformas e a demissão do governo. No dia 19 de maio, o
primeiro-ministro, Li Peng, chama o Exército para desocupar a
praça. Incapazes de dispersar pacificamente os manifestantes, os
militares abriram fogo na madrugada de 4 de junho. Estima-se que
3 mil pessoas tenham sido mortas.
Quem são os dissidentes chineses?
São os que se opõem ou criticam o governo comunista. Embora
o
crime de contra-revolução não exista mais na legislação
chinesa
desde 1997, a repressão política continua implacável.
Há milhares
de dissidentes, informam organizações de defesa de direitos
humanos.Eles são acusados de "ameaçar a segurança
do
Estado", segundo uma lei de 1993, ou, se tiverem qualquer
contato com estrangeiros, de "espionagem".
O que é a questão de Taiwan?
As forças nacionalistas do Kumintang, derrotadas por Mao em
1949, refugiaram-se na Ilha de Taiwan e lá fundaram um regime
autoritário com apoio dos Estados Unidos.A China considera
Taiwan uma província rebelde e ameaça invadi-la.
3.
Cabeças raspadas
por fora e por dentro
A simples vista de um
homossexual os excita
Não é fácil encontrar uma idéia ou algo
parecido na confusão mental que é a cabeça de
um skinhead, em geral mais raspada por dentro
que por fora. Procura-se, procura-se, e o
máximo que se encontra para justificar
tamanha reserva de ódio e brutalidade são reflexos condicionados.
Os
carecas não pensam, respondem a estímulos; não raciocinam,
têm
impulsos. O que dizem não faz sentido, o que fazem é irracional.
Gostam de atacar em bando e cometem as maiores atrocidades, como
demonstraram no massacre do homossexual Edson Néris da Silva, que,
embora acostumado a adestrar cães, nada pôde fazer diante
de 18
desses animais enfurecidos. Tais surtos de cólera são em
geral letais,
não há soro ou vacina para neutralizá-los.
Ao contrário das feras animais, que precisam de motivação
para a
violência - fome, disputa de espaço, vontade de posse -, os
espécimes
humanos de cabeça raspada praticam o mal gratuitamente, por puro
prazer, provavelmente por desvio de libido, que quando muda seu campo
natural de ação, migrando de uma parte para outra, transforma
a violência
em gozo. Eros, o deus do amor, vira Tânatos, a morte.
A simples vista de um homossexual, ou de preferência dois, excita-os
desvairadamente, assim como o cheiro de sangue aguça o apetite dos
carnívoros. Odeiam de tal maneira os gays que deve ocorrer com eles
o
fenômeno de projeção que psicólogos diagnosticaram
na obsessão de
Hitler pelos judeus: o führer achava que estava neles o que mais odiava
em si mesmo.
Transferia suas desilusões artísticas, seus traumas de uma
infância
infeliz, seus fracassos e culpas sexuais para os judeus. Só essa
mistura
infalível de inveja e frustração, de amor e ódio,
é capaz de produzir e
armazenar cargas inesgotáveis de raiva e violência.
É como se alguma coisa no "outro", no diferente, no supostamente
contrário despertasse certas zonas de interdição e
sombra, mobilizando
em si fantasias reprimidas e poderosos desvios recalcados. A erupção
dessa lava de medo de si e desejo do outro toma a forma e a consistência
de um irresistível ódio.
O mais engraçado é que os skinheads se consideram normais;
anormais
são os homossexuais. Um dos acusados pelo trucidamento de Néris
declarou que os carecas lutam pelo "melhor convívio entre os
semelhantes". Com certeza, entre um massacre e outro. Outra cabeça
raspada alegou que o movimento não é racista porque admite
negros e
nordestinos - "só" não toleram judeus e homossexuais. Falam
em defesa
de "nossa cultura e de nosso povo" com a mesma tranqüilidade com que
trucidam pessoas indefesas.
Importação estrangeira, os skinheads brasileiros estão
para seus colegas
europeus assim como Plínio Salgado, o "ideólogo" que eles
dizem
admirar, está para Mussolini ou Hitler. Seriam uma paródia
risível e
grosseira, uma caricatura grotesca, se não tivessem a capacidade
de
encarnar e fazer o mal - ridículos, mas nocivos. São uma
minoria, uma
minoria que deve ser mantida como tal. Na impossibilidade de evitar o
vírus ou curar o mal, que se impeça pelo menos sua propagação
por
contágio.
RÚSSIA
Superespião no Kremlin
Embalado pela campanha militar na Tchetchênia, mas de
idéias desconhecidas, Putin é o favorito nas
eleições presidenciais
O presidente interino da Rússia, Vladimir Putin, é um enigma.
Acumula o
cargo de primeiro-ministro e será candidato à eleição
presidencial
marcada para 26 de março próximo. Desde já é
o favorito, segundo as
pesquisas. Ele foi espião da KGB - a polícia política
soviética - durante 17
anos, sobretudo na então Alemanha Oriental, e é casado com
uma
professora universitária chamada Ludmila, que até hoje só
apareceu em
público duas vezes. O casal tem duas filhas adolescentes.
Putin é formado em Direito em São Petersburgo, onde nasceu
há 47 anos.
Como espião, viveu nas sombras e se aposentou com a patente de
coronel. No governo Ieltsin, galgou postos, demonstrando lealdade e
eficiência. Fora isso, sabe-se pouco a respeito do homem que deverá
ser
o segundo presidente eleito da Rússia após o colapso da União
Soviética.
Putin é presidente interino desde o último dia 31, quando
Boris Ieltsin
renunciou abruptamente ao cargo que mantinha desde 1991. A
popularidade de Putin está inteiramente associada à atual
campanha
militar russa na Tchetchênia, república autônoma de
maioria muçulmana
no Cáucaso, a 1.200 quilômetros ao sul de Moscou, a capital
russa. A
ofensiva foi suspensa temporariamente na semana passada. O motivo
oficial é a necessidade de proteger civis que estariam sendo usados
como
escudo por rebeldes tchetchenos em Grozni, a capital da república.
Entre 1994 e 1996, os russos sofreram uma derrota humilhante para os
separatistas tchetchenos, que declararam a independência de fato
da
república. A nova guerra restaurou o orgulho e o moral do Exército
russo e
tem o apoio maciço da população. Putin, enquanto primeiro-ministro,
empenhou-se no endurecimento dos ataques e conquistou a simpatia
dos russos.
Ele cultiva a imagem de homem de ação e parece à vontade
entre
militares. Sua primeira providência quando se tornou presidente interino,
na virada de 2000, foi visitar a frente tchetchena. Ao lado da mulher,
Ludmila, distribuiu medalhas e presentes a soldados em Gudermes, a
segunda cidade da Tchetchênia, sob domínio russo desde novembro.
"Nosso objetivo não é apenas restaurar a honra e a dignidade
da Rússia",
disse Putin na ocasião. "Trata-se sobretudo de evitar o esfacelamento
da
Federação Russa", completou, referindo-se ao país
por seu nome oficial -
a federação é formada por 86 províncias, repúblicas,
territórios e regiões
autônomas. Ao conceder a primeira entrevista coletiva como presidente,
na semana passada, vinculou a integridade da Federação Russa
ao
sucesso militar no Cáucaso.
A guerra começou há quatro meses, depois que guerrilheiros
tchetchenos
invadiram o Daguestão, outra república autônoma russa,
vizinha da
Tchetchênia. O objetivo dos rebeldes era instalar um regime islâmico
no
Daguestão. O Kremlin, sede do poder russo, em Moscou, despachou
tropas para o Cáucaso e expulsou os rebeldes. Na mesma ocasião,
atentados a bomba derrubaram prédios em cidades russas, inclusive
Moscou, matando mais de 300 pessoas.
Alegria no Kremlin
Partido pró-governamental ganha cadeiras em eleição
legislativa e poderá formar maioria
O resultado foi uma vitória para o governo do presidente Boris Ieltsin.
Abertas as urnas das eleições de domingo 19, constatou-se
que os dois
partidos mais próximos do governo receberam votos suficientes para
batalhar pela maioria na Duma, a Câmara baixa do Legislativo russo.Com
90% dos votos apurados até a semana passada, os números representam
uma notícia excelente para um governo que, comandado por um
presidente semi-inválido, vinha tropeçando de crise em crise
desde o ano
passado. As urnas injetaram confiança no Kremlin, a sede do governo,
e
impulsionaram a candidatura do primeiro-ministro, Vladimir Putin, à
sucessão de Ieltsin, em junho próximo. Putin era desconhecido
até alguns
meses atrás, quando foi indicado por Ieltsin para chefiar o governo.
Ex-integrante da KGB, a antiga polícia política dos soviéticos,
caiu nas
boas graças dos russos ao associar seu nome à atual campanha
militar
russa na Tchetchênia, pequena república separatista do Cáucaso.
A guerra começou em setembro e está sendo bem-sucedida, embora
a
um alto custo para a população civil tchetchena. Indiferentes
com as
vítimas civis, os russos se sentem gratificados com a atual ofensiva
militar
e a atribuem a Putin. Na semana passada, os tanques russos estavam às
portas de Grosny, a capital tchetchena. O primeiro-ministro não
se
candidatou a nenhuma cadeira, mas apoiou o partido Unidade, criado há
apenas dois meses pelo Kremlin. Foi o suficiente para que a nova
agremiação recebesse uma montanha de votos. Outro nome do
Unidade
que desperta a simpatia do eleitorado é o do presidente do partido,
o atual
ministro das Emergências Sociais, Serguei Shoigu. Jovem, Shoigu tem
fama de homem de ação.
Juntos, Putin e Shoigu parecem reunir forças suficientes para ameaçar
o
Partido Comunista. Na Duma antiga, os comunistas, liderados por
Guennadi Ziuganov, conseguiram bloquear a maioria das reformas
propostas pelo governo. Perderam esse poder. No Parlamento novo, o PC
continua a ostentar a maior bancada, mas deve perder a maioria para uma
coligação pró-governamental, cujas estrelas são
o Unidade e a União das
Forças doDireito (liberal). A razão principal do avanço
dos partidos
favoráveis ao Kremlin é a guerra tchetchena. A campanha militar
ofuscou
todos os demais temas eleitorais.
O novo Parlamento
Com 90% dos votos apurados, comunistas perderam terreno
Os comunistas devem ficar com 111 cadeiras; na Duma antiga, tinham
127 e bloqueavam as reformas propostas pelo governo.
O Unidade é o segundo partido, mas pode constituir maioria se se
juntar a
outros grupos.
O partido Pátria Rússia, do prefeito de Moscou, Iuri Lujkov,
e do antigo
primeiro-ministro Ievgueni Primakov, decepcionou,