Núcleo de Pesquisa em
                   Relações Internacionais
 
                                  Conflitos e segurança:
                       a defesa dos Estados Unidos em questão

                                                         Cristina S. Pecequilo,
                            Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais/USP

Questionada muitas vezes quanto a sua extensão e vontade, a liderança internacional dos Estados Unidos mantém-se sem adversários em termos de segurança e de defesa.                     Incontestavelmente, a América é uma superpotência militar, capaz de projetar globalmente seu poder. Entretanto, as incertezas e as mudanças do pós-Guerra Fria também serão                     sentidas neste campo, tornando necessária uma reavaliação de prioridades e de estratégias.
Examinando as características do atual sistema, seu potencial de conflito e a readequação das forças americanas a um novo tempo, o conjunto de artigos selecionados tenta dar conta destas questões, apresentando avaliações e sugestões de políticas.
Partindo da constatação de que mais do que uma exceção, as guerras têm sido uma constante nas relações entre as nações, Nye Jr. avalia o quadro dos conflitos potenciais do pós-Guerra Fria e suas implicações para o interesse americano, enquanto os outros autores lidam com questões relativas à estrutura de segurança.
Segundo Nye Jr., as guerras são normalmente provocadas por alterações de poder e podem ser classificadas em três categorias: entre grandes poderes, regionais e internas. Depois de encerradas, dão origem a períodos de transição, marcados pela alta imprevisibilidade, como o presenciado agora. No caso do pós-Guerra Fria junta-se, a esta imprevisibilidade, a aceleração                   do processo de queda e ascensão de poderes, das mudanças tecnológicas, culturais e econômicas e a particularidade do cenário, caracterizado pelo poder de destruição total das armas nucleares.
De acordo com o artigo, as transformações na natureza e na alocação do poder e das relações entre as nações tornam a guerra entre as grandes potências bastante improvável, mas não as eliminam. Hoje, o poder encontra-se distribuído em um padrão tridimensional, com os Estados Unidos possuindo dividendos em todas as suas áreas. A unipolaridade ocorre                 somente no campo militar, economicamente o mundo é tripolar, dividindo-se a influência americana com Europa e Japão (China, no futuro talvez) e, transnacionalmente, a tendência é por uma dispersão crescente. O próprio valor e utilidade das guerras globais são questionados como forma de adquirir poder político, territorial, diplomático e econômico, existindo, ainda, entre estes poderes, alianças anteriores onde se compartilham inúmeros valores comuns.
Certamente, desacordos continuarão existindo, assim como não está descartada a emergência de países como Rússia e China  como inimigos e potências desestabilizadoras. Nye Jr. As denomina de incertezas-chave que oferecem riscos residuais, devendo-se atentar ao desenvolvimento de suas transições  políticas e econômicas domésticas. No longo prazo, esforços                   devem ser direcionados para promover seu engajamento à comunidade internacional, as suas instituições e mecanismos de equilíbrio de poder e impedir a renacionalização de suas                   políticas externas.
Mesmo na pior das hipóteses, ou seja, na emergência de um regime agressivo, será possível evitar a extensão da guerra pela formação de uma coalizão liderada pelos Estados Unidos, contando com o apoio dos outros regimes democráticos, ou pela projeção unilateral de força. O poder dos Estados Unidos como limitador dos conflitos também poderá ser percebido em nível regional. Em grande parte, a emergência deste segundo tipo de conflito dependerá do papel regulador desempenhado pelos americanos como o maior poder externo.
Mais prováveis do que os globais, os conflitos regionais serão motivados por fatores que vão desde desejos hegemônicos até tentativas de adquirir armas de destruição em massa. Dentre os países capazes de desestabilizar os equilíbrios regionais são mencionados Coréia do Norte, Irã e Iraque. Na mesma linha, Don Snider aponta que os conflitos regionais são os maiores                    desafios para a segurança dos Estados Unidos. E não se pode supor, ao planejar o escopo das forças militares americanas, que o clima de cordialidade observado agora vá se manter no longo                    prazo. O período atual é de consolidação de tendências, onde a indefinição poderá levar tanto a desenvolvimentos positivos como negativos. Neste sentido, muito estará dependente destes                    acontecimentos regionais e da evolução de sua natureza.
Segundo Snider, deve-se ter em mente que o ambiente de segurança continuará bastante desorganizado e que o Estado-Nação e seus valores tradicionais continuarão sendo o                   centro das relações internacionais. Além disso, em cada uma das regiões, em algum momento, um poder regional poderá desejar consolidar sua influência, provocando desordem e instabilidade                    nos atuais arranjos. Entretanto, mesmo estes conflitos não serão tão frequentes como os internos, ou comunais, caracterizados por uma complexa conexão de fatores históricos, culturais,                   étnicos, nacionais, religiosos, territoriais e transnacionais.
De acordo com Nye, os conflitos internos serão prevalescentes, ocorrendo nos chamados impérios em colapso, como a África e setores da União Soviética e em Estados não legítimos e falidos como a ex-Iugoslávia. Inicialmente limitados às nações e grupos                 envolvidos, estes conflitos poderão se alastrar geograficamente, forçando possíveis intervenções de cunho humanitário e impondo difíceis escolhas para os grandes poderes. Embora não                    representem ameaças imediatas e diretas aos interesses americanos, ou à segurança mundial, poderão levar à escalada vertical e horizontal de tensões, acumulando riscos.
Otimisticamente, seus efeitos desestabilizadores serão aparentemente menores, mas guerras, diferentemente das  regionais e globais não poderão ser dificultadas pela existência                   de uma base estrutural sólida de alianças e arranjos liderados pelos Estados Unidos, assim como pela presença de mecanismos de construção de confiança, cooperação e consenso. Ou seja, paradoxalmente, os conflitos internos são talvez menos perigosos, só que mais frequentes e apresentando situações nas quais as nações estarão menos preparadas para agir.
Nestes e nos outros conflitos, a atuação dos Estados Unidos será decisiva para prevenção de sua ocorrência e expansão.Entretanto, isso não significa, como diz Nye, o policiamento global e nem a exclusividade das ações unilaterais. Nye define o papel dos Estados Unidos como um de "xerife da força" (sheriff of the posse), agindo preferencialmente na formação e liderança de coalizões, na divisão de ônus e responsabilidades, no               estabelecimento e administração de mecanismos institucionais legítimos que incrementem a cooperação e na manutenção dos compromissos militares.
A missão estratégica chave apontada por Snider é bastante semelhante a este papel definido por Nye, atentando-se à  capacidade dos Estados Unidos em trabalhar em conjunto com                   outras nações para moldar o ambiente internacional. Basicamente, esta missão americana consiste na habilidade em influenciar as percepções e ações de outros poderes vis-à-vis                    suas próprias capacidades e pela preservação de sua presença externa e superioridade militar.
Deve-se ainda mencionar que a possibilidade de realização desta missão estará condicionada à conservação das forças do país, em termos de liderança militar e da aplicação de tecnologias de ponta. Segundo Snider, os Estados Unidos precisam continuar                 dominando o uso da tecnologia da informação, criando condições propícias à inovação doutrinária, organizacional e tecnológica de sua defesa. No momento, entretanto, a falta de                    uma liderança política e uma percepção parcial do cenário internacional levam a uma ausência de estratégias capazes de sustentar e construir estas futuras capacidades.
O argumento principal de Snider é que o atual orçamento não é condizente com os conflitos potenciais existentes e nem com a tarefa de promover a readequação da defesa. No extremo, a postura corrente, exposta na estratégia democrata do Bottom-Up                    Review (BUR) de 1993, é inadequada, podendo levar a "um desastre de trem". Snider reconhece que a ausência de ameaças imediatas dificulta uma atenção para os problemas de defesa                  pela predominância de fatores domésticos e pelo decréscimo da importância do poder militar na resolução de desafios no pós-Guerra Fria.
Para Snider, como para os autores que com ele debatem para  tentar evitar o "desastre de trem", o problema não está tanto no montante de recursos, mas em sua alocação inadequada. Ou, como destaca Richard Betts, os Estados Unidos sempre fizeram                    um "mau trabalho" na preparação e manutenção de sua defesa em tempos de paz. Parece também não haver muita discordância com a preocupação essencial do BUR, qual seja,                    manter a capacidade americana de lutar em dois cenários regionais (MRC- Major Regional Contingencies)  simultaneamente, mas questiona-se a falta de indicadores de                reformulação interna. Os Estados Unidos gastam hoje cerca de 4% de seu PIB em defesa, com um orçamento projetado de 252 bilhões de dólares para 95 e, para 99, de 230 bilhões. Tais                    valores são maiores do que os gastos combinados de seus aliados e de seus amigos, mas mesmo assim parecem não dar conta adequadamente das dimensões do poder americano:                  prontidão, estrutura de forças e modernização (Korb aponta uma quarta, a sustentabilidade).
É preciso encontrar um novo equilíbrio destes componentes, distribuindo recursos de maneira diferenciada. Certamente, aponta McCurdy, isto envolverá difíceis trade-offs, mas                    readequações devem ser feitas. Fundamentalmente, é preciso promover uma revisão da estrutura das forças, repensando seu tamanho e evitando sua obsolescência, com prioridade para a modernização e incremento de pesquisa e desenvolvimento (P&D) para preservar a supremacia e os avanços tecnológicos e a ampliação de sua aplicação prática.
De acordo com Andrew Krepinevich e Betts, serão necessárias não somente forças armadas menores, mas, principalmente, diferentes e desligadas das tradições da Guerra Fria. Além disso, será importante a preservação de uma base industrial saudável e uma maior restrição ao uso da força em operações de paz. Neste sentido, Nye aponta que o Departamento de Defesa já estabeleceu algumas diferenciações quanto ao uso da força para a proteção dos interesses americanos. Caso algum interesse vital esteja ameaçado, os Estados Unidos podem, e devem, agir unilateralmente. Interesses importantes, mas não vitais, por seu lado, poderão ser defendidos por meio de coalizões e alianças, enquanto os puramente humanitários devem receber atenção e recursos mais limitados.
Dois grandes problemas podem ser ainda apontados para esta               reconceitualização e agilização da defesa americana, denominada de "Revolução em Assuntos Militares" (RMA): a ausência de uma percepção estratégica clara em um cenário cujo                    maior desafio não são inimigos reais, mas a incerteza e, segundo, a tendência do planejamento de segurança para, como define Snider, se preparar para "lutar a última guerra e não a                   futura". A garantia da segurança no longo prazo envolve também os desafios potenciais da proliferação e da competição militar entre poderes.
Por outro lado, Edward Warner III do Departamento de Defesa (DOD) defende a adequação do atual orçamento e de sua distribuição, argumentando contra a imagem do desastre iminente. Para Warner, a estratégia e o programa de defesa são                   adequadas para dar conta de um mundo sempre perigoso. Os Estados Unidos mantêm seu compromisso de preservar sua  capacidade de deter e, se necessário, derrotar, poderes regionais
                   hostis, unilateralmente ou em coalizões. Da mesma maneira, os                    Estados Unidos vêm investindo no aprimoramento de suas capacidades, agilizando e reformulando sua defesa.
No outro extremo, Lawrence Korb irá discordar de todas as posições anteriores, defendendo cortes ainda maiores. Korb aponta que os Estados Unidos gastam muito mais do que as  outras nações e que o princípio do BUR de lutar duas contingências regionais ao mesmo tempo é exagerado, pois é pouco provável a simultaneidade dos conflitos. Em segundo                    lugar, Korb considera que os atuais patamares de gasto e a dificuldade das reformas correspondem não a interesses de defesa estritos, mas a preocupações políticas e paroquiais de                   republicanos e democratas que tendem a ver o setor como um "programa de empregos". Em sua visão, o problema de segurança está na ausência de vontade política e liderança e não                    no setor de defesa.
Na transição do pós-Guerra Fria, os Estados Unidos devem trabalhar para preservar sua posição especial de defesa, garantindo-se quanto a perigos futuros e riscos imediatos. Tanto                    em termos de conflitos como de reformulação de padrões de segurança as dificuldades serão muitas para que possam ser colocadas novas prioridades. Evitando o desgaste e a                 degradação de sua estrutura de defesa, os americanos estarão garantindo não somente sua segurança, mas também  incrementando as perspectivas de cooperação entre as nações e                    da constituição de um sistema internacional mais estável e  seguro.
 
 

                                    Artigos resenhados

 

                   KORB, Lawrence J. "Our overstuffed armed forces". Foreign
                   Affairs, 74(6), November/December 1995. p. 22-34.

                   NYE JR., Joseph S. "Conflicts after the Cold War". The
                   Washington Quarterly, 19(1), Winter 1996. p. 5-24.

                   SNIDER, Don M. "The coming defense train wreck...". The
                   Washington Quarterly, 19(1), Winter 1996. p. 89-101.

                   SNIDER, Don M. et alii. "...And what to do about it". The
                   Washington Quarterly, 19(1), Winter 1996. p. 103-124.