Numa semana em que novas turbulências no mercado
financeiro mundial trazem de volta a impressão (e o temor) de que
não há país completamente imune às idas e vindas
dos capitais em sua corrida pelo globo, autoridades, economistas e empresários
brasileiros trabalharam arduamente para diagnosticar o capítulo
atual da crise como meramente "externo" e localizar o Brasil numa confortável
situação de "menos vulnerável" aos altos e baixos
financeiros do que em outubro de 1997. Poucas foram as vozes discordantes.
O economista e professor francês François Chesnais não
faz parte do coro oficial. Docente na Universidade de Paris XIII, ex-assessor
da Organização de Cooperação Econômica
e Desenvolvimento, militante de esquerda que ajudou exilados brasileiros
na época do regime militar, Chesnais tem procurado, desde que a
Tailândia afundou, em julho do ano passado, explicar que não
há bodes expiatórios. Estudioso do neoliberalismo, autor
de uma das obras clássicas sobre o tema, A mundialização
do capital (Editora Xamã), Chesnais publicou textos prevendo a crise
desde a época em que o mundo acreditava na lenda dos tigres asiáticos.
Quando a tendência de alta da bolsa de Nova Iorque parecia algo tão
definitivo quanto o fim dos projetos de transformação social,
ele lembrava Marx e afirmava não ser possível sustentar um
sistema "conduzido por aqueles que vivem de renda sem trabalho e pensam
que dinheiro produz juros assim como a pereira produz peras". Chesnais
tem uma hipótese para explicar as transformações que
a sociedade brasileira vem vivendo nos governos Collor e FH. O empresariado
industrial, que ocupou o centro do poder desde os anos 30, teria sido deslocado
por um grupo social arcaico: aqueles cujos rendimentos provêm de
juros "usurários" pagos pelo Estado para financiar a dívida
interna.
Os jornais continuam apresentando a crise, todos os dias,
como se fosse resultado de turbulências nos "mercados financeiros
asiáticos". Mesmo que pareçam reconfortantes, as notícias
não serão capazes de esconder o essencial. Excetuados os
Estados Unidos, a Ásia Oriental foi, nos anos 90, a única
região do globo em que houve crescimento econômico significativo,
tanto para os investimentos verdadeiros quanto para as aplicações
financeiras especulativas. A gravidade do processo em curso está
ligada ao fato de que, por trás de um episódio aparentemente
financeiro, há na verdade uma crise econômica. Ela traduz
a dificuldade crescente das empresas - principalmente
asiáticas, mas também americanas e européias - para
vender as mercadorias produzidas, atender os objetivos de rentabilidade
fixados para os investimentos produtivos e, portanto, satisfazer os níveis
de rendimento aos quais os operadores financeiros se habituaram, sobretudo
nos Estados Unidos, ao longo desta década. Há três
mecanismos básicos de propagação do incêndio
financeiro. O primeiro está centrado no setor industrial. As empresas
se vêem obrigadas a contrair severamente sua atividade, reestruturar-se
e demitir. As medidas impostas pelo Fundo Monetário Internacional
agravam esta espiral recessiva, que já provocou, na Ásia,
a queda das exportações regionais e a busca frenética,
pelos exportadores, de novos espaços nos mercados mundiais. Este
processo acelera a deflação mundial no setor de matérias-primas,
onde a queda dos preços já havia começado, e a projeta
em direção a outros setores.O segundo mecanismo é
o sistema internacional de crédito. A dívida colossal acumulada
pelos países asiáticos foi contraída por agentes econômicos
privados: empresas e bancos, sobretudo. Os empréstimos contraídos
fazem parte de longas cadeias internacionais de crédito, cuja manutenção
está agora ameaçada. O último mecanismo de propagação
da crise é o das bolsas de valores. Elas são um mundo paranóico,
que reage de forma irracional diante das más notícias. Devido
ao caráter altamente hierarquizado das finanças, só
a partir de um crash em Nova Iorque e Chicago poderá haver um movimento
de amplitude capaz de provocar uma recessão mundial. Mas os especialistas
em mercados financeiros descartam cada vez menos esta hipótese.Em
parte, vivemos uma situação semelhantes à das crises
"clássicas" do capitalismo. Na verdade, há bolsões
localizados de superprodução em meio ao um cenário
de subacumulação e de demanda efetiva insuficiente. Os investimentos
básicos em infra-estrutura (por exemplo, redes de água, eletricidade
e transportes) estão se reduzindo mesmo nos EUA, em particular nos
bairros menos favorecidos das metrópoles. No Terceiro Mundo, a degradação
é evidentemente mais grave. Estive em São Paulo em março.
Bastou uma tempestade moderada para deixar às escuras metade da
metrópole. A crise que vai se gestando está mais claramente
relacionada ao neoliberalismo. No fim dos anos 80, houve, a partir dos
governos de Margareth Thatcher, na Inglaterra, e Ronald Reagan, nos EUA,
uma mudança no regime de acumulação capitalista. O
novo modelo que surgiu caracteriza-se por ser dominado pelas finanças
e liderado pelos EUA, que agora exercem um novo papel nas relações
internacionais. É um regime muito distinto daquele que vigorou no
mundo capitalista do pós-guerra até os anos 70, e ficou conhecido
como fordismo. As décadas de 40 a 70 foram marcadas por uma conjuntura
internacional muito particular. A Guerra Fria, e em especial a revolução
chinesa, obrigaram os EUA, líderes incontestes do mundo capitalista,
a lançar programas reais de ajuda a muitas outras economias. Eles
irrigaram de fato, com capitais e tecnologia, o restante do sistema. Os
fluxos de capital que partiam dos EUA impulsionaram de modo notável
a expansão da indústria, ao financiarem tanto a instalação
de uma nova base produtiva quanto o consumo das novas mercadorias produzidas.
Um novo clima político permitiu que, na maior parte dos países,
os ganhos de produtividade fossem repartidos entre o capital e o trabalho,
favorecendo o aumento dos salários e o estabelecimento de mecanismos
de produção social. Depois de assegurar três décadas
de crescimento econômico acelerado, este regime de acumulação
entrou em crise nos anos 70. Frente à queda da demanda interna nos
países centrais, a estratégia neoliberal consistiu em aumentar
a produtividade através da reestruturação industrial,
fusões e aquisições; em quebrar o poder do trabalho
organizado, para reduzir a dispersão de lucros; e em fechar as "janelas
de oportunidades" que haviam se aberto, através das políticas
de substituição de importações, para diversas
nações do Terceiro Mundo. Nenhum desses objetivos pôde
ser alcançado, porém, sem promover uma liberalização
financeira que quebrou todos os limites impostos, no pós-guerra,
à movimentação de capitais. A liberalização
e a desregulamentação provocaram o crescimento acelerado
dos ativos financeiros, cuja expansão foi muito mais rápida
que a do investimento. Eles passaram de US$ 10 trilhões para US$
35 trilhões entre 1980 e 1991, e continuaram crescendo sem parar.
Já no início da década, um quarto desse total eram
dívidas dos governos, inclusive porque as políticas neoliberais
afundam os países em déficits crescentes. A expansão
dos ativos financeiros permitiu que se reconstituísse uma classe
social de "credores profissionais", os rentistas, que desfrutam de rendimentos
resultantes da simples posse de títulos da dívida pública
e ações. Para retomar uma bela imagem de Marx, o sistema
passou a ser conduzido por aqueles que vivem de renda sem trabalho e pensam
que o dinheiro "produz juros assim como a pereira produz pêras".
Surgiram em conseqüência, e em todo o mundo, a bola de neve
das dívidas internas e a "ditadura dos credores". Mesmo nos EUA,
onde o déficit orçamentário caiu muito consistentemente,
o pagamento de juros se mantém.O fenômeno nunca foi visto
na escala de hoje. Os assalariados são explorados em excesso, as
diversas camadas da sociedade são pressionadas através de
impostos cujo produto serve para garantir o pagamento de juros da dívida
pública. Os rentistas alimentam-se também dos juros de empréstimos
concedidos às pequenas empresas agrícolas ou urbanas. Mas
apesar do nível de exploração do trabalho ter aumentado,
o sistema não produz valores suficientes. O investimento caiu a
níveis muito baixos, de forma que, em termos globais, a acumulação
não produz capital novo suficiente. O curioso é que este
mecanismo de transferência de riqueza, aplicado pelas políticas
neoliberais em todos os países, enfraquece a única instituição
que foi capaz, nos anos 30 e no pós-guerra, de sustentar a economia
e reverter crises, quando os mercados entraram em refluxo: o Estado. Pode-se
fazer muitas críticas a ele. Conservadorismo, posição
monopolista, etc. Elas justificam medidas específicas para corrigir
os problemas apontados. Mas não autorizam a destruição
de uma instituição indispensável para sustentar a
economia, corrigir os problemas dos mercados e satisfazer as necessidades
básicas de vastos setores sociais. Os EUA são ao mesmo tempo
pivô e beneficiário essencial desse sistema. Sua posição
privilegiada como detentores da única moeda realmente mundial, a
dimensão de seus mercados financeiros e a possibilidade que oferecem
para a multiplicação dos capitais permitem que continuem
investindo muito, mesmo com uma taxa de poupança interna extremamente
reduzida. O segredo está em centralizarem uma parte enorme da poupança
mundial, em terem adquirido, em escala maior que qualquer outro país,
os traços de uma nação que vive de renda. É
a primeira vez, na História, em que o país central do sistema
capitalista absorve a poupança internacional, em vez de espalhá-la
pela periferia do sistema. Há outro fenômeno extremamente
preocupante e perigoso. O sistema de pensões dos trabalhadores americanos
vinculou-se ao êxito dos fundos de pensão nos mercados financeiros
de todo o mundo. Ele já não é viável com base
apenas nos recursos gerados internamente. Só se sustenta se persistir
o fluxo, em direção aos EUA, de recursos provenientes de
dezenas de países, sob a forma de dividendos e juros das dívidas
internas. Os EUA reconquistaram em parte a produtividade industrial perdida
nos anos 70 e 80, em especial nos setores de ponta. Além da própria
pesquisa relacionada à atividade militar, duas causas explicam essa
mudança. Primeiro, o capitalismo regrediu, em boa medida, ao caráter
selvagem que o caracterizou até o século passado. Desde que
globalização e a desregulamentação reduziram
nitidamente a força dos sindicatos, ele voltou a ser um sistema
cada vez menos controlado por movimentos ou forças sociais. Nem
o capitalismo japonês, nem o europeu são capazes de competir
com os Estados Unidos nesse ambiente. No Japão e na Alemanha, as
taxas de produtividade são resultado em grande medida de negociações,
de compromissos sociais. Agora que a brutalidade do capitalismo americano
tornou-se outra vez possível, ele é um fator de peso favorável
à competitividade dos EUA. O segundo aspecto está relacionado
com o papel único ocupado pelos EUA no mundo das finanças
globalizadas. Uma parte dos enormes recursos financeiros centralizados
pelos Estados Unidos alimenta a atividade tecnológica e a inovação
internas, com uma força que não havia sido possível
alcançar antes. Não há um único setor da economia
mundial que escape do rentismo. Seus traços apareceram de modo evidente
em Ásia. Houve uma acumulação industrial verdadeira,
em alguns países. Porém, mesmo ali - e inclusive na China,
que ainda não sofreu as conseqüências mais graves da
crise - desenvolveu-se muito rápido um capitalismo abertamente parasitário.
Todo mundo estava ciente do crescimento desregulado de instituições
financeiras já hipertrofia-das, dos investimentos desmedidos no
setor imobiliário, dos imensos projetos de infra-estrutura e agroindustriais
que destroem as condições de existência da população
rural e o meio ambiente, dos projetos industriais cujas condições
para se cumprir os objetivos não haviam sido estudadas seriamente.Na
Rússia, que está sob risco iminente de uma desvalorização
dramática do rublo, uma parte importante da economia ficou sob o
controle de autênticas máfias. Elas florescem no quadro de
uma capitalismo quase puramente financeiro, onde não há outro
interesse além dos lucros de curtíssimo prazo. Os investidores
internacionais cobiçam o petróleo, algumas outras matérias-primas
e a grande agricultura. Mas não têm absolutamente nenhum interesse
de se engajar no verdadeiro trabalho de uma possível renovação
da base industrial russa. As taxas de juros estão relacionadas ao
papel que cada país e cada mercado financeiro desempenha no sistema.
As diferenças são muito reveladoras sobre a natureza hierarquizada,
imperfeita e sem instâncias de regulação assumida pelo
processo de globalização financeira. No centro do sistema
estão, evidentemente, os EUA. Em torno deles, há os países
do G7 (os países mais industrializados) e a Suíça,
onde as taxas de juros pagas pelos respectivos Tesouros são relativamente
baixas. Os outros mercados estão todos na periferia, mas há,
entre eles mesmos, hierarquias. Quem decide o papel de cada país
são os aplicadores. Em todo o mundo, há apenas 25 grandes
praças financeiras. A maior parte dos países, portanto, sequer
está integrada diretamente aos grandes fluxos de capitais - e mesmo
os participantes do processo podem ser excluídos a qualquer momento.
É o que ocorreu com a Indonésia, onde resta, agora, o esforço
do FMI para recuperar os créditos duvidosos...O caso do Brasil é
notável, porque houve nos últimos anos uma reviravolta política
e econômica. Desde a década de 30, a burguesia industrial
ocupava o centro do poder. A crise econômica de 29, no plano econômico,
e o varguismo, no plano político, colocaram em segundo plano os
setores cuja riqueza provinha da escravidão, do latifúndio,
de uma relação com o sistema financeiro que vê nos
bancos apenas um refúgio para conservação e multiplicação
de riquezas.Nos últimos anos, porém, a burguesia financeira
assumiu o poder político no Brasil, e este é o fundo dos
acontecimentos mais importantes na vida política, econômica
e social do país. Os interesses próprios desse setor combinam-se
com os dos investidores externos e exigem o pagamento, pelo Estado, de
taxas de juros usurárias. É por isso que não se deve
pensar nos juros como se fossem imposição externa, apenas.
A burguesia financeira apóia-se no sistema mundial - o que lhe dá,
inclusive, enormes oportunidades de fuga, nos momentos de crise. Em 1994,
no México, os investidores mexicanos foram os que transferiram mais
rapidamente sua riqueza para o exterior, quando a desvalorização
do peso tornou-se uma possibilidade real. Quando vocês enfrentarem
uma crise cambial no Brasil, podem apostar que a burguesia financeira brasileira
será, também, a primeira a deslocar seus investimentos para
fora do país.
Revista da Adusp (Associação dos Docentes
da Universidade de São Paulo).
Texto extraído do Jornal Idade Nova