Notas Éticas
J. Bittencourt Filho
Professor no Curso de Direito da UNIVALE
Mestre e Doutorando
Sumário: Sumário: 1. Introdução. 2. Da globalização e da soberania.
1. Introdução
Numa perspectiva panorâmica a respeito da situação
atual dos Estados, antes de mais nada, cabe sublinhar que o capitalismo,
no plano mundial apresenta-se com uma nova face. Instala-se um novo modelo
sob o signo da cibernética, cujo traço mais notório
é a escalada do desemprego. Com efeito, a situação
vai-se tornando tão grave que os mais atentos já perceberam
que não se trata de uma fase passageira de queda na oferta de empregos,
mas sim, uma crise estrutural que atinge as próprias relações
de trabalho, relações estas que caracterizavam o capitalismo
industrial.
No caso brasileiro, devem ser acrescentados os dramáticos efeitos
do caótico processo de urbanização.
Vale sublinhar que o fluxo de grandes contingentes populacionais para as
cidades, dá-se mais em virtude da falta de alternativas no campo
do que propriamente aos virtuais atrativos da vida urbana.
Dentre esses efeitos dramáticos destaca-se o desemprego. A carência
de políticas governamentais eficazes tem feito com que o desemprego
atinja até mesmo a mão-de-obra especializada. Além
disso, com o predomínio conferido na pauta política às
medidas de combate à inflação, parece não haver
no plano governamental, horizontes para uma discussão conseqüente
do problema. Tudo isso implica na perda de qualidade de vida para a maioria
da população.
No contexto do capitalismo mundial e latino-americano, parece insolúvel
o dilema entre inflação e desemprego. Na realidade, para
os detentores do capital, em particular para a comunidade financeira, é
mais conveniente a estabilização dos preços do que
uma ampla oferta de empregos. Segundo a lógica dessa comunidade,
o desemprego propicia algumas vantagens, dentre as quais a "docilidade"
dos trabalhadores temerosos de perderem suas colocações.
Segundo outras perspectivas, o mencionado dilema deveria ser enfrentado
levando-se em conta que não é possível manter uma
oferta razoável de empregos sem que haja algum movimento ascendente
dos preços. E este movimento ascendente, desde que sob controle,
não representa, necessariamente, a inviabilização
do crescimento econômico.
A chamada classe média tem tentado compensar a escassez na oferta
de empregos por meio das alternativas microempresariais. Considerando-se
a política de juros altos e que o volume de dinheiro circulante
tem sido reduzido, tais alternativas tendem ao fracasso. Estimava-se, até
pouco tempo atrás, que a globalização traria consigo
o fator tecnológico para a produção numa tal escala
que o desemprego iria crescer. No entanto, no Brasil, o desaquecimento
da economia tem sido ainda mais desastroso.
Deve-se reiterar que os setores mais influentes da economia (e da política)
sentem-se confortáveis num contexto de economia desaquecida e com
preços estáveis, do que num clima inflacionário; mesmo
que isso represente um aumento do desemprego. Obviamente, devido aos riscos
políticos, tal preferência não pode ser admitida e
nem sequer mencionada publicamente. Entretanto, tem sido a lógica
subjacente às chamadas políticas de estabilização.
Vale ressaltar que o tipo de capitalismo concorrencial vigente no Brasil
deverá, no plano simbólico, aprofundar a perda da auto-estima
das pessoas que se consideram as únicas responsáveis pelos
seus fracassos econômicos, bem ao modo do que deseja a receita neoliberal,
geradora de exclusão. A par disso, a concentração
de riqueza encontra-se em franca expansão. Persiste a desigualdade
da qual o desemprego é fator constitutivo. Um sintoma dessa desigualdade
crescente é a diferenciação regional, que transforma
o país no palco de uma luta entre diferentes "mundos", que se entrechocam
e se devoram mutuamente.
Voltando ao leito principal, constata-se que a questão do desemprego
ganha contornos originais porquanto atinge gravemente as relações
trabalhistas, e os direitos adquiridos pelos trabalhadores ativos e inativos.
As relações de trabalho vão tornando-se precárias;
e esta é uma das faces mais perversas dessa problemática.
A escalada atual do desemprego, estrutural ou não, impõe
que seja revisitada com profundidade a própria temática do
trabalho.
2. Da globalização e da soberania
A partir da Segunda metade da década de 1980 assistimos ao surgimento,
em nível planetário, de transformações estruturais
inimagináveis até então. O capitalismo internacional
sofreu uma profunda remodelação e adquiriu uma nova fachada
denominada neoliberalismo. A par disso, o chamado socialismo real experimentava
a sua derrocada, simbolizada na demolição do muro de Berlim.
Era o fim da Guerra Fria.
Na América Latina, os reflexos das transformações
estruturais se precipitaram rapidamente. Servem como exemplo, entre tantos
outros:
a derrota eleitoral dos sandinistas; a crise cubana; bem como os resultados
das eleições presidenciais em vários países,
onde candidatos alinhados ao neoliberalismo alcançaram vitórias
significativas.
É oportuno ressaltar que todas essas mudanças desaguaram,
e ainda desaguam, na configuração de uma nova ordem internacional.
A partir da situação privilegiada do capitalismo de livre
mercado, aliviado de confrontações ideológicas, essa
nova ordem impõe-se, dando por assentado que não existe qualquer
alternativa.
Recentemente, numa revista canadense, publicou-se uma propaganda de um
banco de investimentos.
Nela, vê-se o desenho de um mapa-múndi singular. Os continentes,
regiões e países aparecem com uma extensão territorial
à importância deles no mercado de capitais. Assim, a distribuição
do espaço torna-se inusitada. Os continentes africano e latino-americano,
por exemplo, não passam de pequenas manchas, Por seu turno, o Japão,
a Europa e os EUA estão superdimensionados. Porém o que mais
chama a atenção é uma frase que principia o texto
propagandístico: "Este é o mundo real".
Talvez esta seja a melhor síntese da nova ordem que se está
instaurando após o fim da Guerra Fria. O "mundo real" inclui apenas
aqueles que são relevantes para a economia de mercado. Essa propaganda
traduz o mais tenebroso dos fenômenos hodiernos: a exclusão
sistêmica. Regiões, países, e povos de um momento para
o outro tornaram-se descartáveis. A substituição de
matérias-primas e de mão-de-obra, em decorrência da
alta tecnologia, vai relegando a um plano ainda mais subalterno nações
e povos situados na periferia do capitalismo.
A exclusão sistêmica extrapola o processo de marginalização,
bem como altera as formas clássicas de exploração.
Hoje, mais do que os temidos espectros da marginalidade e da espoliação,
vemo-nos diante de um processo excludente de grandes proporções
e de conseqüências imprevisíveis. Além de aspectos
econômicos, vale ressaltar que essa nova ordem internacional introduz
formas inéditas e sutis de dominação, fazendo uso
de sofisticadíssimos aparatos da mídia eletrônica e
da informática.
Assistimos à concretização de uma ordem transnacional,
nas esferas econômica, cultural e do conhecimento. Bem como à
reestruturação completa da geopolítica, ao lado de
nova pauta de temas transfronteiriços, tais como: meio ambiente,
migrações, afirmação de identidades étnicas
e religiosas, aproveitamento de recursos naturais, e congêneres.
A bem da verdade, pode-se afirmar que a antiga ordem internacional vai
cedendo espaço a uma poliarquia multinacional com recorte político-militar.
Nesse contexto, as contradições são agudas e surpreendentes.
Na mesma proporção em que se agigantam os megaprojetos, detecta-se
a emergência inquietante das guerras étnicas. No campo religioso,
o diálogo ecumênico vai sendo substituído pelo neoconfessionalismo
e pelo fundamentalismo proselitista. Trata-se de vetores antagônicos:
a força dos "mega" versus as lutas pelo particular/regional/nacional/local.
Por outro lado, faz-se mister destacar a conjugação entre
microeletrônica, automação, robótica e telecomunicações,
ou seja, destacar os pacotes tecnológicos, responsáveis absolutos
pelas transformações radicais no processo produtivo e na
divisão internacional do trabalho. Pode-se inferir disso que a sobrevivência
econômica das nações dependerá, doravante, das
habillidades de criação, inovação, renovação
e adaptação respectivas. Ademais, esse fator tecnológico
desloca o eixo de poder para os domínios da informação
e do conhecimento, ampliando de maneira colossal o conceito de mercado.
É oportuno advertir que nessa nova ordem as mudanças de natureza
econômica subordinam-se a uma estratégia política ambígua.
Isto signfica que nos eixos Sul-Sul e Sul-Leste postula-se o desengajamento
do Estado segundo a receita neoliberal. Entretanto, no eixo Norte-Norte
não se cogita um esvaziamento do Estado, mas sim uma reformulação
pragmática, cuidadosamente estabelecida caso a caso. Com efeito,
é preciso admitir que os destinos do mundo dependem de um reduzido
círculo de organizações e pessoas capazes de abarcar
o conjunto das relações entre tecnologia, produção,
reprodução e distribuição de bens e riquezas.
Ainda mais grave é a presença de uma ideologia de cunho totalitário
que pretende demonstrar a inexistência de qualquer alternativa. Tal
ideologia comporta um núcleo perverso, que considera as massas empobrecidas
como um obstáculo ao crescimento econômico, i. é, à
expansão do mercado total. Segundo essa lógica econômica,
os contingentes empobrecidos demandam direitos fundamentais sem uma contrapartida
compatível em termos produtivos. Portanto, seria melhor que simplesmente
não existissem.
Essa perversidade é tamanha que mesmo importantes líderes
políticos mundiais que perfilharam o neoliberalismo estão
conscientes de que ele produzirá situações catastróficas
e em grande escala.
Porém admitem, ao mesmo tempo, que nesse particular o sistema encontra-se
fora de controle. Em outras palavras, no presente estágio, assim
como nos estágios subseqüentes, os mecanismos sistêmicos
mais embaraçosos não podem ser controlados por nenhuma potência
conhecida.
Diante dessa situação, deve-se indagar pelas garantias da
dignidade humana, supostamente um valor indiscutível. Vale sublinhar
que, a esta altura, a exclusão já se encontra generalizada
em nível mundial; basta mencionar os bolsões de pobreza e
desemprego nos países ricos. Todavia, alguns insistem na identificação
sócio-econômica condensada no vocábulo "marginalização".
Geralmente este vocábulo designa os segmentos que se encontram no
último elo da cadeia de espoliação, assim como as
minorias rejeitadas devido a comportamentos desviantes. No entanto, o quadro
atual nos apresenta uma realidade ainda mais sombria.
O capitalismo tardio trouxe consigo um complicador adicional para as nações
empobrecidas do Hemisfério Sul, reduzidas desde sempre à
condição de fornecedoras de matérias-primas e de mão-de-obra
barata. Antes, aliado dependente do grande capital, o chamado Terceiro
Mundo vai sendo confinado na sua condição periférica.
Como resultado da evolução tecnológica, que o mesmo
Terceiro Mundo financiou por meio de sua exploração sistemática
e de seu endividamento externo, ele já não representa mais
uma peça vital na engenharia sistêmica.
Ser fonte de matérias-primas e de mão-de-obra barata perdeu
o poder de barganha, devido à substituição de materiais
e à tecnologia aplicada à produção. Intensificou-se
ainda o controle das fontes energéticas estratégicas por
parte dos impérios, como bem demonstrou a Guerra do Golfo.
Na América Latina, na esteira do neoliberalismo, os governos nascidos
do processo de redemocratização
que se seguiu ao período autoritário militar têm-se
empenhado na implantação de uma racionalidade econômica
em grande parte caudatária da universalização da racionalidade
técnico-instrumental.
À medida que a racionalidade instrumental torna-se mundial, o processo
de modernização vai adquirindo uma natureza imperativa. Nenhuma
economia nacional poderia renunciar a essa modernização sob
pena de condenar-se ao atraso. Em outras palavras, qualquer proposta de
desenvolvimento econômico que se queira desatrelada dos circuitos
internacionais estaria fadada ao fracasso. Acrescente-se que a globalização
da economia acarreta, como conseqüência inevitável, um
ajuste estrutural.
A questão é: quem deve pagar e quanto custa o ajuste estrutural?
Qualquer que seja a resposta, devemos dar por assentado que a modernização
compulsória acentua a fragmentação social. Desse modo,
a sociedade latino-americana vai-se tornando uma sociedade dos "dois terços",
na qual um terço da população vai sendo condenada
ao estado de miséria absoluta e tornando-se supérflua para
o sistema.
O Estado de Direito foi concebido para garantir os direitos econômicos,
políticos e sociais. Assim sendo, deveria ser o provedor da seguridade
social moderador dos interesses que cortam
horizontalmente as sociedades no contexto capitalista. O Estado entraria
em cena quando existisse "anomia", ou seja, quando os laços da solidariedade
social fossem rompidos de algum modo. O Estado seria a mais ampla e credenciada
instituição social de prestação de serviços
públicos. Nesse quadro adverso de exclusão sistêmica,
qual será o papel do Estado? O Estado não pode mais recorrer
à economia interna para buscar recursos para as políticas
sociais, em virtude da internacionalização da economia.
Em todo caso, é preciso se estar advertido para o fato de que a
plenitude do poder estatal encontra-se em acelerada obsolescência.
Isto significa também o desaparecimento da assim chamada soberania
nacional, tal qual a conhecemos. Considerando-se que a instância
do Estado-Nação, que condensava em si mesma o poder político-jurídico,
encontra-se em vias de extinção, faz-se mister uma síntese
das novas formas de poder em gestação.