A Crise no Leste Europeu
The Crisis in Eastern Europe

Na ótica do brasileiro comum, a Europa é um continente profundamente civilizado em que imperam o direito, a ordem, a democracia em sentido ideal. Suíças, áustrias e alemanhas habitam nosso imaginário. É o continente dos sonhos. A Europa, possui bósnias e albânias e, como aqui, a miséria ombreia com o fausto; a paz com a guerra; a democracia com o totalitarismo. O Velho Continente viveu seu apogeu e agora, como que a se preparar para o terceiro milênio, sofre as turbulências naturais da acomodação de placas sociais, políticas, religiosas, étnicas... O bipolarismo dos tempos da guerra fria dá lugar a anseios de idade e progresso; a ideologia radical parece dobrar-se à inexorável marcha do desenvolvimento humano. A comunicação por satélites e as redes mundiais de informação terminam por infundir na grande maioria dos habitantes da Terra um sentimento de pertinência ao mesmo ambiente. Esse sentimento de "aldeia global", sem dúvida, contribuiu, concomitantemente, com Históricos para a eclosão da onda de separatismo que assolou o Leste Europeu.
A crise na Europa Oriental pode ser resumida por dois fatos principais: o esfacelamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e o desmembramento da República Socialista Federativa da Iugoslávia. O desaparecimento da URSS, tão bem sintetizado pela queda do Muro de Berlim, tem sido minuciosamente analisado pela mídia do mundo inteiro. O problema iugoslavo, porém, embora tenha recebido muita atenção da imprensa como um todo, sofreu distorções resultantes de motivações econômicas, políticas e militares, entre outras.
O presente ensaio objetiva lançar alguma luz sobre os fundamentos históricos dessa crise; perscrutar as raízes da crueza bárbara da chamada "Guerra da Iugoslávia"; expor de maneira imparcial o envolvimento e responsabilidade de cada um dos protagonistas da contenda; e demonstrar que o interesse econômico, acima de tudo, tem obstado o entendimento do nó balcânico.
Antes de entrarmos nas considerações históricas, é útil que observemos a situação da Iugoslávia ao início da crise. Com uma área de aproximadamente 250 mil km2, o país era dividido politicamente em seis repúblicas: Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia e Herzegovina, Macedonia e Montenegro e duas províncias autônomas: Kossovo e Voivodina. As línguas oficiais eram três: servo-croata, esloveno e macedônico, como também eram três as religiões: católica ortodoxa, católica romana e islamismo, além de uma infinidade de nacionalidades. No último censo realizado em 1981, uma minoria declarou-se iugoslava. A maioria da população considerou-se sérvia, croata, eslovena, macedônica, montenegrina, albanesa, húngara, muçulmana, cigana, etc. A constituição federal, promulgada em 1973, quando Tito já mostrava sinais de enfraquecimento, procurou atender aos clamores mais exaltados, como forma de refrear os ânimos. Assim, além de conceder muito mais autonomia às repúblicas, facultou a cada etnia o direito de manifestar livremente sua cultura, tradições, credo, etc. A título de ilustração, se um grupo de, no mínimo, trinta húngaros desejasse fazer seus estudos em seu próprio idioma o Estado era legalmente obrigado a atendê-lo. Desta forma, juntamente com a diversidade floresceu também o anseio crescente de liberdade em todo o país. Apesar disso, durante algum tempo, a convivência foi pacífica. Os dois principais grupos étnicos: sérvios e croatas, todavia, sustentavam uma rusga centenária que, aliás, foi a razão imediata da eclosão da crise. Não fosse ao advento do Comunismo, na década de quarenta, os conflitos teriam acontecido bem antes. O Comunismo conseguiu colocar "panos quentes" nos sentimentos fortemente antagônicos existentes entre sérvios e croatas. Rupturas aparentemente irreparáveis foram solucionadas com o truque do partido único, controlado com extrema habilidade pelo grande artífice da federação iugoslava, o Marechal Tito. O sêmen da desagregação, não obstante, ficou preservado por mais de quarenta anos nos círculos de ferro do regime titoísta, a despeito de milhares de mortes. Títo faleceu em 1980 e Gorbachev inventou a Perestroika-Glasnost. Os ventos frescos da democracia sopraram e o estado iugoslavo, considerado o mais moderno dos estados comunistas, viu-se rebaixado à posição de ultra-conservador. Somou-se a isso a queda e execução sumária do último ditador da região, Nicolae Ceaucescu, da Romênia.
Era chegada a hora. Os ideais de liberdade alçavam vôo sereno nos céus iugoslavos. Aí, cada povo passou a destacar suas diferenças históricas. Cada nacionalidade começou a exaltar suas virtudes e a execrar, como funestas, as particularidades alheias. A mídia entrou na batalha: sérvios e croatas passaram a desfiar ressentimentos mútuos. Neste ponto, exatamente, a guerra começou a ser ganha pelo separatismo. Os sérvios, defensores da federação, dirigiram seus ataques contra os croatas, principais arautos do desmembramento. Os croatas, por sua vez, valendo-se de seus laços mais ocidentalizados, passaram a difamar os sérvios, principalmente na Alemanha e nos Estados Unidos, onde são numerosos. Os resultados não tardaram a aparecer. Em pouco tempo a mídia ocidental, inicialmente alimentada por magnatas americanos de origem croata, passou a fustigar a Sérvia. Cabe aqui lembrar algumas razões da mídia ocidental:
1.a Alemanha debita à Sérvia grande parte de seu insucesso na II Guerra Mundial. Perdeu divisões inteiras, milhares de homens, tempo precioso e terminou sendo expulsa pelos sérvios, não conseguindo estabelecer a ligação tão necessária com suas forças da África e do Oriente. Saiu humilhada dos Bálcãs;
2.Itália, aliada da Alemanha, perdeu também boa faixa de terra, que hoje pertence à Croácia;
3.Estados Unidos, como xerife, temia a manutenção de forças armadas tão fortes como as iugoslavas na região - o quarto exército mais poderoso da Europa;
4.além disso, a Hungria também nutria ressentimentos pela expulsão de milhares de húngaros das planícies da Voivodina, sem falar da Búlgária.
Isto posto, é válido lembrar que durante a guerra, todas as reportagens veiculadas aqui no Brasil sobre a crise iugoslava tiveram origem na Alemanha, Estados Unidos e Itália. Todas anti-Sérvia. Um massacre. Vimos a guerra de um único ângulo.Em última análise, o que temos aqui é um choque de civilizações: a ocidental contra a oriental; a católica romana, contra a ortodoxa, a democracia contra o comunismo. A este respeito, vale lembrar que as fronteiras da Sérvia com a Croácia coincidem, exatamente, com os limites dos impérios Áustro-Húngaro e Otomano.
Origens do conflito
As raízes da crise iugoslava podem ser compreendidas, em parte, pela história da rivalidade entre sérvios e croatas. Quatro são os fatos principais nessa rivalidade:
1. sérvios na Croácia;
2. hegemonia sérvia;
3. invasão da Iugoslávia pelo III Reich;
4. luta pela sucessão de Tito.
Os primeiros desentendimentos entre sérvios e croatas ocorreram ainda durante o Império Otomano, no século XIV a XIX. Os turcos, que ocupavam a Sérvia, eram muito violentos e a cláusula principal de sua constituição era a espada. A vizinha Croácia pertencia ao Império Áustro-Húnaaro, muito mais civilizado e avançado. Por esta razão, muitos sérvios procuravam refúgio na Croácia e, devido a seu prestígio de bons guerreiros, conseguiram um vantajoso pacto com o império: formariam um cinturão defensivo contra os turcos, recebendo, em contrapartida, certos privilégios. Justamente esses privilégios teriam enfurecido os croatas que, embora nativos, gozavam de condições inferiores às dos sérvios perante o Império. Além disso, para se formar o citado cinturão, muitos croatas foram retocados. Começaram, desta forma, os conflitos entre os dois povos, conflitos esses, que seriam os mais antigos ancestrais dos atuais acontecimentos. Em fins do século XlX, os sérvios expulsaram os turcos e reorganizaram seu reinado. A I Guerra Mundial resultou na independência da Croácia e da Eslovênia, pois aí, o Império Áustro-Húngaro se desintegrou. Croatas e eslovenos, não possuindo a organização político-militar dos sérvios, propuseram e foram aceitos num reino composto com os sérvios, onde o rei era sérvio. Formava-se, então, o Império de sérvios, croatas e eslovenos (1918). Os desentendimentos foram tais e de tal monta, que passaram, todo o entre-guerras brigando. Entre outras "façanhas", conseguiram assassinar o rei. Uma das razões sempre alegadas para a diferença entre eles é o fato de os sérvios serem ortodoxos e croatas e eslovenos serem católicos romanos. A grande justificativa política, todavia, era a acusação da tentativa sérvia de hegemonia sobre os dois outros parceiros. Esta seria, pois, a segunda origem histórica das diferenças entre eles. A II Guerra Mundial encontrou o império cambaleando. Falava-se em separação. Croatas e eslovenos tudo faziam para "fugir dos sérvios". A invasão alemã caiu do céu para os croatas, pois, rapidamente se renderam e, traindo a União, passaram-se para o lado de Hitler, mediante um acordo que lhes dava a independência. Valendo-se, provavelmente da teoria hitlerista de "pureza racial", passaram a promover uma limpeza de seu território, eliminando os incômodos sérvios que ali moravam desde os tempos dos turcos (há, aproximadamente 300 anos). Dados disponíveis (e plenamente divulgados pela mídia) dão conta de que entre 1941 e 1943 foram mortos cerca de 800 mil sérvios. Com a queda de Hitler essa dívida de sangue só não foi cobrada porque o Marechal Tito (croata), que subiu ao poder, trouxe um discurso conciliatório sob o lema "Unidade e Fraternidade", que pregava a união de todos povos da região. Essa "química" retirou a Croácia do bloco dos perdedores e a fez figurar no dos vencedores. Tito manteve a situação sob controle até 1980, quando faleceu. Seria essa conta pendente há 50 anos, e seus juros naturais, o terceiro grande motivo para os atuais desentendimentos. A quarta e definitiva razão para os conflitos seria a ambição política desmedida de lideranças regionais que tentam, a qualquer preço, abocanhar o posto de "maestro", vago há anos com a morte de Tito. Com tantos e tão fortes motivos, não poderíamos minimizar a complexidade do quadro iugoslavo.
História recente
A atual crise teve origem imediata em dois fatos recentes: a morte de Tito e a abertura política do bloco comunista, proporcionada pela Perestroika. A morte do grande líder mostrou que o país não dispunha de uma liderança capaz de manter coesas as diversas correntes iugoslavas no sentido de um rumo comum. Aos poucos as lutas políticas intestinas foram surgindo e as querelas entre repúblicas e nacionalidades vieram à tona. A Perestroika, desta forma, constituiu-se na centelha que faltava para a precipitação dos acontecimentos. Além disso, a revolução romena que resultou na deposição e morte de Nicolae Ceaucescu, teve grande influência, à medida que expôs, de forma crua, as limitações do regime unipartidário.
Em janeiro de 1990, a Liga dos Comunistas da Iugoslávia - LCI (Partido Comunista), que de há muito enfrentava problemas internos, não conseguiu realizar seu Congresso Extraordinário. Depois de acirradas discussões, os representantes da Eslovênia se retiraram, rompendo com o partido. Esse foi o embrião do multipartidarismo no país. Começou, imediatamente, a campanha nas diversas repúblicas para realização das primeiras eleições diretas, em 50 anos. De um modo geral, as eleições trouxeram transformações. Três repúblicas, porém, sentiram-nas de forma mais acentuada. A Eslovênia, precursora do movimento em prol do multipartidarismo, imprimiu um cunho vanguardista, valendo-se da sua condição de república mais desenvolvida da Federação e de seus laços "espirituais" com o Ocidente. A Croácia, que ao eleger Franjio Tudjman (ex-general do EPI) e separatista "juramentado", colocou-se em rota de colisão com o sistema vigente e, antes de tudo, com a própria Iugoslávia. Finalmente, a Sérvia, como a mais importante unidade da federação e sede do poder central, ao insistir na manutenção do "status" que, colocou-se em posição antagônica às duas anteriormente citadas. Eslovênia e Croácia, até por coincidência de propósitos, ficaram de um lado, e a Sérvia, pela razão oposta, de outro. Não nos esqueçamos das "Origens do Conflito", anteriormente citadas. Os ânimos já estavam suficientemente exaltados, faltava, porém, algo concreto para se iniciar o conflito. Esse "algo concreto" foi providenciado pelo Parlamento Croata ao aprovar proposta do Govemo Tudjman de revisão da Constituição da República. Entre as mudanças propostas estava a definição do estado croata. O texto em vigor definia a Croácia como "um estado de croatas e sérvios…", e a nova proposta retirou esse "... e sérvios". A reação da população de nacionalidade sérvia da república, aproximadamente 20%, foi imediata. Reagiram inicialmente na esfera política e, não tendo obtido resultados, declararam-se separados da Croácia. Foi assim criada a chamada Região Autônoma de Krajina, composta de 13 (treze) municípios. Organizaram-se em todos os níveis: político, administrativo e militar. Argumentaram para isso, receio de que se repetissem agora, os massacres como 1941 a 1943. Ocorre que, além dessa área, onde predominavam, os sérvios estavam espalhados por todo o território da Croácia. Justamente esses últimos passaram a sofrer represálias por parte da população e do governo croata. Como a toda ação corresponde a uma reação, os sérvios passaram a revidar e os conflitos se generalizaram.
À medida que os choques iam se alastrando, o governo federal travava uma luta verbal com o governo croata, acusando-o de importação ilegal de grandes quantidades de armamento. O ponto culminante dessa contenda foi a divulgação, pelo EPI, na televisão, de farto material comprobatório de uma grande remessa de armas importadas ilegalmente através da Hungria. O conflito entre governos estava selado. Nessa ocasião, a Croácia divulgou que se separaria, formalmente, da Iugoslávia a 30 de junho de 1991, e a Eslovênia, a 26 de junho do mesmo ano.
Evolução histórica
1) Origem dos Povos Balcânicos
Os primeiros eslavos começaram a chegar à região durante o Século VII, vindos da Bielo-Rússla. À medida que ocupavam a região, iam empurrando os habitantes originais, os albaneses, que acabaram por ficar comprimidos na Albânia que hoje conhecemos.
Como a região se constitui em importante corredor entre Ocidente e Oriente, os eslavos dali terminaram por sofrer influências diferenciadas, identificando-se mais com o Oriente ou com o Ocidente. Os sérvios, mais expostos às ondas de conquistadores, forjaram em si um espírito mais aguerrido. Sua capital, Belgrado, foi destruída inúmeras vezes. Movidos pela necessidade constante de defender-se, os sérvios organizaram-se melhor ( reino, exército e maior resistência aos invasores). Apesar disso, a parte sérvia da região esteve ocupada, de 1389 a 1837, pelos turcos do Império Otomano e, de 1941 a 1943, pelas forças nazistas.
Durante o mesmo período, croatas e eslovenos permaneceram sob o domínio de outros povos, notadamente, os húngaros.
Desse processo resultou a diferença principal entre os três povos: a religião. Os sérvios, por inspiração russa, abraçaram o catolicismo ortodoxo e, croatas e eslovenos, em razão do domínio húngaro, o catolicismo romano.
Com histórias tão diversas, só em duas oportunidades tentaram unir-se, sem êxito. A primeira vez, 1918-1941, resultou em massacre de cerca de 800 mil sérvios na Croácia. A segunda tentativa, 1946-1991, produz ainda seus funestos resultados.
A longevidade da segunda tentativa de união só se explica pelo estilo de governar do Marechal Josip Broz Tito.
Vários eram os campos de concentração patrocinados por seu governo, para "hospedar" os inimigos políticos, sendo o mais famoso localizado em uma ilha das costas adriáticas, denominada Goli Otok (Ilha Nua). Para se ter uma idéia da voracidade do titoísmo (versão pessoal de Tito para o Comunismo), é voz corrente na região que seu governo fez mais vítimas que a Segunda Guerra Mundial, e vitimou seis por cento da população do país. Mais um dado: os nazistas foram confrontados, de 1941 a 1943, por dois líderes militares: Tito e Draja Mihajlovic. Expulsos os alemães, uma das primeiras ações de Tito foi mandar executar Mlhajlovic.
2) Invasão dos Bálcãs pelo Império Otomano (Resumo)
- O sultão Ali Pacha invade a região, em 1389 (Batalha do Kossovo).
- Rei sérvio morre em combate.
- Belgrado é destruída e ocupada.
- Cinco séculos de guerra de guerrilha (nunca houve rendição).
- Surgimento dos sérvios-muçulmanos - Os turcos passaram a "confiscar" todos os primogênitos sérvios e a mandá-los para a Turquia para que fossem educados na fé muçulmana. Ao retomarem, eram grandes inimigos dos sérvios. Daí, principalmente, surgiram os muçulmanos da Bósnia. A Constituição da Iugoslávia de 1973, reconheceu-os como nacionalidade __ caso único no mundo em que o credo é sinônimo de nacionalidade.
- Expulsão dos turcos - 1837.
- Novo Reino Sérvio - 1903.
3) Reino de Sérvios, Croatas e Eslovenos
Em 1914, o príncipe Ferdinando, herdeiro do trono Áustro-Húngaro, foi assassinado por um sérvio, em Sarajevo, como reação à recente anexação da Bósnia-Herzegovina àquele império. Esse incidente acabou se constituindo no início da Primeira Guerra Mundial. No final da guerra, o Império Áustro-Húngaro estava desfeito.
Croatas e eslovenos, após séculos de submissão aos húngaros, sentiam-se ameaçados e propuseram, já em 1918, uma união ao Império Sérvio. O rei seria sérvio. Os problemas, desde então, foram inúmeros e culminaram com o assassinato do rei, por um croata, em 1934. A preocupação maior do povo croata era com a hegemonia sérvia. A conseqüência desse incidente foi uma onda popular incontrolável de repulsa ao povo croata.
Como o príncipe-herdeiro só contasse com onze anos de idade, sobe ao trono um príncipe-regente, que governou até 1941.
4) Invasão da Iugoslávia pelos Nazistas
Ao final de 1940, o príncipe-regente assinou com a Alemanha e a Itália o chamado Tratado Triangular. O povo, que não fora consultado, manifestou-se de tal forma contrário a esse ato, que o príncipe-regente renunciou.
Prestes a completar dezoito anos, sobe ao trono o príncipe-herdeiro, que, ouvindo o grito das ruas, denuncia o Tratado Triangular, assinado por seu antecessor. A reação de Hitler foi imediata. Em abril de 1941, auxiliado pela Itália, Hungria e Bulgária, Hitler invade a Iugoslávia, o príncipe exila-se na Inglaterra. As forças armadas são desbaratadas, as perdas são imensas. Hitler avança pelo país e Belgrado é ocupada em poucos dias. Mais uma vez, não há rendição. O cidadão Josip Broz Tito e o Tenente-Coronel do exército iugoslavo Draja Mihajlovic organizam, separadamente, grupos de resistência. A luta segue cruenta. As forças guerrilheiras não dão quartel aos nazistas, que também sofrem pesadas perdas.
O avanço das forças nazistas foi facilitado por um fato imprevisto. Após três dias de combate, a Croácia incapaz de fazer frente ao rolo compressor do III Reich e, ela própria, desejosa de liberdade, rendeu-se a uma engenhosa proposta de Hitler: em troca da promessa de tornar-se um estado independente após a guerra, migrou para as hostes nazistas, passando a combater seus compatriotas sérvios. A Eslovênia já estava subjugado. Aí, precisamente, residem os maiores ressentimentos entre os dois povos, já que, ao que se diz, morreram cerca de 800 mil sérvios residentes na Croácia (uma limpeza étnica). Em 1943, os nazistas são expulsos da Iugoslávia.
5) Proclamação da República Socialista Federativa da Iugoslávia
Expulsos os alemães, um sexto da população havia perecido, mas o país era vitorioso. Com o fim da guerra, Draja Mihajlovic, monarquista convicto, manifestou desejo de promover o retorno do príncipe, que se exilara na Inglaterra. Tito, que tinha outros planos, determinou sua execução e a de seus principais colaboradores.
Como único líder, Tito proclamou, em 1946, a República Socialista da Iugoslávia.
Após rápida aproximação com a URSS, a Iugoslávia, em 1948, desalinhou-se do bloco socialista. Devido à maneira extremamente personalista de governar de Tito, o socialismo iugoslavo é, às vezes, chamado de titoísmo.
Em 1973, sentindo a situação interna muito tensa, Tito promulga nova Constituição que, entre outras medidas, concede maior autonomia às repúblicas e províncias e declara vitalício o cargo de presidente da república, que ocupava desde 1946.
Com a morte do grande líder, em 1980, a Iugoslávia começou padecer da falta de uma liderança forte que lhe pudesse determinar os rumos. Além disso, agravavam-se os problemas econômicos do país. A partir da morte de Tito, a presidência do país passou a ser exercida por um colegiado em que todas as repúblicas eram representadas, com os representantes revezando-se anualmente no cargo de Presidente.
Esse arranjo, naturalmente, não satisfazia aos anseios dos diversos povos que, na verdade, já não se sentiam tão entusiasmados com a união. Desta forma, começam a surgir as lideranças locais, cada uma delas, após constatar a impossibilidade de suceder a Tito, pugnava pela independência de sua república. Assim, na Sérvia surgiu Slobodan Milosevic; na Croácia, Franjio Tudjman e na Bósnia, Alia lzetbegovic.
6) Esfacelamento da União Soviética
O clima na Iugoslávia era tenso. O desejo de separação em cada república era manifestado abertamente. Foi nesse ambiente que começaram a chegar ao país as notícias do desmoronamento da URSS. A queda do Muro de Berlim funcionou como uma senha. O desejo de separar-se virou decisão. Campanhas públicas contra o poder central ganharam as ruas. Foram abertas feridas antigas e ódios históricos, especialmente entre a Sérvia e a Croácia.
A igreja, símbolo histórico da resistência, volta à cena.
7) Declaração de Independência das Repúblicas
O processo foi disparado a partir da Assembléia Extraordinária da Liga Comunista da Iugoslávia (LC), realizada em janeiro de 1990.
Já no segundo dia, a delegação da Eslovênia retirou-se, seguida pela da Croácia. Segue-se a isso a proclamação da independência de ambas, em 26 de junho de 1991. No ano seguinte separam-se também a Bósnia-Herzegovina e a Macedônia.
8) O Problema das Forças Armadas lugoslavas
As Forças Armadas da Iugoslávia tinham a seguinte constituição:
- Exército Popular da Iugoslávia (EPI) - formado por força naval, terrestre e aérea;
- Força de Defesa Territorial - força terrestre circunscrita a cada república.
Sendo o efetivo do EPI proporcional à população de cada república, e tendo a Sérvia mais de um terço da população do país, os sérvios sempre foram mais numerosos no EPI. À medida que a crise no país se aprofundava o percentual de sérvios crescia ainda mais. O resultado foi que, com a retirada do EPI da Eslovênia e da Croácia, os componentes sérvios foram recambiados para a Bósnia e para a própria Sérvia. Esta é uma das razões pelas quais os combates na Bósnia foram tão dramáticos. Para o EPI, permitir que a Bósnia se tomasse independente significava desemprego em uma economia cambaleante.
9) Conjuntura dos Novos Estados
a) Eslovênia - Católica romana, língua eslovena, etnicamente pura, integrada com o Ocidente. Independência consolidada.
b) Croácia - Católica romana, língua croata (durante a união era servo-croata), 23% de sérvios, 30% do território em poder da população sérvia. A ONU continua a manter um corredor de isolamento para evitar o recrutamento das lutas. Futuro ainda indefinido.
c) Bósnia-Herzegovina - religiões: islamismo, católica romana e católica ortodoxa. Habitada por muçulmanos, sérvios, croatas e outros. Alguns fatores carregam de incerteza o futuro do país:
- o fato de a liderança muçulmana pretender dar ao país "status" de república islâmica;
- a composição e distribuição étnica do país;
- ambição política de cada uma das partes, obstando as possibilidades de formação de um governo de coalisão.
d) Macedônia - católica ortodoxa, população homogênea, língua macedônica, grega e búlgara. Enfrentou problemas com a Grécia, mas está conseguindo alguma estabilidade.
10) Os Grandes Problemas da Região Questão Territorial
Existem na região várias pendências de natureza territorial:
- sérvios na Croácia __ ocupam cerca de 30% de seu território; - sérvios e croatas na Bósnia - é o mais grave problema do país. Entre as várias teorias levantadas para sua solução está a cantonização, mas restaria a questão da propriedade privada;
- costas da Croácia __ Bósnia e a Nova Iugoslávia têm pretensões sobre parte do litoral croata, por questões econômicas e estratégicas.
Questão de Política Interna
Persistem muitas reivindicações entre as repúblicas, baseadas em alegação de investimentos especiais feitos pela Federação lugoslava, durante o regime comunista.
- contra a Eslovênia - Macedônia, Nova Iugoslávia, Croácia e Bósnia. Motivo: a única usina nuclear do país, universidades, hospitais, estações de rádio e de televisão. A Eslovênia era o cartão-postal do regime.
- contra a Croácia - Eslovênia, Bósnia, Macedônia e Nova Iugoslávia. Motivo: os modernos portos do Adriático, especialmente o de Split.
Além disso, existe o temor geral do poderio militar sérvio e as aspirações de independência de Montenegro, Voivodina e Kossovo. O problema do Kossovo é muito complexo, já que sua população é composta de 90% de albaneses muçulmanos e em seu território estão as raízes históricas da Sérvia.
Questão Religiosa
- A presença muçulmana na Bósnia e no Kossovo inquietam a Europa.
- Rusga centenária entre católicos ortodoxos (croatas) e católicos romanos.(sérvios).
Questão de Política Externa
Persistem, entre vários países da região, pendências históricas com inquietante potencial desestabilizador.
- Albânia e Nova Iugoslávia __ a questão do Kossovo.
- Grécia e Macedônia __ "Macedônia" é o nome da maior região natural da Grécia. Por esta razão, aquele país luta intensamente junto à comunidade internacional contra o reconhecimento do nome do novo país.
- Nova Iugoslávia e Croácia __ Irã e Mundo Árabe __ presença muçulmana na área.
- A aliança histórica entre Sérvia e Rússia inquieta a região.
- Alemanha, Itália, Áustria, Hungria e Bulgária ressentimentos contra os sérvios em função, ainda, da Segunda Guerra Mundial.
CONCLUSÃO
Da multiplicidade de fatores que alimentam a crise balcânica, um parece predominar: o religioso. As tentativas de equacioná-lo tem esbarrado em alguns obstáculos até aqui insuperáveis.
Em primeiro lugar, os organismos internacionais, notadamente a ONU e a CSCE, mostram-se incapazes de resolver a questão. Muitas parecem ser as causas da incapacidade, entre elas, podemos destacar:
- parcialidade demonstrada por esses organismos em alguns estágios da crise, aliada à falta de objetividade, o que resultou em perda de credibilidade junto às partes envolvidas na crise; falta de vontade política da comunidade internacional;
- interesses conflitantes dos países que ocupam assento na ONU (Rússia, EUA, Inglaterra);
- sentimento ambíguo em relação à Bósnia-Herzegovina - por um lado não desejam a permanência muçulmana no poder e, por outro, não querem privilegiar os sérvios que poderiam ampliar sua influência na região;
- a presença sérvia na Croácia continua a representar grande fonte de preocupação para a comunidade internacional, principalmente porque pode resultar na entrada da Sérvia no conflito. Essa possibilidade resultaria na internacionalização da guerra, com conseqüências imprevisíveis;
- por fim, é importante ressaltar que só com a presença dos sessenta mil soldados da OTAN a situação se acalmou. As questões geradoras da crise continuam intactas. Apesar das eleições que acabam de ser realizadas na Bósnia, sob a supervisão da ONU, a situação é tensa. Até quando a OTAN e a ONU permanecerão na região? O que acontecerá, então?
 

Resumo
Este trabalho objetiva analisar a crise no Leste Europeu, como um todo, a partir do estudo da crise iugoslava. Apesar de algumas incursões pelo campo econômico, psicossocial e militar, a análise privilegia o processo histórico, em sentido lato. Dessa forma, faremos um passeio pelos fatos históricos na região, desde o Século VII até as eleições na Bósnia, há alguns dias. A última parte da exposição dedica-se ao levantamento dos principais problemas que afligem a região e a um delineamento de algumas perspectivas

Abstract
Having Yugoslav crisis as starting point, this paper aims at analyzing the crisis in East Europe, as a whole. In spite of some incursions in the economic, psycho-social and military fields, the text is focused on the historical process. As a result we will "travel" through the historical facts in the Region from VII Centrury till Bosnian elections, held some days ago. The last part of the paper is devoted to outlining the main problems in Balkan region and delineating some perspectives for it

Resumen
Este trabajo tiene por objetivo analizar la crisis en el Este Europeo, como un todo, a partir del estudo de la crisis Yugoslava. A pesar de algunas incursiones por el campo económico, psicosocial y militar, el análisis privilegia el proceso histórico, en sentido lato. De esta forma haremos un paseo por los hechos históricos en la región desde el siglo VII hasta las elecciones en Bosnia, hace algunos días. La última parte de la exposición se dedica al levantamiento de los principales problemas que afligen a la región y a un delineamiento de algunas perspectivas.
 

Pedro Saraiva dos SantosFormado em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Santos e pós-graduado em Língua Portuguesa pela Universidade São Judas Tadeu, em São Paulo. Residiu na Iugoslávia, entre 1989 e 1992. Professor de Inglês da União Pioneira de Integração Social – UPIS.