A Crise no Leste Europeu
The Crisis in Eastern Europe
Na ótica do brasileiro comum, a Europa é
um continente profundamente civilizado em que imperam o direito, a ordem,
a democracia em sentido ideal. Suíças, áustrias e
alemanhas habitam nosso imaginário. É o continente dos sonhos.
A Europa, possui bósnias e albânias e, como aqui, a miséria
ombreia com o fausto; a paz com a guerra; a democracia com o totalitarismo.
O Velho Continente viveu seu apogeu e agora, como que a se preparar para
o terceiro milênio, sofre as turbulências naturais da acomodação
de placas sociais, políticas, religiosas, étnicas... O bipolarismo
dos tempos da guerra fria dá lugar a anseios de idade e progresso;
a ideologia radical parece dobrar-se à inexorável marcha
do desenvolvimento humano. A comunicação por satélites
e as redes mundiais de informação terminam por infundir na
grande maioria dos habitantes da Terra um sentimento de pertinência
ao mesmo ambiente. Esse sentimento de "aldeia global", sem dúvida,
contribuiu, concomitantemente, com Históricos para a eclosão
da onda de separatismo que assolou o Leste Europeu.
A crise na Europa Oriental pode ser resumida por dois
fatos principais: o esfacelamento da União das Repúblicas
Socialistas Soviéticas (URSS) e o desmembramento da República
Socialista Federativa da Iugoslávia. O desaparecimento da URSS,
tão bem sintetizado pela queda do Muro de Berlim, tem sido minuciosamente
analisado pela mídia do mundo inteiro. O problema iugoslavo, porém,
embora tenha recebido muita atenção da imprensa como um todo,
sofreu distorções resultantes de motivações
econômicas, políticas e militares, entre outras.
O presente ensaio objetiva lançar alguma luz sobre
os fundamentos históricos dessa crise; perscrutar as raízes
da crueza bárbara da chamada "Guerra da Iugoslávia"; expor
de maneira imparcial o envolvimento e responsabilidade de cada um dos protagonistas
da contenda; e demonstrar que o interesse econômico, acima de tudo,
tem obstado o entendimento do nó balcânico.
Antes de entrarmos nas considerações históricas,
é útil que observemos a situação da Iugoslávia
ao início da crise. Com uma área de aproximadamente 250 mil
km2, o país era dividido politicamente em seis repúblicas:
Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia e Herzegovina,
Macedonia e Montenegro e duas províncias autônomas: Kossovo
e Voivodina. As línguas oficiais eram três: servo-croata,
esloveno e macedônico, como também eram três as religiões:
católica ortodoxa, católica romana e islamismo, além
de uma infinidade de nacionalidades. No último censo realizado em
1981, uma minoria declarou-se iugoslava. A maioria da população
considerou-se sérvia, croata, eslovena, macedônica, montenegrina,
albanesa, húngara, muçulmana, cigana, etc. A constituição
federal, promulgada em 1973, quando Tito já mostrava sinais de enfraquecimento,
procurou atender aos clamores mais exaltados, como forma de refrear os
ânimos. Assim, além de conceder muito mais autonomia às
repúblicas, facultou a cada etnia o direito de manifestar livremente
sua cultura, tradições, credo, etc. A título de ilustração,
se um grupo de, no mínimo, trinta húngaros desejasse fazer
seus estudos em seu próprio idioma o Estado era legalmente obrigado
a atendê-lo. Desta forma, juntamente com a diversidade floresceu
também o anseio crescente de liberdade em todo o país. Apesar
disso, durante algum tempo, a convivência foi pacífica. Os
dois principais grupos étnicos: sérvios e croatas, todavia,
sustentavam uma rusga centenária que, aliás, foi a razão
imediata da eclosão da crise. Não fosse ao advento do Comunismo,
na década de quarenta, os conflitos teriam acontecido bem antes.
O Comunismo conseguiu colocar "panos quentes" nos sentimentos fortemente
antagônicos existentes entre sérvios e croatas. Rupturas aparentemente
irreparáveis foram solucionadas com o truque do partido único,
controlado com extrema habilidade pelo grande artífice da federação
iugoslava, o Marechal Tito. O sêmen da desagregação,
não obstante, ficou preservado por mais de quarenta anos nos círculos
de ferro do regime titoísta, a despeito de milhares de mortes. Títo
faleceu em 1980 e Gorbachev inventou a Perestroika-Glasnost. Os ventos
frescos da democracia sopraram e o estado iugoslavo, considerado o mais
moderno dos estados comunistas, viu-se rebaixado à posição
de ultra-conservador. Somou-se a isso a queda e execução
sumária do último ditador da região, Nicolae Ceaucescu,
da Romênia.
Era chegada a hora. Os ideais de liberdade alçavam
vôo sereno nos céus iugoslavos. Aí, cada povo passou
a destacar suas diferenças históricas. Cada nacionalidade
começou a exaltar suas virtudes e a execrar, como funestas, as particularidades
alheias. A mídia entrou na batalha: sérvios e croatas passaram
a desfiar ressentimentos mútuos. Neste ponto, exatamente, a guerra
começou a ser ganha pelo separatismo. Os sérvios, defensores
da federação, dirigiram seus ataques contra os croatas, principais
arautos do desmembramento. Os croatas, por sua vez, valendo-se de seus
laços mais ocidentalizados, passaram a difamar os sérvios,
principalmente na Alemanha e nos Estados Unidos, onde são numerosos.
Os resultados não tardaram a aparecer. Em pouco tempo a mídia
ocidental, inicialmente alimentada por magnatas americanos de origem croata,
passou a fustigar a Sérvia. Cabe aqui lembrar algumas razões
da mídia ocidental:
1.a Alemanha debita à Sérvia grande parte
de seu insucesso na II Guerra Mundial. Perdeu divisões inteiras,
milhares de homens, tempo precioso e terminou sendo expulsa pelos sérvios,
não conseguindo estabelecer a ligação tão necessária
com suas forças da África e do Oriente. Saiu humilhada dos
Bálcãs;
2.Itália, aliada da Alemanha, perdeu também
boa faixa de terra, que hoje pertence à Croácia;
3.Estados Unidos, como xerife, temia a manutenção
de forças armadas tão fortes como as iugoslavas na região
- o quarto exército mais poderoso da Europa;
4.além disso, a Hungria também nutria ressentimentos
pela expulsão de milhares de húngaros das planícies
da Voivodina, sem falar da Búlgária.
Isto posto, é válido lembrar que durante
a guerra, todas as reportagens veiculadas aqui no Brasil sobre a crise
iugoslava tiveram origem na Alemanha, Estados Unidos e Itália. Todas
anti-Sérvia. Um massacre. Vimos a guerra de um único ângulo.Em
última análise, o que temos aqui é um choque de civilizações:
a ocidental contra a oriental; a católica romana, contra a ortodoxa,
a democracia contra o comunismo. A este respeito, vale lembrar que as fronteiras
da Sérvia com a Croácia coincidem, exatamente, com os limites
dos impérios Áustro-Húngaro e Otomano.
Origens do conflito
As raízes da crise iugoslava podem ser compreendidas,
em parte, pela história da rivalidade entre sérvios e croatas.
Quatro são os fatos principais nessa rivalidade:
1. sérvios na Croácia;
2. hegemonia sérvia;
3. invasão da Iugoslávia pelo III Reich;
4. luta pela sucessão de Tito.
Os primeiros desentendimentos entre sérvios e
croatas ocorreram ainda durante o Império Otomano, no século
XIV a XIX. Os turcos, que ocupavam a Sérvia, eram muito violentos
e a cláusula principal de sua constituição era a espada.
A vizinha Croácia pertencia ao Império Áustro-Húnaaro,
muito mais civilizado e avançado. Por esta razão, muitos
sérvios procuravam refúgio na Croácia e, devido a
seu prestígio de bons guerreiros, conseguiram um vantajoso pacto
com o império: formariam um cinturão defensivo contra os
turcos, recebendo, em contrapartida, certos privilégios. Justamente
esses privilégios teriam enfurecido os croatas que, embora nativos,
gozavam de condições inferiores às dos sérvios
perante o Império. Além disso, para se formar o citado cinturão,
muitos croatas foram retocados. Começaram, desta forma, os conflitos
entre os dois povos, conflitos esses, que seriam os mais antigos ancestrais
dos atuais acontecimentos. Em fins do século XlX, os sérvios
expulsaram os turcos e reorganizaram seu reinado. A I Guerra Mundial resultou
na independência da Croácia e da Eslovênia, pois aí,
o Império Áustro-Húngaro se desintegrou. Croatas e
eslovenos, não possuindo a organização político-militar
dos sérvios, propuseram e foram aceitos num reino composto com os
sérvios, onde o rei era sérvio. Formava-se, então,
o Império de sérvios, croatas e eslovenos (1918). Os desentendimentos
foram tais e de tal monta, que passaram, todo o entre-guerras brigando.
Entre outras "façanhas", conseguiram assassinar o rei. Uma das razões
sempre alegadas para a diferença entre eles é o fato de os
sérvios serem ortodoxos e croatas e eslovenos serem católicos
romanos. A grande justificativa política, todavia, era a acusação
da tentativa sérvia de hegemonia sobre os dois outros parceiros.
Esta seria, pois, a segunda origem histórica das diferenças
entre eles. A II Guerra Mundial encontrou o império cambaleando.
Falava-se em separação. Croatas e eslovenos tudo faziam para
"fugir dos sérvios". A invasão alemã caiu do céu
para os croatas, pois, rapidamente se renderam e, traindo a União,
passaram-se para o lado de Hitler, mediante um acordo que lhes dava a independência.
Valendo-se, provavelmente da teoria hitlerista de "pureza racial", passaram
a promover uma limpeza de seu território, eliminando os incômodos
sérvios que ali moravam desde os tempos dos turcos (há, aproximadamente
300 anos). Dados disponíveis (e plenamente divulgados pela mídia)
dão conta de que entre 1941 e 1943 foram mortos cerca de 800 mil
sérvios. Com a queda de Hitler essa dívida de sangue só
não foi cobrada porque o Marechal Tito (croata), que subiu ao poder,
trouxe um discurso conciliatório sob o lema "Unidade e Fraternidade",
que pregava a união de todos povos da região. Essa "química"
retirou a Croácia do bloco dos perdedores e a fez figurar no dos
vencedores. Tito manteve a situação sob controle até
1980, quando faleceu. Seria essa conta pendente há 50 anos, e seus
juros naturais, o terceiro grande motivo para os atuais desentendimentos.
A quarta e definitiva razão para os conflitos seria a ambição
política desmedida de lideranças regionais que tentam, a
qualquer preço, abocanhar o posto de "maestro", vago há anos
com a morte de Tito. Com tantos e tão fortes motivos, não
poderíamos minimizar a complexidade do quadro iugoslavo.
História recente
A atual crise teve origem imediata em dois fatos recentes:
a morte de Tito e a abertura política do bloco comunista, proporcionada
pela Perestroika. A morte do grande líder mostrou que o país
não dispunha de uma liderança capaz de manter coesas as diversas
correntes iugoslavas no sentido de um rumo comum. Aos poucos as lutas políticas
intestinas foram surgindo e as querelas entre repúblicas e nacionalidades
vieram à tona. A Perestroika, desta forma, constituiu-se na centelha
que faltava para a precipitação dos acontecimentos. Além
disso, a revolução romena que resultou na deposição
e morte de Nicolae Ceaucescu, teve grande influência, à medida
que expôs, de forma crua, as limitações do regime unipartidário.
Em janeiro de 1990, a Liga dos Comunistas da Iugoslávia
- LCI (Partido Comunista), que de há muito enfrentava problemas
internos, não conseguiu realizar seu Congresso Extraordinário.
Depois de acirradas discussões, os representantes da Eslovênia
se retiraram, rompendo com o partido. Esse foi o embrião do multipartidarismo
no país. Começou, imediatamente, a campanha nas diversas
repúblicas para realização das primeiras eleições
diretas, em 50 anos. De um modo geral, as eleições trouxeram
transformações. Três repúblicas, porém,
sentiram-nas de forma mais acentuada. A Eslovênia, precursora do
movimento em prol do multipartidarismo, imprimiu um cunho vanguardista,
valendo-se da sua condição de república mais desenvolvida
da Federação e de seus laços "espirituais" com o Ocidente.
A Croácia, que ao eleger Franjio Tudjman (ex-general do EPI) e separatista
"juramentado", colocou-se em rota de colisão com o sistema vigente
e, antes de tudo, com a própria Iugoslávia. Finalmente, a
Sérvia, como a mais importante unidade da federação
e sede do poder central, ao insistir na manutenção do "status"
que, colocou-se em posição antagônica às duas
anteriormente citadas. Eslovênia e Croácia, até por
coincidência de propósitos, ficaram de um lado, e a Sérvia,
pela razão oposta, de outro. Não nos esqueçamos das
"Origens do Conflito", anteriormente citadas. Os ânimos já
estavam suficientemente exaltados, faltava, porém, algo concreto
para se iniciar o conflito. Esse "algo concreto" foi providenciado pelo
Parlamento Croata ao aprovar proposta do Govemo Tudjman de revisão
da Constituição da República. Entre as mudanças
propostas estava a definição do estado croata. O texto em
vigor definia a Croácia como "um estado de croatas e sérvios…",
e a nova proposta retirou esse "... e sérvios". A reação
da população de nacionalidade sérvia da república,
aproximadamente 20%, foi imediata. Reagiram inicialmente na esfera política
e, não tendo obtido resultados, declararam-se separados da Croácia.
Foi assim criada a chamada Região Autônoma de Krajina, composta
de 13 (treze) municípios. Organizaram-se em todos os níveis:
político, administrativo e militar. Argumentaram para isso, receio
de que se repetissem agora, os massacres como 1941 a 1943. Ocorre que,
além dessa área, onde predominavam, os sérvios estavam
espalhados por todo o território da Croácia. Justamente esses
últimos passaram a sofrer represálias por parte da população
e do governo croata. Como a toda ação corresponde a uma reação,
os sérvios passaram a revidar e os conflitos se generalizaram.
À medida que os choques iam se alastrando, o governo
federal travava uma luta verbal com o governo croata, acusando-o de importação
ilegal de grandes quantidades de armamento. O ponto culminante dessa contenda
foi a divulgação, pelo EPI, na televisão, de farto
material comprobatório de uma grande remessa de armas importadas
ilegalmente através da Hungria. O conflito entre governos estava
selado. Nessa ocasião, a Croácia divulgou que se separaria,
formalmente, da Iugoslávia a 30 de junho de 1991, e a Eslovênia,
a 26 de junho do mesmo ano.
Evolução histórica
1) Origem dos Povos Balcânicos
Os primeiros eslavos começaram a chegar à
região durante o Século VII, vindos da Bielo-Rússla.
À medida que ocupavam a região, iam empurrando os habitantes
originais, os albaneses, que acabaram por ficar comprimidos na Albânia
que hoje conhecemos.
Como a região se constitui em importante corredor
entre Ocidente e Oriente, os eslavos dali terminaram por sofrer influências
diferenciadas, identificando-se mais com o Oriente ou com o Ocidente. Os
sérvios, mais expostos às ondas de conquistadores, forjaram
em si um espírito mais aguerrido. Sua capital, Belgrado, foi destruída
inúmeras vezes. Movidos pela necessidade constante de defender-se,
os sérvios organizaram-se melhor ( reino, exército e maior
resistência aos invasores). Apesar disso, a parte sérvia da
região esteve ocupada, de 1389 a 1837, pelos turcos do Império
Otomano e, de 1941 a 1943, pelas forças nazistas.
Durante o mesmo período, croatas e eslovenos permaneceram
sob o domínio de outros povos, notadamente, os húngaros.
Desse processo resultou a diferença principal
entre os três povos: a religião. Os sérvios, por inspiração
russa, abraçaram o catolicismo ortodoxo e, croatas e eslovenos,
em razão do domínio húngaro, o catolicismo romano.
Com histórias tão diversas, só em
duas oportunidades tentaram unir-se, sem êxito. A primeira vez, 1918-1941,
resultou em massacre de cerca de 800 mil sérvios na Croácia.
A segunda tentativa, 1946-1991, produz ainda seus funestos resultados.
A longevidade da segunda tentativa de união só
se explica pelo estilo de governar do Marechal Josip Broz Tito.
Vários eram os campos de concentração
patrocinados por seu governo, para "hospedar" os inimigos políticos,
sendo o mais famoso localizado em uma ilha das costas adriáticas,
denominada Goli Otok (Ilha Nua). Para se ter uma idéia da voracidade
do titoísmo (versão pessoal de Tito para o Comunismo), é
voz corrente na região que seu governo fez mais vítimas que
a Segunda Guerra Mundial, e vitimou seis por cento da população
do país. Mais um dado: os nazistas foram confrontados, de 1941 a
1943, por dois líderes militares: Tito e Draja Mihajlovic. Expulsos
os alemães, uma das primeiras ações de Tito foi mandar
executar Mlhajlovic.
2) Invasão dos Bálcãs pelo Império
Otomano (Resumo)
- O sultão Ali Pacha invade a região, em
1389 (Batalha do Kossovo).
- Rei sérvio morre em combate.
- Belgrado é destruída e ocupada.
- Cinco séculos de guerra de guerrilha (nunca
houve rendição).
- Surgimento dos sérvios-muçulmanos - Os
turcos passaram a "confiscar" todos os primogênitos sérvios
e a mandá-los para a Turquia para que fossem educados na fé
muçulmana. Ao retomarem, eram grandes inimigos dos sérvios.
Daí, principalmente, surgiram os muçulmanos da Bósnia.
A Constituição da Iugoslávia de 1973, reconheceu-os
como nacionalidade __ caso único no mundo em que o credo é
sinônimo de nacionalidade.
- Expulsão dos turcos - 1837.
- Novo Reino Sérvio - 1903.
3) Reino de Sérvios, Croatas e Eslovenos
Em 1914, o príncipe Ferdinando, herdeiro do trono
Áustro-Húngaro, foi assassinado por um sérvio, em
Sarajevo, como reação à recente anexação
da Bósnia-Herzegovina àquele império. Esse incidente
acabou se constituindo no início da Primeira Guerra Mundial. No
final da guerra, o Império Áustro-Húngaro estava desfeito.
Croatas e eslovenos, após séculos de submissão
aos húngaros, sentiam-se ameaçados e propuseram, já
em 1918, uma união ao Império Sérvio. O rei seria
sérvio. Os problemas, desde então, foram inúmeros
e culminaram com o assassinato do rei, por um croata, em 1934. A preocupação
maior do povo croata era com a hegemonia sérvia. A conseqüência
desse incidente foi uma onda popular incontrolável de repulsa ao
povo croata.
Como o príncipe-herdeiro só contasse com
onze anos de idade, sobe ao trono um príncipe-regente, que governou
até 1941.
4) Invasão da Iugoslávia pelos Nazistas
Ao final de 1940, o príncipe-regente assinou com
a Alemanha e a Itália o chamado Tratado Triangular. O povo, que
não fora consultado, manifestou-se de tal forma contrário
a esse ato, que o príncipe-regente renunciou.
Prestes a completar dezoito anos, sobe ao trono o príncipe-herdeiro,
que, ouvindo o grito das ruas, denuncia o Tratado Triangular, assinado
por seu antecessor. A reação de Hitler foi imediata. Em abril
de 1941, auxiliado pela Itália, Hungria e Bulgária, Hitler
invade a Iugoslávia, o príncipe exila-se na Inglaterra. As
forças armadas são desbaratadas, as perdas são imensas.
Hitler avança pelo país e Belgrado é ocupada em poucos
dias. Mais uma vez, não há rendição. O cidadão
Josip Broz Tito e o Tenente-Coronel do exército iugoslavo Draja
Mihajlovic organizam, separadamente, grupos de resistência. A luta
segue cruenta. As forças guerrilheiras não dão quartel
aos nazistas, que também sofrem pesadas perdas.
O avanço das forças nazistas foi facilitado
por um fato imprevisto. Após três dias de combate, a Croácia
incapaz de fazer frente ao rolo compressor do III Reich e, ela própria,
desejosa de liberdade, rendeu-se a uma engenhosa proposta de Hitler: em
troca da promessa de tornar-se um estado independente após a guerra,
migrou para as hostes nazistas, passando a combater seus compatriotas sérvios.
A Eslovênia já estava subjugado. Aí, precisamente,
residem os maiores ressentimentos entre os dois povos, já que, ao
que se diz, morreram cerca de 800 mil sérvios residentes na Croácia
(uma limpeza étnica). Em 1943, os nazistas são expulsos da
Iugoslávia.
5) Proclamação da República Socialista
Federativa da Iugoslávia
Expulsos os alemães, um sexto da população
havia perecido, mas o país era vitorioso. Com o fim da guerra, Draja
Mihajlovic, monarquista convicto, manifestou desejo de promover o retorno
do príncipe, que se exilara na Inglaterra. Tito, que tinha outros
planos, determinou sua execução e a de seus principais colaboradores.
Como único líder, Tito proclamou, em 1946,
a República Socialista da Iugoslávia.
Após rápida aproximação com
a URSS, a Iugoslávia, em 1948, desalinhou-se do bloco socialista.
Devido à maneira extremamente personalista de governar de Tito,
o socialismo iugoslavo é, às vezes, chamado de titoísmo.
Em 1973, sentindo a situação interna muito
tensa, Tito promulga nova Constituição que, entre outras
medidas, concede maior autonomia às repúblicas e províncias
e declara vitalício o cargo de presidente da república, que
ocupava desde 1946.
Com a morte do grande líder, em 1980, a Iugoslávia
começou padecer da falta de uma liderança forte que lhe pudesse
determinar os rumos. Além disso, agravavam-se os problemas econômicos
do país. A partir da morte de Tito, a presidência do país
passou a ser exercida por um colegiado em que todas as repúblicas
eram representadas, com os representantes revezando-se anualmente no cargo
de Presidente.
Esse arranjo, naturalmente, não satisfazia aos
anseios dos diversos povos que, na verdade, já não se sentiam
tão entusiasmados com a união. Desta forma, começam
a surgir as lideranças locais, cada uma delas, após constatar
a impossibilidade de suceder a Tito, pugnava pela independência de
sua república. Assim, na Sérvia surgiu Slobodan Milosevic;
na Croácia, Franjio Tudjman e na Bósnia, Alia lzetbegovic.
6) Esfacelamento da União Soviética
O clima na Iugoslávia era tenso. O desejo de separação
em cada república era manifestado abertamente. Foi nesse ambiente
que começaram a chegar ao país as notícias do desmoronamento
da URSS. A queda do Muro de Berlim funcionou como uma senha. O desejo de
separar-se virou decisão. Campanhas públicas contra o poder
central ganharam as ruas. Foram abertas feridas antigas e ódios
históricos, especialmente entre a Sérvia e a Croácia.
A igreja, símbolo histórico da resistência,
volta à cena.
7) Declaração de Independência das
Repúblicas
O processo foi disparado a partir da Assembléia
Extraordinária da Liga Comunista da Iugoslávia (LC), realizada
em janeiro de 1990.
Já no segundo dia, a delegação da
Eslovênia retirou-se, seguida pela da Croácia. Segue-se a
isso a proclamação da independência de ambas, em 26
de junho de 1991. No ano seguinte separam-se também a Bósnia-Herzegovina
e a Macedônia.
8) O Problema das Forças Armadas lugoslavas
As Forças Armadas da Iugoslávia tinham
a seguinte constituição:
- Exército Popular da Iugoslávia (EPI)
- formado por força naval, terrestre e aérea;
- Força de Defesa Territorial - força terrestre
circunscrita a cada república.
Sendo o efetivo do EPI proporcional à população
de cada república, e tendo a Sérvia mais de um terço
da população do país, os sérvios sempre foram
mais numerosos no EPI. À medida que a crise no país se aprofundava
o percentual de sérvios crescia ainda mais. O resultado foi que,
com a retirada do EPI da Eslovênia e da Croácia, os componentes
sérvios foram recambiados para a Bósnia e para a própria
Sérvia. Esta é uma das razões pelas quais os combates
na Bósnia foram tão dramáticos. Para o EPI, permitir
que a Bósnia se tomasse independente significava desemprego em uma
economia cambaleante.
9) Conjuntura dos Novos Estados
a) Eslovênia - Católica romana, língua
eslovena, etnicamente pura, integrada com o Ocidente. Independência
consolidada.
b) Croácia - Católica romana, língua
croata (durante a união era servo-croata), 23% de sérvios,
30% do território em poder da população sérvia.
A ONU continua a manter um corredor de isolamento para evitar o recrutamento
das lutas. Futuro ainda indefinido.
c) Bósnia-Herzegovina - religiões: islamismo,
católica romana e católica ortodoxa. Habitada por muçulmanos,
sérvios, croatas e outros. Alguns fatores carregam de incerteza
o futuro do país:
- o fato de a liderança muçulmana pretender
dar ao país "status" de república islâmica;
- a composição e distribuição
étnica do país;
- ambição política de cada uma das
partes, obstando as possibilidades de formação de um governo
de coalisão.
d) Macedônia - católica ortodoxa, população
homogênea, língua macedônica, grega e búlgara.
Enfrentou problemas com a Grécia, mas está conseguindo alguma
estabilidade.
10) Os Grandes Problemas da Região Questão
Territorial
Existem na região várias pendências
de natureza territorial:
- sérvios na Croácia __ ocupam cerca de
30% de seu território; - sérvios e croatas na Bósnia
- é o mais grave problema do país. Entre as várias
teorias levantadas para sua solução está a cantonização,
mas restaria a questão da propriedade privada;
- costas da Croácia __ Bósnia e a Nova
Iugoslávia têm pretensões sobre parte do litoral croata,
por questões econômicas e estratégicas.
Questão de Política Interna
Persistem muitas reivindicações entre as
repúblicas, baseadas em alegação de investimentos
especiais feitos pela Federação lugoslava, durante o regime
comunista.
- contra a Eslovênia - Macedônia, Nova Iugoslávia,
Croácia e Bósnia. Motivo: a única usina nuclear do
país, universidades, hospitais, estações de rádio
e de televisão. A Eslovênia era o cartão-postal do
regime.
- contra a Croácia - Eslovênia, Bósnia,
Macedônia e Nova Iugoslávia. Motivo: os modernos portos do
Adriático, especialmente o de Split.
Além disso, existe o temor geral do poderio militar
sérvio e as aspirações de independência de Montenegro,
Voivodina e Kossovo. O problema do Kossovo é muito complexo, já
que sua população é composta de 90% de albaneses muçulmanos
e em seu território estão as raízes históricas
da Sérvia.
Questão Religiosa
- A presença muçulmana na Bósnia
e no Kossovo inquietam a Europa.
- Rusga centenária entre católicos ortodoxos
(croatas) e católicos romanos.(sérvios).
Questão de Política Externa
Persistem, entre vários países da região,
pendências históricas com inquietante potencial desestabilizador.
- Albânia e Nova Iugoslávia __ a questão
do Kossovo.
- Grécia e Macedônia __ "Macedônia"
é o nome da maior região natural da Grécia. Por esta
razão, aquele país luta intensamente junto à comunidade
internacional contra o reconhecimento do nome do novo país.
- Nova Iugoslávia e Croácia __ Irã
e Mundo Árabe __ presença muçulmana na área.
- A aliança histórica entre Sérvia
e Rússia inquieta a região.
- Alemanha, Itália, Áustria, Hungria e
Bulgária ressentimentos contra os sérvios em função,
ainda, da Segunda Guerra Mundial.
CONCLUSÃO
Da multiplicidade de fatores que alimentam a crise balcânica,
um parece predominar: o religioso. As tentativas de equacioná-lo
tem esbarrado em alguns obstáculos até aqui insuperáveis.
Em primeiro lugar, os organismos internacionais, notadamente
a ONU e a CSCE, mostram-se incapazes de resolver a questão. Muitas
parecem ser as causas da incapacidade, entre elas, podemos destacar:
- parcialidade demonstrada por esses organismos em alguns
estágios da crise, aliada à falta de objetividade, o que
resultou em perda de credibilidade junto às partes envolvidas na
crise; falta de vontade política da comunidade internacional;
- interesses conflitantes dos países que ocupam
assento na ONU (Rússia, EUA, Inglaterra);
- sentimento ambíguo em relação
à Bósnia-Herzegovina - por um lado não desejam a permanência
muçulmana no poder e, por outro, não querem privilegiar os
sérvios que poderiam ampliar sua influência na região;
- a presença sérvia na Croácia continua
a representar grande fonte de preocupação para a comunidade
internacional, principalmente porque pode resultar na entrada da Sérvia
no conflito. Essa possibilidade resultaria na internacionalização
da guerra, com conseqüências imprevisíveis;
- por fim, é importante ressaltar que só
com a presença dos sessenta mil soldados da OTAN a situação
se acalmou. As questões geradoras da crise continuam intactas. Apesar
das eleições que acabam de ser realizadas na Bósnia,
sob a supervisão da ONU, a situação é tensa.
Até quando a OTAN e a ONU permanecerão na região?
O que acontecerá, então?
Resumo
Este trabalho objetiva analisar a crise no Leste Europeu,
como um todo, a partir do estudo da crise iugoslava. Apesar de algumas
incursões pelo campo econômico, psicossocial e militar, a
análise privilegia o processo histórico, em sentido lato.
Dessa forma, faremos um passeio pelos fatos históricos na região,
desde o Século VII até as eleições na Bósnia,
há alguns dias. A última parte da exposição
dedica-se ao levantamento dos principais problemas que afligem a região
e a um delineamento de algumas perspectivas
Abstract
Having Yugoslav crisis as starting point, this paper
aims at analyzing the crisis in East Europe, as a whole. In spite of some
incursions in the economic, psycho-social and military fields, the text
is focused on the historical process. As a result we will "travel" through
the historical facts in the Region from VII Centrury till Bosnian elections,
held some days ago. The last part of the paper is devoted to outlining
the main problems in Balkan region and delineating some perspectives for
it
Resumen
Este trabajo tiene por objetivo analizar la crisis en
el Este Europeo, como un todo, a partir del estudo de la crisis Yugoslava.
A pesar de algunas incursiones por el campo económico, psicosocial
y militar, el análisis privilegia el proceso histórico, en
sentido lato. De esta forma haremos un paseo por los hechos históricos
en la región desde el siglo VII hasta las elecciones en Bosnia,
hace algunos días. La última parte de la exposición
se dedica al levantamiento de los principales problemas que afligen a la
región y a un delineamiento de algunas perspectivas.
Pedro Saraiva dos SantosFormado em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Santos e pós-graduado em Língua Portuguesa pela Universidade São Judas Tadeu, em São Paulo. Residiu na Iugoslávia, entre 1989 e 1992. Professor de Inglês da União Pioneira de Integração Social – UPIS.