A industrialização e suas características

Denomina-se industrialização ao processo de criação de uma quantidade cada vez maior de indústrias, que acabam por constituir o setor mais importante da economia. Em outras palavras: a industrialização consiste numa modernização da economia do país, numa transformação da sociedade, de rural e agrícola, em urbana e industrial. Portanto, não se considera como industrialização uma simples criação de indústrias isoladas, subordinadas às atividades primárias, nuas sim um processo irreversível de criação de indústrias, no qual há urbanização e domínio da cidade sobre o campo.
Em termos mais precisos, podemos afirmar que a industrialização é um momento do desenvolvimento do capitalismo, da atividade fabril baseada na relação de trabalho assalariada. Seu resultado é o capitalismo pleno ou industrial, onde a indústria constitui o setor-chave da economia, e a relação de trabalho tipicamente capitalista - a relação entre a burguesia (capitalistas) e o proletariado (trabalhador assalariado) - torna-se dominante no conjunto da sociedade.
Assim, só se pode falar em industrialização no Brasil a partir do final do século XIX, período em que foi abolida a escravidão no país e se assiste a uma expansão da relação assalariada. Antes disso havia no máximo algumas indústrias isoladas, muito artesanato e algum crescimento manufatureiro, mas nunca uma industrialização. Isso porque a própria existência do trabalho escravo, que era o sustentáculo da economia, impedia o arranque industrial de várias formas.
Em primeiro lugar, a escravidão dificultava a modernização tecnológica do trabalho, a aquisição de máquinas, pois a compra de escravos já era um investimento alto e feito a vista, antes mesmo que eles começassem a trabalhar; além disso, a evolução tecnológica pressupõe uma especialização do trabalhador, e não convinha aos proprietários educar e especializar seus escravos. Depois, o trabalhador escravo não constitui um mercado consumidor (fato que ocorre com os assalariados, que podem adquirir livremente produtos com seu rendimento), já que não tem dinheiro e vive do que o dono lhe fornece, normalmente o indispensável para sobreviver e trabalhar. E, ademais, os gastos com vigilância - para impedir fugas, apreender os amotinados ou vigiar a execução correta do trabalho - são mais elevados na escravidão, o que é mais um elemento para barrar a inovação tecnológica.
A relação de trabalho assalariado apresenta efeitos contrários à escravidão no que se refere à modernização tecnológica, à expansão da maquinaria. O trabalhador assalariado não constitui um investimento elevado feito a vista, pois só recebe depois de começar a trabalhar e aos poucos (de forma mensal ou semanal). Além disso, ele não se sente tão revoltado como o escravo, podendo ser educado e se especializar; os gastos com vigilância são também menores. E o proletário pode ser contratado à vontade nas épocas de expansão da empresa, ou demitido nas épocas de crise, ao contrário do escravo que deveria ser sustentado mesmo nos período em que os negócios fossem mal. Ademais, seus salários e a liberdade de comprar o que quiserem (desde que os preços sejam compatíveis com seu orçamento) fazem dos proletários uma parcela de consumidores de bens industrializados. Eles constituem portanto, uma das condições indispensáveis ao processo de industrialização.
Outro fator importante para o surto da industrialização brasileira que se iniciou no final do século XIX, foi a imigração. Os imigrantes foram os primeiros trabalhadores assalariados no Brasil, os primeiros operários na indústria nascente, e aumentaram o mercado consumidor do país, pois já tinham o hábito de adquirir bens manufaturados nos seus países de origem.
Como a industrialização brasileira foi tardia ou retardatária, tendo-se iniciado no momento em que o capitalismo passava da fase competitiva para a monopolista, as máquinas utilizadas e a tecnologia não foram produzidas internamente mas importadas daqueles países que já as desenvolviam havia mais de um século, notadamente a Inglaterra.
Isso significa que não ocorreu aqui a passagem do artesanato para a manufatura e desta para a indústria, tal como nos países líderes Revolução Industrial, mas sim que a atividade fabril começou em sua forma moderna (para a época). Ou seja, começou não com as máquinas antiquadas do início da Revolução Industrial (tal como a máquina a vapor), mas com máquinas já movidas a eletricidade ou a combustão. E os estabelecimentos industriais já surgiram com grandes portes para a época - neles trabalhavam dezenas ou centenas de operários - e não na forma de pequenas oficinas. Em grande parte, os pequenos estabelecimentos artesanais ou manufatureiros que existiam antes desse processo acabaram mesmo sendo destruídos por ele - falidos e vencidos pela concorrência.
Para importar essa maquinaria era preciso uma fonte de divisas , um produto de exportação que gerasse rendas para serem aplicadas na atividade industrial. Esse produto existia desde inícios do século XIX: era o café. A lavoura cafeeira era, na época, o produto-rei de nossa economia, e se desenvolvia principalmente em São Paulo, de início no Vale do Paraíba e, depois - final do século XIX e início do XX -, na porção oeste desse Estado. Foi a partir da lavoura cafeeira que se originaram os capitais inicialmente aplicados na indústria.
Mas, para que os fazendeiros ou comerciantes de café resolvessem investir na indústria, deixando de aplicar seus capitais na expansão da lavoura cafeeira - o negócio mais lucrativo da época -, era preciso algumas condições favoráveis. Essas condições surgiram com as crises nas exportações do café e com o crescimento do mercado consumidor de bens industrializados, que inicialmente eram importados da Europa.
De fato, foi nos momentos de crise - tais como a Primeira Guerra Mundial (1914-18), a crise econômica de 1929 e a Segunda Guerra Mundial (1939-45) - que o processo de industrialização do Brasil teve seus períodos de maior impulso. Nesses momentos havia dificuldades para exportar o café (que deixava de ser um negócio tão atraente) e também para importar os bens industrializados, que já eram bastante consumidos. Tais fatos tornavam interessante - e atraente - investir capitais na indústria, principalmente na indústria leve, isto é, de bens de consumo duráveis (como a indústria têxtil, a de vestuário, de móveis, gráfica etc.) e não-duráveis (como a de bebidas, de alimentos e outras).
Concluindo, pode-se afirmar que a industrialização brasileira teve até o final da Segunda Guerra Mundial um caráter substitutivo, isto é, foi um processo de substituição de importações. Tratou-se de produzir internamente bens que eram importados dos países desenvolvidos da década de 1950, esse processo de industrialização adquire um novo caráter: as empresas norte-americanas, européias e japonesas começam a se internacionalizar, tornam-se multinacionais e penetram fortemente no Brasil. O Estado passa, então, a associar-se ao capital estrangeiro ou ao privado nacional, além de criar um grande número de empresas industriais públicas.
Nessa segunda metade do século XX, a industrialização do Brasil deixa de ser feita essencialmente com capitais privados nacionais, em razão da notável expansão das empresas estrangeiras e estatais. E o surto industrial não se restringe mais às indústrias de bens de consumo, mas atinge também o setor de bens intermediários e até o de bens de capital, embora estes ainda hoje sejam relativamente fracos.

 
· (VESENTINI, José William. Brasil - Sociedade e Espaço. Geografia do Brasil. São Paulo, Ática, 1995.)