Dilemas da unificação alemã
Revista Istoé, 26 de dezembro de 1990
Dilemas da unificação
Elmar Altvater, da Universidade Livre de Berlim,
prevê dificuldades para estabilizar a
Alemanha unida.
Os alemães e cidadãos do mundo ainda estão se recuperando
do choque de uma enxurrada de eventos que teve início em novembro
de 1989, com o desmoronamento do Muro de Berlim. A união monetária
em 1º de julho e o dia 3 de outubro, data que passará à
História como o dia da unificação, foram celebrados
com euforia. As eleições parlamentares de 2 de dezembro,
as primeiras da Alemanha unificada em 58 anos, garantiram ao grandalhão
Helmut Kohl mais quatro anos de chancelaria pelo fato de ele não
ter perdido o bonde da unificação. Já Oskar Lafontaine,
o candidato do SPD, o Partido Social-Democrata, foi menos receptivo à
unificação e isso lhe custou caro: o SPD teve o seu menor
número de votos desde 1957. Outra surpresa: os verdes do lado ocidental
não obtiveram os 5% necessários e estão fora do Parlamento.
O triunfante Kohl agora jubila com a Nação unida. Ele sabe,
no entanto, que ainda tem muito chão pela frente para estabilizar
o país. Alguns observadores mais céticos argumentam que o
pressuroso governo encabeçado por Kohl fez promessas que dificilmente
cumprirá. O professor de Ciências Políticas Elmar Altvater,
da Universidade Livre de Berlim, é um deles. Segundo Altvater, um
especialista nas áreas de mercado mundial, desenvolvimento e assuntos
econômicos, que já fez estudos sobre a Amazônia, o governo
Kohl não está sendo realista quando diz que não aumentará
os impostos para financiar a unificação. Só no ano
que vem, adverte o professor, haverá mais de 140 bilhões
de marcos alemães em dívida. Altvater vai mais longe: imigrantes
do Leste europeu virão para a ex-República Democrática
Alemã que servirá de trampolim para o Ocidente; habitantes
de Berlim Leste continuarão a debandar para Berlim Ocidental e deixarão
para trás vazios fundamentais para a reconstrução
daquela parte da cidade que hoje, unificada, conta com 3,4 milhões
de habitantes. Desemprego? Altvater fala em dois milhões atualmente
e cita dados de instituições que garantem que de quatro a
cinco milhões em breve entre os 16 milhões de habitantes
do oriente alemão. As palavras de Altvater não tem de ser
encaradas de forma negativa pelos mais otimistas. A presença de
pessoas menos embevecidas com o país unificado é crucial
para o atual cenário político alemão e da Europa.
P - A Alemanha experimentou uma série de eventos que a transformou
em um período curtíssimo e agora, após as eleições
parlamentares, o país unificado volta á realidade. Será
dura essa realidade?
R - Acho que sim. O resultado das eleições foi surpreendente
para todos, porque não reflete as dificuldades e os problemas que
a Alemanha unificada está enfrentando, especialmente em sua parte
oriental. As frustrações dos alemães orientais, no
novo contexto sócio-econômico, certamente terão um
efeito político e a tendência não é um retorno
para a social-democracia, e sim uma guinada para a direita.
P - Ao dizer "surpreendente" o sr. não se refere à vitória
de Kohl...
R - A vitória de Kohl e de seu partido era aguardada, mas ninguém
esperava uma derrota tão desastrosa da social-democracia. Foi também
uma surpresa os verdes - do Ocidente - não terem conseguido uma
vaga no Parlamento.
P - Acha que o processo de unificação foi rápido demais?
R - Sim. Todo mundo diz que talvez não tenha havido uma opção,
porque a grande maioria, especialmente, no lado oriental da Alemanha, queria
uma unificação rápida e os políticos do oriente
e do ocidente não puderam desacelerar o processo de unificação.
No futuro, os historiadores saberão se houve outras opções
ou não. Mas, falando objetivamente, o processo foi demasiadamente
rápido para refletir a opinião pública e a vida individual
dos alemães. No Leste, as coisas foram especialmente repentinas.
Houve uma transição de 40 anos de socialismo real para o
capitalismo, de uma moeda muito fraca para uma moeda muito forte, de uma
forma de ditadura para uma democracia. E tudo aconteceu em semanas! É
um processo muito rigoroso e seus efeitos traumatizantes, que hoje não
são claros, virão à tona no futuro próximo.
As conseqüências econômicas para os novos Estados federais
serão particularmente difíceis.
P - O senhor vê alguma ponta de nacionalismo, atualmente, que possa
ser ruim para a Alemanha?
R - Há uma certa tendência nacionalista no ar, mas não
tanto do lado ocidental. Os republicanos se deram mal nas eleições
e eles representam o novo tipo de nacionalismo que começou nos anos
80. Hoje eles não tem a mesma organização e expressão
política que tiveram. Na parte oriental, as coisas são bem
diferentes. Existiam, no underground, nazistas, socialistas, progressistas,
antinacionalistas e antifascistas. Havia também uma corrente nacionalista
que não podia se exprimir e que hoje está aí. O Ocidente
não conhecia este fenômeno nacionalista que agora vigora no
Leste. Não temos esta hostilidade com os estrangeiros e com aqueles
que chamamos "convidados de trabalho" que eles têm. Devido aos problemas
de desemprego, muitos alemães do Leste simplesmente não toleram
imigrantes. E em breve haverá um outro grande problema: imigração
de outros países do Leste para a Alemanha. Será mais fácil
para outros povos do Leste entrar no Ocidente através da República
Democrática Alemã.
P - O nível de desemprego ficará ainda mais alto?
R - Sem dúvida. No momento, o nível de desemprego na Alemanha
do Leste está bem elevado. Oficialmente, fala-se em quatro ou cinco
por cento, o que não é muito. Porém, há outras
formas de desemprego dissimulado - estima-se, por exemplo, que a taxa de
desemprego relacionado à integração da Alemanha Oriental
no sistema social do Ocidente seja de 11 a 15 por cento. Muitos daqueles
que estão desempregados no Leste são chamados de "trabalhadores
de meio-período", mas na verdade não tem trabalho algum.
Estamos falando em 1,7 milhão de pessoas, ou seja, mais de 13 por
cento da força de trabalho. Somando o desemprego oficial ao não-oficial
obtém-se dois milhões de desempregados na Alemanha Oriental.
Há analistas e instituições que dizem que, só
no próximo ano, o número de desempregados no Leste chegará
a quatro ou cinco milhões. Muitos deles virão para o lado
ocidental, o que já está acontecendo. Antes da união
monetária, no dia 1º de julho, a cada semana 10 mil pessoas,
em média, vinham para o Ocidente. Essa foi uma das razões
que levaram o governo e a oposição a optar por uma unificação
política e por uma moeda única. As imigrações,
no entanto, não cessaram. Hoje não sabemos exatamente quantas
pessoas vem para o lado ocidental, porque não há mais fronteiras.
Os institutos de pesquisas dizem que de duas a três mil pessoas estão
vindo para o Ocidente a cada semana. Muitas delas são altamente
qualificadas: gente jovem, flexível, etc. Elas deixam para trás
lacunas que dificultarão o processo de reconstrução.
E no Ocidente elas exercem uma pressão nas relações
industriais, no nível salarial e no sistema social.
P - Quanto tempo levará para que o padrão de vida dos habitantes
do Leste seja igualado ao dos alemães ocidentais?
R - Pelo menos até o fim desta década, a diferença
persistirá. Mas ela não pode existir entre Berlim Ocidental
e Oriental, porque não podem haver contrastes em uma cidade grande
de uma nação rica. Isto pode acontecer no Brasil, mas não
aqui neste país altamente desenvolvido, às vezes pós-moderno.
A tarefa, no entanto, é árdua: os imigrantes do Leste chegarão
antes em Berlim por causa de sua posição geográfica
e, portanto, ela crescerá rapidamente. Teremos dificuldades para
administrar esta cidade repleta de novos habitantes. E, se o governo não
for transferido de Bonn para Berlim, a cidade estará em maus lençóis.
A manutenção do padrão de vida do berlinense ocidental
está condicionada à melhoria do padrão do berlinense
oriental e o governo local não tem condições de fazer
isto sozinho.
P - Com a unificação alemã, previam-se grandes investimentos
no Leste, mas, aparentemente, isto não está acontecendo.
O fato de não se saber ao certo a quem pertencem várias propriedades
é uma barreira. Os problemas ecológicos seriam uma segunda
dificuldade.
R - É verdade. Existem esses problemas legais e jurídicos
e, se a situação de direito de propriedade não for
resolvida, nenhum banco dará crédito, porque não há
garantias. Este é um problema. O outro, de fato, é a situação
ecológica. Ninguém sabe ainda quanto custará recuperar
o meio ambiente do Leste. E há um terceiro empecilho: o lado oriental
é interessante como mercado que recebe seus fornecimentos de firmas
e fábricas localizadas no lado ocidental. Por que construir uma
fábrica no Leste, quando a fábrica no Ocidente garante a
demanda? É necessário apenas fazer alguns investimentos para
construir cadeias de vendas, supermercados, postos de gasolina, um sistema
de comunicações, enfim, um sistema de infra-estrutura. Isso
custará mais de 200 bilhões de marcos e será feito
rapidamente. Mas, ao contrário do que muita gente pensa, os investimentos
não terão um impacto ou, digamos, não haverá
aquele empurrão no Leste, pois muitos acessórios continuarão
a vir do Ocidente, uma vez que as fábricas daqui são mais
eficientes e mais modernas. Outro problema: o câmbio comercial entre
o marco alemão oriental e o deutschmark era mais ou menos um para
dois e todos os débitos das corporações foram desvalorizados
de dois marcos para um deutschmark. Portanto, o Leste tem uma grande defasagem
de moeda. As empresas do lado oriental, que tinham dívidas na moeda
antiga, tiveram seus encargos convertidos em uma moeda mais forte.
Isto significa que estas empresas irão á falência se
não receberem subsídios. Há uma curadoria responsável
pela organização da indústria estatal que, com mais
de oito mil firmas, é a maior holding do Ocidente. Trata-se da substituição
do velho sistema de planejamento central por uma organização
privada, mas ela não está se mostrando mais eficiente do
que o sistema anterior. Esta organização, que está
vendendo firmas não só para alemães como também
para investidores de outros países, até agora não
teve muito sucesso. Ela precisou dar 40 bilhões de marcos em créditos
para o parque industrial do Leste, para poder ajudá-los a transpor
a barreira entre dívida e bens disponíveis. Creio que a união
monetária foi falha neste sentido, porque criou uma sobrecarga de
dívida para o parque industrial do Leste. Várias firmas estão
falindo e isso significa a destruição do local de trabalho.
P - Quem paga a unificação?
R - O orçamento do Estado. E isso significa que o governo tem ou
de aumentar os impostos ou de reduzir gastos em outras áreas ou
aumentar a dívida pública. Até agora esta última
vem aumentando tremendamente. Recentemente Pohl (Otto Karl Pohl, presidente
do Bundesbank, o banco central alemão) disse que serão necessários
mais 140 bilhões de marcos no próximo ano para financiar
o processo de unificação. Durante a campanha eleitoral, houve
uma grande discussão entre o governo e a oposição,
representada em particular por Oskar Lafontaine, a respeito de como financiar
a unificação germânica. De um lado, Kohl dizia, como
o presidente americano George Bush falou em sua campanha, que jamais aumentaria
os impostos para financiar a reunificação. Já Lafontaine
dizia que isso era impossível, que o governo teria de aumentar impostos,
pois se isso não ocorresse o financiamento se daria com o aumento
da dívida pública e, conseqüentemente, com o aumento
dos juros - e todo mundo que depende dos juros acabaria pagando caro. Acho
que isso foi decisivo para o resultado das eleições.
P - O sr. acha que a maior falha de Lafontaine foi sua relutância
em aceitar a reunificação?
R - Não tenho certeza disso. Por um lado, acho que sim. Ele sempre
disse "não sou contra essa unificação, sou a favor
dela, mas temos de fazer isso decentemente, suavemente, de uma forma socialmente
correta". Não creio que "relutância" seja a palavra correta
para descrever a maneira que Lafontaine reagiu á unificação.
Na verdade, ele estava advertindo todo mundo ao falar que o processo estava
sendo conduzido de forma demasiadamente acelerada. Mas muita gente acha
que o SPD era contra a unificação e que o partido não
tinha condições de levar o processo à frente. Outra
vantagem do governo é que Kohl não cometeu um único
erro no último ano e isso até a esquerda tem que admitir.
Ele reconheceu em janeiro deste ano que tinha uma chance histórica
de unificar a Alemanha e atingir uma hegemonia para os democratas-cristãos.
Ninguém acreditava nisso na época. Eu não acreditava.
Começei a crer em março, não antes. Kohl deu início
a um processo lógico usando os desejos secretos e às vezes
não tão secretos dos alemães do Leste e o velho sonho
do Ocidente alemão de uma Alemanha unificada. Ele usou toda a aliança
ocidental contra a relutância de François Mitterrand e Margaret
Thatcher e soube lidar com Gorbachev e os soviéticos. Kohl venceu
as eleições na onda desse sucesso.
P - Após esse magnífico ano Kohl terá de governar
e cumprir suas promessas, como a de não aumentar os impostos. Ele
é o homem certo no lugar certo para esta tarefa?
R - Daria para especular muito sobre esse assunto. No momento, Kohl é
o homem certo no lugar certo. Mas acho que ele não será capaz
de resolver todos os problemas que enfrentará no futuro.
P - Haverá uma forte oposição nesse novo contexto?
R - Tudo depende do SPD. Lafontaine falhou e aparentemente voltará
para seu Estado exercer funções políticas. O partido
terá de encontrar um novo líder e o processo não é
fácil. Levará pelo menos dois anos para o SPD encontrar alguém
que possa substituir Lafontaine. A saída dele, na minha opinião,
é a segunda derrota do SPD.
P - Recentemente Kohl assinou um pacto de não-agressão com
Gorbachev. Os franceses dão sinal de estar um pouco enciumados com
o fato de Kohl conversar com os soviéticos antes de dialogar com
eles sobre o assunto. Como será a relação da Alemanha
unificada com a União Soviética, a França e a Grã-Bretanha?
R - A nova Alemanha terá forte papel político no contexto
europeu. Isso tem a ver não só com a unificação
da Alemanha, como também com o desmoronamento dos regimes socialistas
do Leste e o colapso do império soviético. A Europa central
voltará a ocupar uma posição importante.
P - O velho nacionalismo alemão poderia ser perigoso?
R - Kohl sempre disse, e acho que é consenso na Alemanha, que o
novo caminho será tomado somente para dar continuidade ao processo
de unificação européia. Os alemães se tornaram
um povo melhor, voltado para a paz, e agora tem interesses econômicos
na unificação da Europa, que já se deu em várias
áreas e níveis. Nunca tivemos o número de turistas
que temos hoje na Europa como um todo. Muita gente na Alemanha sabe um
pouco sobre ou já esteve na Itália, Espanha, na França,
etc. O mesmo se dá com os povos escandinavos e os britânicos.
Há um grande interesse por parte dos alemães no novo contexto
europeu e a classe capitalista da Alemanha, apesar de forte, não
é suficientemente forte para competir com os blocos que estão
sendo criados na América e na Ásia. Na nova Europa haverá
uma hegemonia alemã, mas isto não significa o ressurgimento
do imperialismo germânico.
ALEMANHA ORIENTAL: UMA TRANSIÇÃO INSTANTÂNEA
Na época da unificação, a Alemanha
Oriental tinha um quarto da população da alemanha Ocidental
mas contribuía apenas com um décimo para o seu PIB. A unificação
proporcionou uma estrutura institucional e jurídica comprovada pelo
mercado e um grande contingente de profissionais experimentados. Também
tornou disponível um volume enorme de recursos - cerca de US$ 700
bilhões - para financiar investimentos e transferências
sociais. Contudo, as diferenças salariais necessárias para
compensar a baixa produtividade do Leste não terdaram a se mostrar
inviáveis do ponto de vista social e político. Com a elevação
dos salários, os custos da máo de obra na Alemanha Oriental
passaram a ser os mais altos do mundo. O resultado foi o desemprego em
massa, que só se tornou politicamente apetecível graçasa
transferências sociais, em virtude das quais o padrão de vida
dos desempregados tornou-se mais alto que o dos trabalhadores antes da
unificação. Não fossem a aposentadoria antecipada
e outros programas, o desemprego teria passado de 30%.
A antiga República Democrática Alemã
está começando a sair do período de ajuste e as empresas
que sobreviveram constituem um grupo altamente competitivo. Mas provavelmente
poucos dos desempregados encontrarão trabalho. A transição
relegou todo uma geração à marginalidade econômica.
Relatório sobre o desenvolvimento Mundial 1996