As principais idéias que tento analisar nesta primeira
tentativa podem ser resumidas em duas questões: o debate sobre globalização
é ideológico? E há alguma relação entre
a Globalização e os processos sociais? Podemos iniciar a
delimitar estas questões citando um texto recentemente publicado
na revista The Atlantic Monthly.
"A Guerra Fria foi uma situação extremamente
estável, ainda que não pareça. Dois blocos de poder,
representando conceitos de organização social opostos, lutavam
pela supremacia; porém, cada lado respeitava os interesses vitais
do outro lado, uma vez que cada potência podia destruir inteiramente
a outra (e o mundo) no caso de uma guerra. Isto colocava um limite claro
ao conflito; por sua vez, todos conflitos locais eram englobados pelo conflito
entre as potências. Este mundo extremamente estável chegou
a um fim como resultado da desintegração interna de uma das
superpotências; mas nenhuma ‘nova ordem mundial’ tomou seu lugar.
Entramos num período de desordem."
O tema globalização passa a ser, a partir
do colapso da URSS, um tema central nas discussões a respeito da
nova organização mundial. A descrição acima
- uma compilação das idéias expressas por George Soros
- é aceita como real por outros autores cujos artigos foram analisados
no decorrer do curso; entretanto, alguns analisam a situação
segundo a crença de que, com o colapso econômico e social
da formação da Guerra Fria, surge sim uma nova organização
social global.
Temos visto vozes ainda mais exaltadas na direção
da defesa de uma tal "nova ordem" mundial; é o caso de Peter Rutland,
que afirma ser a queda do regime socialista, mais do que causa, uma prova
da Globalização. Não se pode afirmar que tal autor
- um cientista social norte-americano, envolvido com o trabalho de restruturação
econômica do Leste Europeu - seja desinformado ou ingênuo entretanto,
ao nos apercebermos de que há autores e comentaristas donos de uma
visão muito mais aberta com relação à situação
mundial, pode-se especular a existência de todo um cenário
ideológico que deforma e direciona o debate acerca das novas(?)
relações de hegemonia e poder no mundo atual.
Ainda assim, a noção de globalização
enquanto ideologia é negada pelo próprio Lomnitz; segundo
este autor, não há uma ideologia global de comunidade, nem
uma base institucional alternativa, uma vez que os países dominantes
jamais criariam tais condições: isso seria contra seus interesses.
Já que a globalização não trata da comunidade,
não deve, portanto, influenciar a ideologia nacionalista. O autor
não admite que a globalização encerra em si uma ideologia
de comunidade, e sim que ela representa um processo social real, historicamente
determinado. Voltaremos a este ponto mais adiante.
No outro extremo, temos Noam Chomsky a afirmar que a
Guerra Fria era uma ideologia que travestia as relações de
dominação Norte-Sul em relações de conflito
Leste-Oeste; a queda desta máscara não significa nenhum novo
processo social, como pode parecer, e sim o surgimento do que estava escondido,
do que não aparecia: a simples dominação dos países
ricos sobre os pobres..
Vista sob esta ótica, a globalização
nada mais representa que uma nova ideologia, substituindo a Guerra Fria
no papel de legitimador de uma situação de dominação.
É interessante notar que o componente econômico desta ideologia
é a defesa do liberalismo, que em última instância
é uma defesa evidente do darwinismo social - sobrevivência
do economicamente mais forte - e, conseqüentemente, uma defesa do
programa imperialista.
Paradoxalmente, prega-se o fim do conceito de imperialismo.
É possível perceber o claro componente ideológico
inerente a este paradoxo, uma vez que reveste-se o processo globalizador
de um manto, de uma aura de inexorabilidade, de promessas de um futuro
homogêneo e desterritorializado (como diria Milton Santos), enquanto
que, no fundo, este é um processo de dominação mundial,
de hegemonia de um país (ou de grupos de pessoas de posição
social semelhante em vários países).
Voltemos a Lomnitz. Como já descrito anteriormente,
este autor nega a existência de um conteúdo ideológico
de comunidade global; entretanto, é possível ver a globalização
como ideologia imperialista pós Guerra-Fria, levando ao Multiculturalismo
- fenômeno social com base ideológica, segundo o autor, um
instrumento para controle de produção e circulação
externas. Países ricos usam o multiculturalismo para "dominar" o
mundo, valendo-se do fato de que as relações internacionais
são desiguais. Percebe-se, então, que, nos países
pobres, a globalização leva a ideais nacionalistas - segundo
o autor, estamos condenados ao nacionalismo.
Entretanto, nota-se o cunho ideológico da discussão
acerca da globalização quando se presta mais atenção
a essa questão do nacionalismo; o ideal globalizante é válido
- ainda que sendo utilizado para espoliar os povos mais pobres - tanto
para os países pobres quanto para os ricos. Dito de outra forma,
não apenas os países pobres se encontram condenados ao nacionalismo,
como também os ricos; os primeiros, para preservarem seus processos
sociais próprios e assim se fortalecerem - quer se assuma como fato
a futura homogeneização ou não - e os últimos
para manterem suas posições de domínio, para não
dividirem com os países pobres sua melhor condição
de existência. Conclui-se a respeito da globalização
que ela representa sim uma ideologia igualitária, e mais, uma ideologia
enganosa: o que é real é a exclusão, um fator puramente
estrutural no cenário mundial de hoje.
Pode-se imaginar a questão sob outra ótica:
a globalização vista como uma ideologia da generalização
dos valores ocidentais; mas cabe lembrar que o pensamento crítico
também é de origem ocidental e, portanto, deve ser utilizado
sem parcimônia nesta questão. Supostamente há novos
processos sociais em curso e, supostamente, estes podem ser explicados
pela Globalização. A Antropologia, com sua análise
de relações sociais (indivíduos, grupos, categorias...),
perde um pouco de terreno nos tempos atuais, uma vez que na pós-modernidade
há uma ênfase nas relações técnicas de
produção e não nas sociais - parece não haver
pessoas na discussão -; assim, percebe-se um ligeiro descompasso,
uma falta de perspectiva desta disciplina em proceder análises mais
profundas atualmente. O excessivo relativismo causa uma falta de categorias
explicativas, de definições formais; uma conseqüência
é a constante recorrência dos autores a conceitos mal definidos,
transformando estes conceitos em categorias explicativas deficitárias:
é o caso da globalização. Um exemplo claro pode ser
visto na afirmação pós-moderna de Arjun Appadurai:
"A imaginação se tornou um campo organizado de relações
sociais".(?!?!)... É impossível explicar qualquer coisa pensando
nestes termos...
Após esta breve barriga, voltemos ao tema. Retomando
o ponto de vista de que a globalização explica o aparecimento
de novos processos sociais, podemos nos perguntar: quão novos são
os processos sociais atuais? Já foi dito antes que, se há
uma característica que está se generalizando pelo mundo,
é a exclusão; mas, novamente: quão nova ela é?
Encontraremos a resposta no texto de Peter Rutland: o autor esvazia a discussão
(meio sem querer) ao mostrar que a globalização já
vem do séc. XIX, de cunho evolucionista assim, estamos no ponto
em que a Revolução Industrial chega ao seu ápice.
Esta idéia vem diretamente dos escritos marxianos, em particular
do Manifesto do Partido Comunista. O que vemos então é a
volta de categorias explicativas totalizantes e evolucionistas, como instrumento
teórico necessário à compreensão da situação
atual. Isto nos leva a um paradoxo: se estamos diante de um processo social
evolutivo, determinado desde o momento de seu início, não
há nada de inerentemente novo a ser explicado, não há
nenhuma ruptura com a ordem anterior que justifique uma diferenciação
qualitativa das relações pré e pós "Queda do
Muro".
Cabe aqui a seguinte afirmação: há
uma expansão das relações de Capital, motivada em
grande parte pelo progresso tecnológico, que permitiu a integração
mundial do sistema financeiro, empurrando a especulação econômica
e a circulação de capitais a um patamar jamais visto. Conseqüentemente,
chega-se a um primado da informação - que passa e ser uma
"matéria-prima" da produção -, às estratégias
do capitalismo, à constante mudança tecnológica. Tudo
isto reflete uma mudança cultural, e pode-se associar Cultura e
Conhecimento como itens fundamentais para a explicação de
fenômenos econômicos. Na verdade, segundo Michael Blim a integração
entre economia e cultura é essencial e gera uma situação
de pluralismo, contrariamente à visão homogeneizante da globalização.
Mais uma vez, parece que temos em mãos uma categoria
explicativa frágil; há algumas dificuldades em se pensar
em termos de tal pluralismo cultural: sociedades estão em contato
umas com as outras, não são isoladas, não são
internamente homogêneas; são dinâmicas, divergentes,
ou seja, não comparáveis e não facilmente definíveis.
Fica difícil, portanto, analisar uma realidade inesgotável
e caótica através de simples recortes arbitrários;
mas ainda que seja difícil explicar certos processos sociais, tudo
indica que os grupos humanos vão produzindo novas culturas, paralelamente
ao maior fluxo global de capitais e mercadorias. Empiricamente, a diversidade
é um fator de criação cultural; quanto maior a diversidade,
maior a gama de processos socioculturais empiricamente verificada. Resumindo,
pode parecer contraditório mas a relação entre economia
e cultura (que podemos chamar globalização) gera, ao invés
de homogeneidade, a pluralidade, combustível para as relações
sociais.
Podemos passar agora a um último tema: as relações
entre sistemas de poder e regimes econômicos. Nas primeiras décadas
deste século, verificava-se o domínio de Inglaterra e França
(e Japão, no Oriente); economicamente, passa a haver o domínio
dos EUA. É possível perceber aí um descompasso entre
poder formal e econômico. Outros exemplos: durante a Guerra Fria,
a URSS não tinha expressão política no mundo, apesar
de seu poderio econômico; atualmente, o poder econômico do
Japão não leva a um padrão cultural japonês
no mundo. Será possível relacionar a cultura a esse quadro?
Ocorrem mudanças econômicas e culturais:
faltam mudanças políticas e de organização
social que as acompanhem. A análise marxiana relativa à superestrutura
nos ajuda a chegar a uma conclusão: segundo Marx, na produção
social da própria vida, os homens contraem relações
determinadas, necessárias e independentes de sua vontade, relações
de produção estas que correspondem a uma etapa determinada
de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade
destas relações forma e estrutura econômica da sociedade,
a base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica
e política, e à qual correspondem formas sociais determinadas
de consciência. Quando há uma transformação
na base econômica da sociedade, não decorre uma mudança
imediata ou idêntica na superestrutura; pode-se imaginá-la
como um corpo flexível, um prédio erguido sobre a base das
relações econômicas, mas um prédio possuidor
de uma inércia, de uma resistência ao movimento muito grande.
Assim, ao mudarem as bases econômico-sociais de uma sociedade, a
superestrutura permanece por algum tempo inalterada, refletindo a conformação
relativa a uma base econômica já ultrapassada.
Ora, o Direito, o Estado e a Ideologia são componentes
da superestrutura; assim, pode-se explicar os exemplos anteriormente dados
como fenômenos pertencentes à categoria da superestrutura.
O descompasso entre poder econômico e formal passa a ser logicamente
compreendido como um descompasso entre base econômico-social e superestrutura;
são as relações de poder internacional demorando a
se adaptar a novas relações de produção; é
a ideologia ficando para trás, enquanto entram em andamento novos
processos sociais.
Se a cultura é uma dimensão do processo
social (uma relação entre classes - ou grupos sociais - transformada
pelos agentes sociais e herdada através de informação
cultural) é nela que devemos nos concentrar se quisermos achar pista
da ocorrência de novos processos sociais. A globalização
é uma ideologia e, enquanto tal, pertence a uma categoria pouco
explicativa dos processos sociais, pois tem com eles uma relação
de descompasso. Já a cultura, refletindo transformações
nas relações de produção - inerente a uma base
econômica da sociedade - pode ser um instrumento extremamente útil
na análise da situação mundial atual.
Notes:
(1) SOROS, George - "The Capitalist Threat". The Atlantic Monthly, Feb 1997, p. 53
(2)"O colapso da ordem socialista na Europa Oriental e
os esforços subseqüentes para criar uma ‘democracia de mercado’
nos antigos países socialistas são vistos como mais uma evidência
da marcha da globalização".
RUTLAND, Peter - "Globalization and the Transition in
Eastern Europe". McAlester International, v. 2, Fall 1995, p. 3
(3) Eu usei as palavras ‘desinformado ou ingênuo’
porque seu artigo citado acima tem algumas idéias realmente estranhas,
como por exemplo: "A queda da União Soviética foi causada
principalmente pelo colapso da vontade da velha elite de governar, mais
do que como produto de uma ação consciente..." Não
me lembro de nenhuma elite que perdeu a vontade de governar...
ibid., p. 23
(4) "O termo globalização é perigoso
porque se refere, acima de tudo, a interconecções ao nível
da economia e às comunicações, mas não necessariamente
envolve a constituição de uma ideologia global de comunidade".
LOMNITZ, Claudio - "Decadence in Times of Globalization".
Cultural Anthropology, v. 9, n.2, may 1994. A citação acima
aparece na página 258, e o argumento presente no corpo do texto
segue as páginas 257 - 259.
(5) CHOMSKY, Noam, - Novas e Velhas Ordens Mundiais, São
Paulo, Ed. Scritta, 1996. Todo este livro trata do assunto em pauta, mas
o capítulo 1.5 Norte-Sul/Leste-Oeste é a fonte principal
do parágrafo acima. Livro muito interessante...
(6) LOMNITZ, Claudio - "Decadence in Times of Globalization". Cultural Anthropology, v. 9, n.2, may 1994, p. 259-263.
(7) "Isto acontece porque a maioria dos países
pobres estão, até o momento, condenados a manterem estados
nacionais. Nós estamos, portanto, condenados a desenvolver ou aceitar
alguma forma de nacionalismo".
ibid., p. 258.
(8) Por que devemos inventar novas categorias, ou reinventar
o significado das antigas para explicar algo que pode ser explicados utilizando-se
conceitos já conhecidos? Por exemplo: "A imagem, o imaginado, o
imaginário - estes todos são termos que nos remetem a algo
crítico e novo nos processos culturais globais: a imaginação
como prática social (...) A imaginação é agora
central para todas as formas de agência, é ela mesma um fato
social e é o componente chave da nova ordem global".
APPADURAI, Arjun - "Theory in Anthropology: Center and
Periphery". Comparative Studies in Society and History, 24(2), 1986, p.
5.
(9) "E, na verdade, muitas das principais características
da globalização estavam presentes cem anos atrás e
foram descritas apropriadamente nos trabalhos de Karl Marx e outros observadores
da nova era industrial".
RUTLAND, Peter - "Globalization and the Transition in
Eastern Europe". McAlester International, v. 2, Fall 1995, p. 4.
(10) "(...) Foi desenvolvida uma teoria mais pluralista
na economia, argumentando que o impacto de culturas locais nas atividades
econômicas produziu um complicado mosaico de capitalismos locais".
BLIM, Michael - "Cultures and the Problems of Capitalisms".
Critique of Anthropology, v. 16, n. 1, 1996. p. 81.
(11) MARX, Karl - Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie, Berlin, 1953. A idéia da infraestrutura, da base econômica ser o único determinante da superestrutura é característica de marxistas clássicos. Podemos também pensar em termos dos novos marxistas, revisionistas. Talvez uma próxima publicação mostre este ponto de vista. *por favor, envie críticas e novas idéias).
envie sugestões, críticas, reclamações
ou qualquer coisa que passar pela sua cabeça
© 1997
Márcio Augusto Vicente de Carvalho
Universidade de Campinas - Brasil