A Verdadeira Questão
- A evolução de um cético
Uma entrevista com o,
bioquímico e autor do recente best-seller, A Caixa
Preta de Darwin [editora Jorge Zahar]
Dr. Mike Behe, professor adjunto de bioquímica
na Lehigh University, foi um dos que apresentaram um trabalho na
RI: O que foi mais importante em participar da conferência
da Simples Criação?
Behe: Eu acho que esta conferência foi inovadora,
quase histórica. Me deixe ilustrar isto com meu próprio exemplo:
mais ou menos oito anos atrás eu cheguei à conclusão
de que a evolução Darwiniana era incapaz de explicar dados
do meu próprio campo da bioquímica. Eu cheguei àquela
conclusão por mim mesmo depois de estudar a literatura a respeito.
Mas eu também estava isolado; nenhum dos meus colegas estava falando
sobre isto. Assim, tudo que fiz foi fazer ásperas observações
sobre a evolução sempre que tinha a chance, o que foi. .
. não muito produtivo.
Nos anos que se passaram eu entrei em contato com outros
estudiosos que pensavam do mesmo modo que eu. Eles me encorajaram a pensar
que minhas idéias eram legítimas; eles disseram que minhas
idéias pudiam ser defendidas, e concordaram que havia um problema
significativo que estava sendo ignorado.
Quando você está só, você pode
apenas estar se iludindo. Mas quando você tem colegas, então
você ganha confiança para realmente explorar suas idéias.
Só de saber que há uma grande comunidade de estudiosos que
vêem aplicações de um projeto inteligente (intelligent
design) na disciplina deles já dá coragem às pessoas
para explorar esses problemas.
Assim, isto [a conferência] foi um esforço
inovador, não tanto para qualquer idéia particular que resulte
disto, mas do conhecimento de que todos estão trabalhando em grupo.
RI: Que benefícios pessoais você recebeu
através da conferência da Simples Criação?
Behe: Bem, eu encontrei várias pessoas que eu
só conhecia por email. Eu pude ver também como o projeto
inteligente poderia ser aproveitado em outras disciplinas.
Eu assisti a uma palestra de um biólogo da Alemanha
chamado Siegfried Scherer, e ele mostrou slides de animais híbridos,
cruzamentos entre espécies que normalmente não ocorrem na
natureza. Uma imagem que particularmente me impressionou foi um cruzamento
entre uma zebra e um animal que parecia um cavalo. Quando eu vi a imagem
disse a mim mesmo, "Bem, veja, essa é a imagem do cruzamento entre
um burro e uma zebra". Mas não era, era um cruzamento entre um cavalo
e uma zebra, mas simplesmente se parecia com um burro. A sua idéia
principal é que já existe uma variação oculta
presente nos animais que pode explicar muitas das características
do mundo biológico que nós vemos. E esta era uma idéia
totalmente nova para mim, e pelo que eu sei, está inexplorada.
Foi bom conhecer pessoas como Siegfried Scherer e Jon
Wells, que é um embriólogo que trabalha sobre problemas do
seu próprio campo. E foi bom ver que há bons problemas intelectuais
lá fora apenas esperando para serem resolvidos; ninguém os
está explorando agora, e eu estou ansioso para ajudar.
RI: Que impacto tem o livro de Michael Denton Evolution:
A Theory in Crisis [Adler & Adler, 1986] em sua jornada?
Behe: Como católico romano fui sempre ensinado
que Deus fez a vida, e como Ele fez era problema d'Ele. Fui ensinado de
que a melhor resposta científica, até agora, de como Deus
fez a vida era a evolução Darwiniana. Isso fazia sentido
para mim, desse modo eu nunca dei muita imporância para a evolução.
Fui ensinado nos meus anos de estudante universitário e durante
meus estudos acadêmicos em bioquímica de que todos estes sistemas
fantasticamente complicados que eu estava aprendendo eram o resultado da
evolução Darwiniana. Eu tinha uma tese para terminar, assim
eu não pensei muito nisto.
Porém, ao redor de 1987, eu li Evolution: A Theory
in Crisis (Evolução: Uma Teoria em Crise) de Michael Denton.
O livro me chocou porque ele disse que havia problemas enormes com a teoria
evolutiva sem serem discutidos. De fato, havia uma boa chance de que a
teoria estava incorreta; ela não poderia realmente descrever como
a vida surgiu. Quando eu li o livro fiquei furioso; estava chateado porque
eu percebi que muito da minha visão de mundo não estava baseada
em ciência, mas sim naquilo que as pessoas diziam, "Bem, sim, este
é o modo que aconteceu. Não se preocupe sobre isto. Talvez
você não saiba como aconteceu, mas alguém sabe".
Bem, ler o livro de Denton me fez perceber que ninguém
mais conhecia os problemas. E dali em diante eu fiquei cada vez mais interessado
nisso. Eu procurei no meu próprio campo da bioquímica e na
Academia Nacional de Ciências e no Jornal de Biologia Molecular e
lugares como esses por pesquisas que pudessem dizer como estes sistemas
bioquímicos foram gradualmente reunidos. Eu descobri rapidamente
que tais documentos não existiam. Assim, com o passar do tempo eu
desenvolvi a idéia que de fato estes sistemas eram o resultado de
um projeto inteligente.
Eu estive bem isolado durante algum tempo, mas o livro
de Phil Johnson saiu e eu o li e gostei bastante. Então eu vi num
número da revista Science que havia uma resenha do livro de Johnson.
Eu estava muito excitado e pensei, "Oh, isto é demais. Eles terão
que discutir alguns destes assuntos, e nós veremos o que eles têm
a dizer sobre isto." Eu voltei à resenha e não era uma resenha,
era simplesmente uma advertência dizendo, "Uh oh. Este livro anti-evolução
está por aí. Advirta seus estudantes; está confundindo
o público". E novamente eu fiquei bem furioso porque eles não
discutiam a substância do livro. Não era nem mesmo uma refutação,
era uma advertência. Isto não é o que a ciência
deve ser.
Assim eu escrevi uma carta ao editor de Science mostrando
que eles deveriam discutir os assuntos intelectuais envolvidos e não
apenas rejeitar algo. Science publicou a carta e Phil Johnson a viu e escreveu
a mim, e nós começamos a nos corresponder. Desde então
eu fui convidado a algumas reuniões nas quais ele está envolvido,
e essa é a maneira como eu me envolvi nesta comunidade de pessoas
interessadas neste problema.
RI: É importante que o livro de Michael Denton
seja essencialmente não-religioso?
Behe: Era importante para mim porque eu sou um cientista
e quero chegar à conclusões sobre o mundo físico pela
experiência. Novamente, eu sou católico romano e acredito
que Deus criou o mundo e é responsável pela vida dentro dele,
mas eu não tive a priori quaisquer objeções teológicas
a essa vida ser produzida através de processos completamente naturais.
Eu não sou nenhum perito em teologia, e quando as pessoas usam argumentos
teológicos para chegar a uma conclusão científica
eu sou sempre um pouco desconfiado. Denton criticou a evolução
de um ponto de vista completamente científico. E de fato, naquela
época. . . ele era basicamente um agnóstico. Para mim, isso
deu mais força aos seus argumentos - ele não tinha segundas
intenções. Eu poderia julgar pelo meu próprio background
que o que ele estava dizendo estava basicamente correto. E assim essas
duas combinações tiveram um grande impacto em mim.
RI: Como sua mudança de foco, no que concerne
à evolução bioquímica, afetou o seu ensino?
Behe: Uma vez que eu li o livro de Denton eu estava espantado
em ver que as pessoas acreditavam na evolução quando havia
este claro argumento contra ela. Mas vamos admitir, a maioria dos cientistas
realmente acreditou na evolução, e o argumento em favor dela
é melhor resumido num livro chamado O Relojoeiro Cego [Edições
70] de Richard Dawkins. O livro de Dawkins é fascinante de ler juntamente
com o de Denton porque ambos os livros usam exemplos semelhantes, mas chegam
à conclusões completamente diferentes. Denton usa uma analogia
com o idioma inglês dizendo que orações são
difíceis de se criar. Dawkins tem uma seção onde ele
usa um computador para gerar uma oração para mostrar que
a evolução é fácil. Eu percebi que estes livros
discutiam o problema num nível muito básico, não apenas
em relação à ciência, mas ao conhecimento em
geral; quer dizer, como você sabe algo; como você apóia
uma teoria com evidência; e quais extrapolações são
legítimas?
No fim de 1980, a Universidade de Lehigh decidiu desenvolver
um programa de seminários para calouros ingressantes; os seminários
são cursos que tem o objetivo de. . . fazer os novatos ficarem entusiasmados
sobre as suas carreiras de faculdade. Assim, a administração
estava procurando por voluntários que sugerissem cursos. Eu desenvolvi
um curso que chamei de "Argumentos Populares sobre Evolução"
na qual nós lemos Denton e Dawkins. Tem sido muito popular com os
estudantes. A maioria deles entra acreditando na história evolutiva
normal, mas muitos deles, quando deixam o curso, dizem que embora ainda
acreditem na evolução, agora vêem o assunto como muito
mais complexo e problemático. Como professor é meu objetivo
fazê-los pensarem por si mesmos e não simplesmente confiarem
no que as pessoas dizem, como eu fiz uma vez.
RI: Qual é o tema básico d'A Caixa Preta
de Darwin?
Behe: Em ciência, uma caixa preta é uma
máquina, dispositivo, ou sistema que faz algo, mas você não
sabe como funciona; é completamente misterioso. Pode ser misterioso
porque você não pode ver dentro ou porque você simplesmente
não pode compreendê-lo. Para Darwin e para seus contemporâneos
do século XIX a célula era uma caixa preta. A célula
que agora nós sabemos ser a base da vida era simplesmente muito
pequena, e a ciência daquela época não tinha nenhuma
ferramenta para investigá-la; os microscópios daquele tempo
ainda eram bem grosseiros e as pessoas podiam ver só os contornos
de uma célula. Assim, muitos cientistas pensaram que a célula
era bastante simples, como uma gota de geléia microscópica.
A partir daquela época, a ciência tem mostrado
que a célula é um sistema extremamente complexo que contém
proteínas e ácidos nucleicos e todos os tipos de máquinas
miniaturizadas. No meu livro eu examino várias destas máquinas
e argumento que a seleção natural Darwiniana não pode
tê-las produzido porque elas têm uma propriedade chamada de
complexidade irredutível; quer dizer, elas consistem de várias
partes, todas as quais devem estar presentes para a máquina funcionar.
Complexidade irredutível é como uma ratoeira que tem várias
partes, e todas as partes devem estar presentes antes que ela possa funcionar.
Eu argumento que tais sistemas são melhor explicados
como o resultado de um deliberado projeto inteligente. Eu cheguei àquela
conclusão por um tipo de argumento lógico indutivo: sempre
que vemos tais sistemas no mundo real, no mundo macroscópico da
nossa vida cotidiana, nós descobrimos que eles são, de fato,
projetados. Ninguém se depara com uma ratoeira e se pergunta se
foi projetada ou não. Assim, eu me pergundo se nós deveríamos
de fato aceitar a idéia de projeto inteligente e trabalhar nela
para ver aonde ela conduzirá a ciência.
RI: Houve uma reação comum dos críticos
ao seu livro?
Behe: Os críticos do meu livro têm uma reação
notavelmente semelhante e variam em intensidade dependendo da personalidade
das pessoas envolvidas. A primeira reação da maioria dos
críticos é dizer, "Bem, isto é apenas criacionismo
levemente disfarçado". E em resenhas do meu livro por cientistas
eles falam freqüentemente sobre os primeiros capítulos do Gênese
e do Julgamento da Criação de Arkansas nenhum dos quais eu
menciono no livro. Assim, eles tentam condenar o livro através do
processo de associação. Eles também não vêem
que há uma distinção entre chegar a uma conclusão
simplesmente pela observação do mundo físico, como
é suposto que um cientista o faça, e chegar a uma conclusão
baseado nas escrituras ou em convicções religiosas.
Adicionalmente, os críticos do meu livro concordaram
de forma unânime que os sistemas bioquímicos que eu descrevo
são enormemente complexos e atualmente sem explicação,
mas eles diferem nas suas prescrições. Alguns deles dizem,
"Bem, o Darwinismo eventualmente explicará isto" . Outras pessoas
dizem, "Bem, nós não sabemos como será explicado,
mas nós surgiremos com algo num futuro próximo". Minha resposta
é que o algo que nós podemos trazer à tona num futuro
próximo é a teoria do projeto inteligente. É uma idéia
legítima e perfeitamente científica e não há
nenhuma razão para evitá-la.
Uma analogia que eu gosto de traçar é com
a física: muitos físicos estavam infelizes com a idéia
do Big Bang porque parecia ter implicações teológicas
óbvias. Todavia, os físicos a aceitaram como uma teoria científica
legítima e trabalharam sobre ela. Eu vejo o projeto inteligente
do mesmo modo; pode ter implicações religiosas mas é
uma teoria científica clara baseada apenas em observações
de sistemas bioquímicos, e nós deveríamos aceitá-los
e trabalhar a partir deles.
RI: Você teve notícias de Richard Dawkins?
Behe: Não, eu não tive notícias
diretamente de Dawkins, mas eu ouvi indiretamente o que ele pensa do meu
livro. Um programa de TV público chamado "Think Tank" estava interessado
em organizar um debate entre mim e Dawkins . Eles perguntaram se eu estaria
disposto a participar, e eu alegremente disse que sim. Eles entraram em
contato com Richard Dawkins, mas ele se recusou a aparecer comigo dizendo
que era insuficientemente versado em bioquímica para discutir o
assunto. Entretanto, o programa de TV pediu para Dawkins aparecer sozinho
no programa, o que ele fez. Durante a entrevista, que eu tive oportunidade
de ver recentemente, o apresentador do programa perguntou a ele sobre o
meu livro. Ele pareceu pegar a idéia de complexidade irredutível
muito bem. Porém, ele disse que era covarde e preguiçoso
da minha parte chegar a conclusão de um projeto inteligente, e disse
que se eu pensasse por mim mesmo eu iria perceber que deve haver em algum
lugar uma explicação Darwiniana, e que eu deveria levantar
o meu traseiro e ir procurá-la.
Richard Dawkins tem certamente direito às suas
enérgicas opiniões. Mas, de fato, pela evidência, eu
acho que o projeto inteligente é a melhor explicação.
E não é uma questão de eu gostar da idéia ou
não, ou de eu gostar de dormir tarde e ser preguiçoso, ao
contrário, é de que o Darwinismo está batendo na porta
errada e eu acho que a melhor explicação científica
é o projeto inteligente.
Não obstante, eu espero poder me encontrar com
Richard Dawkins no futuro.
RI: Um alicerce no naturalismo é essencial para
um avanço constante da ciência e da tecnologia?
Behe: As suposições Darwinianas não
são necessárias para o trabalho cotidiano da ciência.
Como eu mostrei no meu livro, se você procura na literatura bioquímica
por documentos científicos que tentam explicar como sistemas bioquímicos
se desenvolveram passo a passo num estilo Darwiniano, verá que não
há nenhum. É surpreendente.
Há um jornal chamado Journal of Molecular Evolution
que tem aproximadamente 25 anos e que publicou mais de 1000 artigos desde
seu começo. O jornal publica muito sobre tentativas de determinar
quais proteínas, genes, e ácidos nucleicos estão relacionados
a outros olhando para a sua proteína ou sucessão de nucleotídeos.
Isso pode ser interessante, e pode ser uma questão legítima
por direito próprio, mas comparar sequências simplesmente
não pode lhe dizer como estas complexas máquinas moleculares
surgiram pelo passo-a-passo Darwiniano. Então, essencialmente, durante
os seus 25 anos, o Journal of Molecular Evolution evitou completamente
a real questão de como estes sistemas extremamente complexos poderiam
ter sido criados.
Assim, a maioria dos cientistas ignora completamente
a evolução no seu funcionamento, e aqueles que pensam no
assunto simplesmente procuram por associações e não
se preocupam com o Darwinismo. Extraordinariamente, isso tem muito pouco
a ver com o trabalho cotidiano da ciência e serve basicamente como
um suporte filosófico que, na minha opinião, está
apenas inibindo a verdadeira pesquisa sobre como a vida se desenvolveu.
RI: Um não-teísta pode aceitar o conceito
de projeto inteligente?
Behe: Sim, eu acho que sim. Mas sem dúvida seria
psicologicamente difícil para ele. Eu gosto de contar a história
de Francis Crick, que como se sabe é Prêmio Nobel e co-descobridor
da dupla-hélice de DNA. Crick escreveu várias vezes que os
problemas de uma origem de vida ao acaso na Terra são tão
grandes que nós deveríamos considerar a idéia de que
alienígenas espaciais enviaram uma nave à Terra para semeá-la
com esporos para iniciar a vida.
Bem, essa é uma idéia incomum mas você
pode ver que ela se ajusta com a teoria de projeto inteligente; ele está
invocando uma causa externa para o surgimento da vida. Se Francis Crick
afirmou que alienígenas inteligentes não apenas semearam
a vida na terra, mas de fato a projetaram, eu não poderia apresentar
um sistema bioquímico e discutir com ele. Eu poderia pensar que
é um pouco forçado, mas eu teria que partir para argumentos
filosóficos, teológicos ou históricos para contradizer
isso. Assim, eu acho que não-teístas poderiam chegar a uma
conclusão de um projeto inteligente, mas realisticamente eu acho
que será psicologicamente difícil para eles.
RI: Quando você começará seu próximo
livro e o qual será o assunto?
Behe: Escrever é doloroso. Eu acho que a escritora
Dorothy Parker foi uma vez perguntada no começo do século
se ela gostava de escrever, e ela respondeu que gostava de ter escrito.
Eu concordo completamente com esse sentimento. No momento estou apenas
absorvendo a reação ao meu livro e uma vez que eu veja o
resultado disso, então eu avaliarei o que pode ser o meu próximo
projeto . Mas eu não me vejo principalmente como um escritor, mas
como um cientista. O que eu estou realmente ansioso por fazer é
redigir propostas de bolsa para poder pesquisar a respeito de algumas das
idéias que tenho como resultado da teoria do projeto inteligente.
Assim, veremos o que o futuro nos guarda.
(1) Refere-se a uma lei estadual de Arkansas aprovada
em 1981 que ordenava o ensino da Ciência da Criação
nas escolas. Tempo igual também seria dado à evolução.
Uma ação legal foi organizada (McLean vs. Arkansas, 1981)
para suspender a lei. A lei foi declarada inconstitutional. (N.T.)
Publicado no site - 06/02/99