Início de Tudo
O incidente que provocou a Primeira Guerra Mundial foi o assassinato
do herdeiro do trono dos Habsburgos , o Arquiduque Franz Ferdinand e sua
mulher , a Duquesa Sophie. As causas ocultas , no entanto , foram , naturalmente,
mais complexas e já existiam desde muito. Conforme escreveu Sir
Basil Liddell Hart , " Foram gastos cinqüenta anos no processo de
tornar a Europa explosiva ." Assim foi que, no dia 28 de junho de 1914,
quando se deu o duplo assassinato, teve início uma crise que parecia
apontar inexoravelmente para a guerra.
Foi uma provocação desnecessária o fato da
realeza Habsburgo estar nesse dia em Sarajevo , capital da província
austríaca Bósnia - Herzegovina , que fazia fronteira com
a Sérvia independente . Era no dia 28 de junho que se comemorava
a grande festa nacional de S. Vitos e também a batalha medieval
de Kosovo . Esse mesmo dia era também o 14º aniversário
de casamento do Arquiduque com sua esposa morganática. A visita
de Franz Ferdinand a Bósnia, em sua capacidade de inspetor geral
das forças armadas da Áustria-Hungria, dava-lhe a oportunidade
para aparecer em público numa cerimônia com sua amada Sophie.
Em Viena, por outro lado, a Duquesa levava uma vida social restrita devido
à reprovação imperial do casamento já que Sophie
era considerada de muito baixa estirpe para o casamento com o herdeiro
do trono. Assim, de uma forma irônica , foi a data do aniversário
do casamento que a levou à morte junto com o marido.
Vladimir Dedijer , o principal historiador do incidente de Sarajevo,
disse que a Duquesa chegara na Bósnia com premonição
do que iria acontecer. Lembrava-se que um dos líderes da Assembléia
da Bósnia - Sabor - havia aconselhado o cancelamento da visita devido
aos sentimentos a favor dos eslavos do sul na província, provocados
pela Sérvia. A despeito desse aviso e até mesmo de outros,
a visita precisava ser feita. o cancelamento seria uma demonstração
de fraqueza de pane da Áustria. Mesmo assim, a proteção
da polícia para a festa imperial foi mínima e só por
isso foi bem sucedido o atentado muito mal organizado.
Domingo, dia 28 de junho, era uma manhã clara e ensolarada
em Sarajevo quando o trem real entrou na estação . Presente
, para receber o casal real, estava o General Oskar Potiorek, governador
milita da Bósnia. A confusão começou quase imediatamente.
O primeiro carro no desfile estava destinado aos detetives da segurança
, mas, de alguma forma, todos menos um, tinham ficado na estação
e somente estavam presentes três policiais das forças locais
. As precauções de segurança foram todas erradas desde
o começo. O Arquiduque, sua esposa e o General Potiorek estavam
num carro aberto vienense , tipo esporte. Quando desfilavam ao longo do
cais Appel, o Arquiduque, cuja atitude a respeito de atentados sempre fora
muito fatalista, mandou que o carro seguisse devagar pois desejava ver
bem toda a paisagem. Embora houvesse pouca gente, ele recebeu alguns aplausos
à passagem . Perto da delegacia de polícia, quando o General
Potiorek mostrava um novo quartel do exército um rapaz alto, Cabrinovic
repentinamente atirou uma granada de mão diretamente para o carro.
A granada bateu na capota atilada do carro e caiu na rua indo explodir
embaixo do carro seguinte na rua, ferindo vários oficiais e umas
vintes pessoas do povo. Quando o motorista do Arquiduque acelerou em direção
à prefeitura, Franz Ferdinand mandou parar para saber quem fora
ferido. Enquanto isso era feito, o carro imperial ali ficou como alvo fácil
para qualquer outro atentado . Verificou-se que a Duquesa tinha um leve
arranhão no pescoço e nada mais.
O Arquiduque chegou à prefeitura indignado. Tinham estragado
a festa que preparara para a esposa. Resolveu ali mesmo que iria logo visitar
um dos oficiais que ficara ferido e fora levado para um hospital militar.
Depois iriam visitar um museu local como estava programado. A Duquesa Sophie
, pelo programa , não deveria visitar o museu, mas agora já
insistia em não se separar do marido.
O desfile imperial prosseguiu pelo mesmo caminho já em alta
velocidade. Nesse ponto ocorreu outro engano curioso. Evidentemente, os
motoristas não haviam sido informados da visita ao hospital , que
não estava no programa, porque o primeiro carro virou para direta
na esquina de Appel com a rua Franz Josef, e o segundo carro acompanhou-o.
Potiorek gritou zangado com o motorista dizendo-lhe que estava errado.
O motorista parou logo. Nesse momento exato um rapaz baixo sacou do revólver.
Era Gavrilo Princip, natural da Bósnia. Um policial tentou arrancar-lhe
a arma mas foi empurrado por alguém que estava perto. Saindo do
meio do povo, a uma distância de uns quatro ou cinco passos , Princip
atirou duas vezes para o carro. A primeira bala atingiu o Arquiduque na
jugular e a segunda atingiu a Duquesa no abdômen. Ela caiu no chão
e ficou com a cabeça entre as pernas do marido. O Arquiduque gritava
"Soferl, Soferl, não morra. Viva para meus filhos " Depois ficou
inconsciente . O carro voava em direção ao Konak, a residência
oficial do Governador Potiorek , mas a estrada em más condições
só servia para piorar as condições dos feridos e o
casal real foi dado como morto logo depois da chegada. Quando os sinos
de Sarajevo começaram a tocar finados , ninguém poderia imaginar
que aquilo significaria quatro anos de sangueira e a morte de milhões
de pessoas.
Franz Ferdinand estava bem longe de ser querido ou popular em Viena,
mas sua morte criava problemas de significado bem profundo. As investigações
acabaram descobrindo que os assassinatos de Sarajevo eram obra da Mão
Negra, uma sociedade secreta da Sérvia chefiada por "Apis", uma
figura sinistra que também era chefe do serviço de espionagem
do exército da Sérvia. O Primeiro - ministro da Sérvia,
Pasic, e possivelmente outros membros do governo haviam tomado conhecimento
de boatos sobre a existência de uma conspiração contra
o Arquiduque, mas Pasic somente fizera uma tentativa bem precária
para avisar Viena desaconselhando a visita programada. A cumplicidade direta
e coletiva do governo da Sérvia nunca ficou provada, e depois de
duas guerras balcânicas nos anos recentes, os sérvios provavelmente
não queriam mais saber de brigas. No entanto, a responsabilidade
pelos crimes não ficou apurada com uma precisão que satisfizesse
os austríacos. O território sérvio servira de base
para os assassinos, e aquilo era o suficiente para a poderosa Áustria
tomar sérias medidas contra os sérvios.
Os motivos por trás do duplo crime provavelmente jamais serão
bem conhecidos, mas os extremados nacionalistas sérvios tinham medo
de Franz Ferdinand porque ele defendia as concessões a serem feitas
à minoria dos Eslavos do Sul da Áustria-Hungria. A Mão
Negra achava que essas concessões poderiam prejudicar a Sérvia
e resultar num futuro estado para os eslavos do sul . Assim , o Arquiduque
precisava ser eliminado. Além disso, pelo menos "Apis" talvez quisesse
com os assassinatos provocar uma guerra entre a Sérvia e a Áustria,
calculando que a Rússia, tradicional protetora de pequenas nações
eslavas, viria aliar-se à Sérvia para conseguir concessões
da Áustria . A imprensa e o povo da Sérvia nem mesmo pretenderam
esconder sua satisfação pela morte de dois membros da odiada
casa real da Áustria. Assim, com os ânimos exaltados ao máximo
dos dois lados, só se poderia esperar sérias represálias
de parte da Áustria.
Aliás, os crimes de Sarajevo não poderiam passar sem
represálias se a Áustria-Hungria quisesse continuar como
grande potência. Eram múltiplas as implicações
da crise. Se as represálias da Áustria resultassem no domínio
da Sérvia pelos Habsburgos, isso traria a Áustria para muito
perto dos Dardanelos , uma coisa que a Rússia jamais veda com bons
olhos. Durante gerações, os Estreitos tinham sido o principal
interesse da Rússia no Oriente Próximo, já que eram
uma artéria indispensável para sua comunicação
com o mundo exterior. Se, por outro lado, a independência da Sérvia
pudesse ser mantida, aquilo representaria um passo decisivo contra a crescente
influência da Alemanha e da Áustria nos Bálcãs
e Turquia.
O Advento Nacionalista
Além das manobras pelo poder das grandes alianças,
o incidente de Sarajevo aconteceu num período de virulento nacionalismo
. A Inglaterra e a França eram potências já, de um
modo geral , saciadas e seguras em vista de suas expansões coloniais
. Seus impérios tinham-lhes proporcionado mercados, matérias-primas
e prestígio. Uma parte das crescentes energias da Rússia
tinham em vista uma expansão para o Oriente. A Alemanha era diferente.
Só em 1871 se tornara uma nação, e por isso tinha
chegado tarde para ganhar um pedaço das colônias ricas. Para
ela, uma nação jovem que apenas desejava experimentar a sua
força e que procurava a fortuna, aquela situação era
uma amarga injustiça. Os alemães achavam que a Inglaterra
e a França não queriam partilhar com ela a influência
colonial a que tinha um direito inconteste. Aquela era uma situação
que o Reich não estava disposto a tolerar indefinidamente. A Áustria-Hungria
também não andava satisfeita com as crescentes pressões
entre as minorias de seus estados poliglotas e também com a crescente
força da Rússia que poderia prejudicar sua política
nos Bálcãs. Em 1914, muita gente em Viena chegara à
conclusão que somente uma providência decisiva contra a Sérvia,
a protegida da Rússia, seria o suficiente para desencorajar o descontentamento
entre os Eslavos do Sul e fornecer uma causa unificadora que poderia prolongar
a vida do periclitante império do Habsburgos. Para essa gente, Sarajevo
era a oportunidade de ouro. A situação tornava-se ainda mais
perigosa porque a Alemanha e a Rússia também tinham facções
influentes que consideravam a guerra como uma válvula de segurança
para as emoções, ambições e frustrações
nacionais.
"Um Pesadelo de Coalizões"
Precisamos olhar mais de perto a posição da Alemanha.
O principal problema na Europa, para toda uma geração, havia
sido um paradoxo mortal, descrito por Cyril Falls como "a arrogância
que disfarçava as ansiedades da Alemanha". Muita gente teria julgado
o futuro da Alemanha rico de promessas, mas, como disse A. J. P. Taylor,
o poderio econômico em tempo de paz "teria trazido para a Alemanha
o domínio da Europa dentro de poucos anos". Ela, contudo só
via que estava "cercada" pela Aliança Franco-Russa. Ironicamente,
eram suas próprias reações face aos vizinhos que alimentavam
aquele medo que os levava a se aliarem contra ela. Para compreender como
isso veio a acontecer, nós precisamos examinar a história
das quatro décadas anteriores.
A Ascensão da Alemanha
Em 1871 a Prússia derrotou a França e uniu os estados
alemães em torno dela para formar um império. Bismarck, o
chanceler alemão, sentia que seria preciso conter a França
inquieta, e com esse objetivo em mente ele, em 1873, associou a Alemanha
à Áustria e Rússia formando a Liga dos Três
Imperadores. Em 1882 a Itália tinha aderido à aliança
formada pela Áustria-Hungria e Alemanha em 1879, e logo foi seguida
pela Servia em 1881 e pela Rumânia em 1883. Depois, em 1887, a Rússia,
já então separada da Áustria, negociou um tratado
com a Alemanha. A França assistia impotente o seu isolamento na
Europa devido a tais manobras.
No entanto, em 1890, o arrogante e instável Cáiser
Guilherme II teve ciúmes o prestígio de Bismarck e demitiu-o.
Imediatamente todos os receios de Bismarck se concretizaram. A Rússia,
rejeitada pelo Cáiser em favor da Áustria, aliou-se com a
França e com isso desmoronou-se a política de Bismarck para
conter a França.
Já se disse de Bismarck que o seu objetivo a respeito da
Inglaterra era mantê-la "num isolamento amistoso com respeito à
Alemanha e num isolamento inamistoso com respeito à França",
mas depois dele deixar o cargo, as relações anglo-germânicas
se deterioraram em pouco tempo. Essa crescente tensão resultou na
"entente cordiale" de 1904 quando Inglaterra e França chegaram a
um acordo a respeito de suas mais importantes diferenças. Não
se estabeleceu uma aliança formal, mas, especialmente depois de
1907, com aquele "arranjo" entre a Inglaterra e a Rússia, formou-se
uma aliança de fato embora não formal entre a França,
Rússia e Inglaterra que ficou conhecida como a Tríplice Entente.
Em 1905, o Japão, já aliado da Inglaterra desde 1902,
derrotou a Rússia numa guerra começada em 1904 por causa
de rivalidades a respeito de influência na Coréia. Com isso
ficou temporariamente fortalecida a posição da Alemanha no
equilíbrio do poder. Nesse mesmo ano, entretanto, as ameaças
da Alemanha à França com respeito ao futuro do Marrocos,
levaram a Inglaterra e França a um estreitamento de relações.
O próximo aumento da tensão ocorreu em 1908 quando a Áustria
anexou a Bósnia-Herzegovina, e com isso arriscou-se a uma guerra
com a Rússia cujos melindres se sentiam feridos a respeito dos Bálcãs.
A Alemanha, no entanto, apoiou a Áustria e isso deteve qualquer
possibilidade de agressão de pane da Rússia. Nesse ponto,
com a alienação da França em 1905 e da Rússia
em 1908, e com a Inglaterra ainda em desavença com Berlim, com a
atitude da Itália ainda indecisa, a Áustria ficava sendo
a única nação amiga que a Alemanha tinha na Europa.
As relações com Viena passaram a ser de importância
capital para a Alemanha não ficar totalmente isolada.
Em 1911 a Alemanha aumentou a pressão sobre a França
quando enviou um vaso de guerra para o porto marroquino de Agadir, mas
foi obrigada e recuar em vista do apoio da Inglaterra à França.
Entre 1908 e 1911 o poderio naval da Alemanha vinha crescendo muito rápido.
E a Inglaterra, tradicional bastião do poderio naval, via com suspeitas
aquele crescimento, apesar de um certo grau de amistosidade ostentativa.
A Corrida Armamentista
O nível de armamentos aumentava agora em toda a Europa. Perseguidos
pelo temor de uma guerra a qualquer momento, os políticos permitiam
que seus generais formulassem engenhosos planos de guerra fatalmente rígidos
e falassem em mobilização. A flexibilidade e as manobras
passaram para um segundo lugar, e em 1914 a Europa já era um barril
de pólvora que só esperava uma centelha.
A respeito da Áustria e da crise de 1914, Laurence Lafore
escreveu: Em uma situação em que era preciso haver calma
fria e competência, o alarme e a indecisão incapaz surgiram
em seu lugar e resultaram nas providências fatais que levaram à
catástrofe". Aliás, as decisões arrogantes e os enganos
não eram prerrogativas só da Áustria.
A reação inicial de Conrad von Hötzendorff, o
Chefe do Estado-Maior da Áustria-Hungria, aos assassinatos de Sarajevo,
foi agir rapidamente contra a Sérvia. Disse que "chegara a hora
para a monarquia", embora soubesse que não era possível uma
ação imediata já que a necessária mobilização
das forças levaria, pelo menos, dezesseis dias. Conrad encontrou
oposição da parte do Conde Tisza, o Primeiro-ministro da
Hungria, que via as coisas pelo lado prático e queria primeiro saber
se poderiam contar com o apoio da Alemanha Berchthold, Ministro do Exterior
da Áustria-Hungria, precisava com urgência de alguma medida
ousada para salvar o seu prestígio que andava muito baixo, e então
resolveu pedir conselhos a Berlim.
O Cheque em Branco
Berlim recebeu a crise de Sarajevo com opiniões conflitantes
. Muitos dos altos funcionários do Ministério do Exterior,
percebendo desastres potenciais, eram mais moderados do que os militares
. No entanto , no dia 5 de julho , o Cáiser , apoiado pelo Chanceler
Bethmann - Hollweg , entregou a Viena um "cheque em branco" para uma ação
contra a Sérvia. Szögyény, Embaixador da Áustria-Hungria
em Berlim, informou: "Não se deve retardar uma medida contra a Sérvia
... Mesmo que isso signifique uma guerra da Áustria com a Rússia,
podemos estar certos que a Alemanha estará do nosso lado..." A Alemanha
não gostaria de ver a Áustria "perder aquela oportunidade"
para tomar sérias medidas.
Aqueles que assim falavam em Berlim, aparentemente achavam que uma
falta de ação de parte da Áustria , uma vacilação
mesmo ou demora, poderia comprometer o prestígio da Dupla Monarquia
e levar a repercussões bastante sérias que poderiam causar
até mesmo o dilaceramento do império . O Cáiser em
pessoa estava indignado com o derramamento de sangue real, principalmente
o do Arquiduque que era seu amigo pessoal . Talvez imaginasse ele que o
Czar Nicolau , igualmente indignado, manteria a Rússia de parte
em toda aquela crise. Em princípios de julho o Cáiser chegara
a dizer que "era preciso liquidar os sérvios o mais depressa possível".
O historiador alemão Fritz Fischer chegou a dizer que as ações
do governo alemão em princípios de julho talvez mostrassem
que estavam querendo usar Sarajevo como desculpa para lançar uma
guerra preventiva contra a Rússia, mas essa interpretação
é altamente controversa já que podemos argumentar também
que a Alemanha , sentindo - se rodeada de hostilidades juntamente com a
Áustria, via Sarajevo como uma boa oportunidade para demonstrar
o apoio que dava ao seu aliado. Embora a Áustria fosse um parceiro
de força duvidosa, a Alemanha queria conservá-la afastada
do sistema de aliança entre a França e a Rússia.
Muitos historiadores acham que os alemães , ingenuamente
ou não, imaginavam que o conflito em vista ficada limitado à
Áustria e Sérvia. Berlim acreditava que a Rússia pouco
poderia ajudar na realidade, embora o seu poderio estivesse sempre crescendo.
Todo mundo achava que as ambições russas, nos Bálcãs
e outros lugares, tornavam inevitável, cedo ou tarde, uma guerra
com a Alemanha . A questão toda era saber se convinha à Alemanha
esperar até que o colosso russo se voltasse contra ela.
A 14 de julho já Tisza havia substancialmente concordado
com os argumentos de Conrad para as medidas que deviam ser tomadas. As
discussões em Viena a 7 de julho mostravam que havia bastante temor
de pane da Áustria. Achavam que se ela não se aproveitasse
da situação para um ajuste de contas com a Sérvia,
o apoio da Alemanha no futuro seria problemático. Havia até
mesmo quem temesse um ajuste entre a Alemanha e a Rússia às
custas da Áustria. De Berlim vinham insistências de Szögyény
dizendo que a Rússia se preparava para uma guerra possível
e Jagow , Secretário de Exterior da Alemanha, também insistia
que em poucos anos a Rússia "nos dominará se nós não
nos anteciparmos agora".
Se a Áustria se deixasse enrodilhar em negociações
diplomáticas sobre aqueles assassinatos, seus inimigos teriam tempo
para tomarem providências. Assim, ficou resolvido que se enviaria
à Sérvia um memorando extremamente duro. Caso a Sérvia
se mostrasse irredutível, como todos , aliás , esperavam,
então já haveria a desculpa para a guerra. A despeito da
impaciência em Berlim quanto às tranqüilas providências
da Áustria contra a Sérvia, ficou resolvido que seria bom
despistar as outras potências fazendo com que tudo parecesse normal
. Moltke , Chefe do Estado-Maior da Alemanha, permaneceu em Karlsbad, uma
estação de águas, até 25 de julho e o Cáiser
saiu para um cruzeiro em seu iate como era costume no verão.
A Áustria preferiu suspender seu memorando para a Sérvia
até o fim da visita à Rússia do Presidente e Primeiro-ministro
da França afim de evitar que a presença deles em São
Petersburgo pudesse ser usada para endurecer a posição da
Rússia no momento da crise. No dia 22 de julho talvez agindo por
influência dos franceses , os russos fizeram sentir à Áustria
que não deveriam apresentar à Servia exigências inaceitáveis.
No dia 23 de julho terminou a visita oficial dos dignitários
franceses. Imediatamente a Áustria enviou à Sérvia
um memorando muito duro. Era uma nota que continha dez exigências
e a mais importante era a que impunha à Sérvia a aceitação
de uma intervenção da Áustria para suprimir a gitações
locais contra a Áustria-Hungria e também dar-lhe poderes
para agir contra os culpados ou envolvidos no crime de Sarajevo. O Imperador
Francisco José teria dito ao ler seus termos que "... a Rússia
não aceitará isto ... será uma guerra geral". Ele
falava profeticamente, mas não foi ouvido. Sazonov, ministro do
Exterior da Rússia, disse a mesma coisa quando tomou conhecimento
do conteúdo da nota austríaca . Ela deveria ser respondida
em 48 horas embora os russos tentassem, sem sucesso, conseguir uma prorrogação
de mais dois dias. No entanto, a 25 de julho, antes da data fatal, Belgrado
aceitou a maioria das exigências da Áustria e ofereceu submeter
a uma arbitragem aquelas que ferissem a sua soberania . Dessa forma a Sérvia
, com muita argúcia, colocava a Áustria em posição
desvantajosa dando a impressão de Ser bastante razoável.
Lafore secamente comentou que com aquilo "eles ficavam com a manteiga na
boca sem derreter", mas ninguém esperava que a resposta satisfizesse
Viena, uma Vez que três horas antes de recebê-la já
haviam ordenado a mobilização.
A Mobilização
Ao receber a resposta da Sérvia , a Áustria-Hungria
imediatamente rompeu relações diplomáticas e preparou
o começo da guerra para 10 de agosto , quando estaria terminada
a mobilização . O Cáiser , no entanto , voltou de
seu cruzeiro e , no dia 28 de julho, tomou conhecimento de tudo que acontecera
em sua ausência . Quer tenha sido devido à sensatez ou pânico,
a sua reação foi que a aceitação de Belgrado
significava o desaparecimento de "razões para a guerra ". Ele achava
que , para salvaguardar sua honra, a Áustria deveria ocupar a capital
da Sérvia para então negociar . No entanto , aquela sua atitude
conciliadora não foi aceita pelos altos funcionários em Berlim.
Bethmann-Hollweg não enviou sua mensagem senão na noite de
28 de julho e, mesmo assim, omitiu a frase crucial que dizia já
não ser mais necessária a guerra. Já então
a Áustria declarara guerra à Servia.
Depois da resposta da Sérvia em 25 de julho, o Embaixador
Szögyény tinha telegrafado a Berchthold dizendo que Bethmann-Hollweg
e Jagow continuavam a aconselhar a Áustria para agir imediatamente
e apresentar ao mundo um fato consumado. Mais tarde, quando se tomou mais
provável a intervenção da Inglaterra na disputa, Bethmann
entrou em pânico e enviou uma série de telegramas a Viena
aconselhando calma, ao mesmo tempo que Moltke insistia para que seguissem
em frente . A autoridade dividida em Berlim fazia com que Viena agisse
sem pensar nas conseqüências.
A mobilização na Sérvia fortaleceu a mão
dos extremistas em todo o mundo. Algumas horas mais tarde , a 25 de julho,
a Áustria ordenava a mobilização parcial na frente
Sérvia para começar a 28 de julho . No dia 25 de julho começaram
os preparativos para a mobilização na Alemanha e na Rússia
. Com o começo da mobilização no dia marcado, 28 de
julho, a Áustria declarou guerra à Sérvia. A guerra
naquela ocasião servia aos interesses de Viena que não desejava
ser obrigada a negociações com a Sérvia.
Enquanto isso, havia sido cometido um duplo engano de cálculo.
Da mesma forma que a Áustria imaginava a Alemanha neutralizando
a ameaça da Rússia, os russos, por sua vez, também
imaginavam ser possível isolar Viena em vista de sua aliança
com a França e das pressões diplomática s da Inglaterra
. Aliás , embora a Sérvia fosse algumas vezes fonte de embaraços,
a Rússia não podia consentir na sua eliminação,
que se refletida na abdicação de sua posição
como grande potência. A Rússia havia aconselhado a Sérvia
a contemporizar com a Áustria e confiar na justiça das grandes
potências, mas o conselho não foi levado em conta. Os sérvios
conheciam bem a sua influência sobre as atitudes da Rússia
e, aliás, Sazonov havia dito ao Embaixador da Alemanha em São
Petersburgo que "se a Áustria engolir a Sérvia, nós
iremos à guerra contra ela".
A França estava preparada para cumprir seus compromissos
com a Rússia mas, de um modo geral, ela exerceu uma influência
moderadora durante toda a crise. Em um certo sentido, ela não poderia
fazer muito mais pois, embora a visita oficial à Rússia tivesse
sido apenas de 20 a 23 de julho, os chefes do governo francês, Poincarré
e Viviani, estiveram fora de Paris desde 15 até 28 de julho, e durante
esse tempo toda a maquinaria das tomadas de decisões estava paralisada.
O Compromisso da Inglaterra
Embora não houvesse uma aliança formal entre os dois
países , os ingleses estavam moralmente compromissados com a França
, especialmente por causa de negociações secretas havidas
nos últimos anos . Aliás , durante toda crise, o governo
inglês estava preocupado com o problema interno do " Home Rule "
na Irlanda . Levando em conta a atitude geral da época, o governo
, o Parlamento ou mesmo o povo jamais sancionariam uma que desse a Inglaterra
comprometida com a França e com a Rússia em caso de uma guerra
generalizada. Grey, o Ministro do Exterior , esperava que essa ausência
de compromisso pudesse enfraquecer as forças que, na Rússia
e na Alemanha, estavam querendo a guerra. O que tornou inevitável
a entrada da Inglaterra na guerra foi a violação não
provocada da neutralidade da Bélgica que fora garantida setenta
e cinco anos antes pela Prússia , Inglaterra , França, Áustria
e Rússia. O país inteiro reagiu contra aquele desprezo total
pelos tratados. Durante séculos, o interesse vital da Inglaterra
tinha sido evitar que os Países Baix os fossem dominados por uma
grande potência. A conquista da Bélgica e da França
pela Alemanha, certamente tornaria isso provável, senão até
mesmo certo.
Entre os dias 24 e 26 de julho, Grey apresentou várias propostas
de mediação para a contenda Áustria - Sérvia
. Mais uma vez, foi exagerado o efeito da contemporização
de Berlim e Paris sobre São Petersburgo e Viena. Para aumentar ainda
mais a confusão, a Inglaterra avisou que não ficaria à
margem do conflito. Ainda assim, até o dia 1º de agosto, Grey
ainda se recusava a um compromisso definitivo com a França porque
o governo inglês desconhecia os termos da aliança entre frança
e a Rússia.
Existem provas mostrando que o Estado-Maior da Alemanha esperava
a participação da Inglaterra n a guerra , mas não
estava muito preocupado com aquilo, influenciado em parte, pelas dificuldades
do exército inglês na guerra contra os boers , Mais importante
ainda, a Alemanha esperava ter a França fora da guerra e derrotada
antes que lhe chegasse a ajuda inglesa, o que também consideravam
duvidoso.
A Guerra com a Sérvia
A declaração de guerra da Áustria contra a
Sérvia foi seguida pelo bombardeamento de Belgrado no dia 29 de
julho . Isso afetou profundamente a Rússia, já no dia 28
o Czar havia ordenado a mobilização parcial na fronteira
com a Áustria, para tornar claro que a Rússia não
ficaria de lado em caso de um ataque à Sérvia. No dia anterior,
27 de julho, Messimy, o Ministro da Guerra da França, tentara persuadir
a Rússia a ordenar a mobilização geral e assumir a
ofensiva. O Czar, porém, contentara - se com a mobilização
parcial como meio de pressão. Entretanto, os próprios generais
russos tentavam convencer o Czar da necessidade de uma mobilização
geral. Isso levava muito tempo na Rússia e os generais queriam estar
prontos para quando a guerra chegasse. Nicolau II concordou mas logo depois,
no dia 29 de julho , voltou atrás em vista de um telegrama que recebera
de Guilherme II . Ele era um homem de temperamento muito vacilante e tornou
a mudar de idéia em 30 de julho quando acreditou que a mobilização
geral da Alemanha iria começar a qualquer momento. O governo francês
pedira à Rússia que mantivesse uma atitude cautelosa e não
provocadora perante a Alemanha , mas a mensagem parece que foi mal transmitida
ou deliberadamente mal interpretada por Paléologue, o Embaixador
da França na Rússia. Nesse ponto os russos se precipitaram
e ordenaram a mobilização antes dos alemães que ,
então, fizeram a mesma coisa . Seguiu - se a isso a mobilização
geral da Áustria em 31 de julho.
Aliás , em 31 de julho a Alemanha só declarou uma
emergência de estado de guerra ao mesmo tempo que exigia da Rússia
a "suspensão de todas as medidas de guerra contra a Áustria
e contra a Alemanha dentro de doze oras". Falkenhayn, o Ministro da Guerra
da Prússia, achava que sendo a mobilização da Alemanha
muito mais rápida que a da Rússia, a Alemanha poderia esperar
alguns dias , mas Moltke mostrou - se intransigente . Como não recebesse
nenhuma satisfação da Rússia, a Alemanha decretou
a mobilização geral e declarou guerra contra a Rússia
a 1º de agosto.
Já agora era cena a participação da França.
A Alemanha enviou um ultimato de dezoito horas para que a França
definisse sua posição numa guerra entre ela e a Rússia.
No dia 1º de agosto Viviani respondeu que " a França agiria
de acordo com seus interesses". Nesse meio tempo já o General Joffre
insistia pela mobilização da França e no dia 1º
de agosto o gabinete concordou. Como se verificou mais tarde, mesmo que
os franceses houvessem concordado com a neutralidade, os alemães
já haviam resolvido impor a ocupação dos fortes em
Verdun e Toul como fiança de uma boa conduta , uma humilhação
que jamais seria tolerada pelos franceses, e eles sabiam disso.
O Plano Schlieffen
O que teria levado a Alemanha a procurar uma disputa com a França?
A resposta estava na rigidez dos seus planos de ofensiva. Moltke contou
em suas memórias que quando o Cáiser quis saber se a Inglaterra
entraria na guerra caso a Alemanha atacasse a Rússia somente, ele
lhe teria respondido que a guerra só contra a Rússia era
coisa impossível. A Alemanha só tinha um plano de guerra
que não poderia ser modificado . Era o famoso Plano Schlieffen que
exigia um golpe repentino contra a França por meio da rápida
invasão da Bélgica e a isso se seguiria uma rápida
transferência , por estrada de ferro, das tropas vitoriosas para
a frente oriental, já que ele esperava uma longa campanha contra
a Rússia que precisaria de seis semanas para a mobilização
e esse seria o tempo necessário para uma vitória na frente
ocidental. No dia 2 de agosto, portanto, a Alemanha pedia licença
para atravessar a Bélgica com suas tropas e isso lhe foi peremptoriamente
negado. No dia 3 de agosto a Alemanha declarava guerra à França.
Tinha começado a guerra em duas frentes para os alemães.
Em 4 de agosto a ameaça à Bélgica trazia o
auxílio da Inglaterra e Grey enviava um ultimato exigindo que a
Alemanha respeitasse a neutralidade da Bélgica . Quando o seu prazo
expirou começou então a guerra entre Inglaterra e Alemanha
à meia-noite, hora de Berlim.
Por que foi Deflagrada a Guerra ?
A maneira como foi deflagrada a guerra é um assunto para
discussões sem fim e para conclusões sem limite.
Depois das guerras balcânicas, os meios militares da Áustria
ficaram com medo da Sérvia não só por seu crescimento
demográfico como também seu poderio militar. Na Alemanha,
os militares viam com certa apreensão a rápida recuperação
da Rússia depois de ser derrotada pelo Japão em 1905 . Havia
um sentimento crescente que a guerra, se tivesse de acontecer, seria mais
favorável para a Alemanha e Áustria naquele momento e não
mais tarde. A Rússia, por seu lado, preocupava - se cada vez mais
com a influência alemã sobre a Turquia que era conhecida como
"o doente da Europa ". Se ela fosse fortalecida nos Bálcãs
, isso iria de encontro aos interesses e ambições da Rússia.
Assim, os mútuos temores e rivalidades contribuíram para
criar uma situação em que se tornava possível uma
rápida escalação da guerra.
Os interesses divididos aceleraram o advento da guerra. Na Alemanha,
por exemplo, os desejos dos círculos militares , comerciais e governamentais
eram, de muitas formas, conflitantes. Conforme disse A . J . P Taylor ,
"era mais difícil... deixar-se levar pelos acontecimentos" do que
tomar medidas positivas. Para tomar tudo pior, naquela ocasião em
1914, as grandes potências não contavam com estadistas que
pudessem ver longe, bem além dos acontecimentos imediatos, para
retirarem seus países da beba do abismo ainda a tempo. O Imperador
Francisco José era quase senil e tanto o Cáiser como o Czar
eram homens instáveis e impetuosos. Os ingleses viviam preocupados
e os franceses não encontraram um líder durante quase toda
a crise. Sir Edward Grey , o Ministro do Exterior da Inglaterra , passava
no campo a maior parte do mês de julho ocupado com o seu " hobby
" de ornitologia e foi de má vontade que interrompeu seu passatempo
para voltar a Londres quando a crise se tornou muito séria.
Além disso , a natureza repentina da crise de julho exigia
muita improvisação. Grey e Sazonov, em particular, confundiram
os problemas fazendo repetidas sugestões antes que as outras nações
tivessem tempo para examinar suas propostas anteriores. Talvez o mais importante
de tudo foi um sentimento de fatalismo que se apoderou de todo o mundo
naquele verão de 1914. Era como se os homens pensassem que a paz
na Europa era uma condição boa demais para durar.
A Culpa foi da Alemanha ?
Embora sentisse que o tempo trabalhava contra ela e considerasse
uma guerra preventiva cada vez mais seriamente , a Alemanha não
tinha nenhum plano de guerra a longo prazo para 1 914. Um planejamento
específico dessa eventualidade só poderia ser feito com perseverança
e consistência , coisa que faltava a Moltke e Bethmann - Hollweg
como também ao próprio Guilherme II . Era mais fácil
para eles atender às reivindicações da Áustria.
Mesmo assim, o apoio da Alemanha a Viena era uma influência capital
para a guerra que se aproximava, já que, sem o apoio de Berlim os
austríacos jamais teriam agido como agiram. Nem todo aquele apoio
era consciente, no entanto, e a. Áustria sabia bem como jogar com
as decisões que existiam dentro da elite que governava a Alemanha
para conseguir os seus intentos.
A situação da Alemanha era amargamente irônica.
O cerco Franco-Russo que a levava à guerra era provavelmente muito
menos sólido do que ela imaginava. Havia muita gente influente nos
dois países que se opunham à aliança. O poderio da
Rússia poderia falhar devido a uma revolução, como
aliás aconteceu em 1917 . A situação interna da França
em pouco debilitaria seu poderio militar.
As rivalidades de comércio e de colônias tinham sido
causas importantes de tensões que acabaram arrebentando em 1914.
Naquele ano, no entanto, esses problemas tinham deixado de ser predominantes
porque a Inglaterra e Alemanha, por exemplo, estavam criando mercados em
áreas diferentes do mundo.
Apesar das alianças e armamentos , pouca gente acreditava
numa longa guerra e praticamente ninguém jamais imaginaria o que
iria acontecer nos próximos quatro anos . Isso mostrava bem uma
espantosa falta coletiva de responsabilidade, imaginação
ou previsão. Ao mesmo tempo , havia muita gente que considerava
a guerra como um meio para remendar a tessitura social bastante dilacerada
ou de conseguir meios para a liberação de nacionalidades
subjugadas. Eram poucos os que pensavam nas vastas transformações
sociais que uma guerra "total" traria em seu caudal.
As forças pacifistas e internacionalistas foram dominadas
pelo repentino advento do nacionalismo e patriotismo em todos os países
às vésperas da guerra. Fruto da educação popular,
o nacionalismo era uma força mais poderosa do que todo mundo imaginava,
e quando se deram conta já era tarde demais . Também importante
, principalmente em nível inconsciente, eram as idéias de
irracionalismo , violência e niilismo . Homens como Sorel e Nietzsche,
juntos com Darwin e Freud, viam suas idéias aplicadas ou distorcidas
para servirem à causa da guerra.
Não existe uma só explicação plausível
que mostre a causa para a deflagração da guerra. Os complexos
problemas e suspeitas combinados com a urgência da crise, finalmente
dominaram políticos e militares.