Pedro Saraiva dos SantosFormado em Letras pela Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras de Santos e pós-graduado em Língua
Portuguesa pela Universidade São Judas Tadeu, em São Paulo.
Residiu na Iugoslávia, entre 1989 e 1992. Professor de Inglês
da União Pioneira de Integração Social – UPIS.
A Crise no Leste EuropeuThe Crisis in Eastern Europe
Na ótica do brasileiro comum, a Europa é um continente
profundamente civilizado em que imperam o direito, a ordem, a democracia
em sentido ideal. Suíças, áustrias e alemanhas habitam
nosso imaginário. É o continente dos sonhos. A Europa, possui
bósnias e albânias e, como aqui, a miséria ombreia
com o fausto; a paz com a guerra; a democracia com o totalitarismo. O Velho
Continente viveu seu apogeu e agora, como que a se preparar para o terceiro
milênio, sofre as turbulências naturais da acomodação
de placas sociais, políticas, religiosas, étnicas... O bipolarismo
dos tempos da guerra fria dá lugar a anseios de idade e progresso;
a ideologia radical parece dobrar-se à inexorável marcha
do desenvolvimento humano. A comunicação por satélites
e as redes mundiais de informação terminam por infundir na
grande maioria dos habitantes da Terra um sentimento de pertinência
ao mesmo ambiente. Esse sentimento de "aldeia global", sem dúvida,
contribuiu, concomitantemente, com Históricos para a eclosão
da onda de separatismo que assolou o Leste Europeu.
A crise na Europa Oriental pode ser resumida por dois fatos principais:
o esfacelamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
(URSS) e o desmembramento da República Socialista Federativa da
Iugoslávia. O desaparecimento da URSS, tão bem sintetizado
pela queda do Muro de Berlim, tem sido minuciosamente analisado pela mídia
do mundo inteiro. O problema iugoslavo, porém, embora tenha recebido
muita atenção da imprensa como um todo, sofreu distorções
resultantes de motivações econômicas, políticas
e militares, entre outras.
O presente ensaio objetiva lançar alguma luz sobre os fundamentos
históricos dessa crise; perscrutar as raízes da crueza bárbara
da chamada "Guerra da Iugoslávia"; expor de maneira imparcial o
envolvimento e responsabilidade de cada um dos protagonistas da contenda;
e demonstrar que o interesse econômico, acima de tudo, tem obstado
o entendimento do nó balcânico.
Antes de entrarmos nas considerações históricas,
é útil que observemos a situação da Iugoslávia
ao início da crise. Com uma área de aproximadamente 250 mil
km2, o país era dividido politicamente em seis repúblicas:
Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia e Herzegovina,
Macedonia e Montenegro e duas províncias autônomas: Kossovo
e Voivodina. As línguas oficiais eram três: servo-croata,
esloveno e macedônico, como também eram três as religiões:
católica ortodoxa, católica romana e islamismo, além
de uma infinidade de nacionalidades. No último censo realizado em
1981, uma minoria declarou-se iugoslava. A maioria da população
considerou-se sérvia, croata, eslovena, macedônica, montenegrina,
albanesa, húngara, muçulmana, cigana, etc. A constituição
federal, promulgada em 1973, quando Tito já mostrava sinais de enfraquecimento,
procurou atender aos clamores mais exaltados, como forma de refrear os
ânimos. Assim, além de conceder muito mais autonomia às
repúblicas, facultou a cada etnia o direito de manifestar livremente
sua cultura, tradições, credo, etc. A título de ilustração,
se um grupo de, no mínimo, trinta húngaros desejasse fazer
seus estudos em seu próprio idioma o Estado era legalmente obrigado
a atendê-lo. Desta forma, juntamente com a diversidade floresceu
também o anseio crescente de liberdade em todo o país. Apesar
disso, durante algum tempo, a convivência foi pacífica. Os
dois principais grupos étnicos: sérvios e croatas, todavia,
sustentavam uma rusga centenária que, aliás, foi a razão
imediata da eclosão da crise. Não fosse ao advento do Comunismo,
na década de quarenta, os conflitos teriam acontecido bem antes.
O Comunismo conseguiu colocar "panos quentes" nos sentimentos fortemente
antagônicos existentes entre sérvios e croatas. Rupturas aparentemente
irreparáveis foram solucionadas com o truque do partido único,
controlado com extrema habilidade pelo grande artífice da federação
iugoslava, o Marechal Tito. O sêmen da desagregação,
não obstante, ficou preservado por mais de quarenta anos nos círculos
de ferro do regime titoísta, a despeito de milhares de mortes. Títo
faleceu em 1980 e Gorbachev inventou a Perestroika-Glasnost. Os ventos
frescos da democracia sopraram e o estado iugoslavo, considerado o mais
moderno dos estados comunistas, viu-se rebaixado à posição
de ultra-conservador. Somou-se a isso a queda e execução
sumária do último ditador da região, Nicolae Ceaucescu,
da Romênia.
Era chegada a hora. Os ideais de liberdade alçavam vôo
sereno nos céus iugoslavos. Aí, cada povo passou a destacar
suas diferenças históricas. Cada nacionalidade começou
a exaltar suas virtudes e a execrar, como funestas, as particularidades
alheias. A mídia entrou na batalha: sérvios e croatas passaram
a desfiar ressentimentos mútuos. Neste ponto, exatamente, a guerra
começou a ser ganha pelo separatismo. Os sérvios, defensores
da federação, dirigiram seus ataques contra os croatas, principais
arautos do desmembramento. Os croatas, por sua vez, valendo-se de seus
laços mais ocidentalizados, passaram a difamar os sérvios,
principalmente na Alemanha e nos Estados Unidos, onde são numerosos.
Os resultados não tardaram a aparecer. Em pouco tempo a mídia
ocidental, inicialmente alimentada por magnatas americanos de origem croata,
passou a fustigar a Sérvia. Cabe aqui lembrar algumas razões
da mídia ocidental: 1.a Alemanha debita à Sérvia grande
parte de seu insucesso na II Guerra Mundial. Perdeu divisões inteiras,
milhares de homens, tempo precioso e terminou sendo expulsa pelos sérvios,
não conseguindo estabelecer a ligação tão necessária
com suas forças da África e do Oriente. Saiu humilhada dos
Bálcãs; 2.Itália, aliada da Alemanha, perdeu também
boa faixa de terra, que hoje pertence à Croácia; 3.Estados
Unidos, como xerife, temia a manutenção de forças
armadas tão fortes como as iugoslavas na região - o quarto
exército mais poderoso da Europa; 4.além disso, a Hungria
também nutria ressentimentos pela expulsão de milhares de
húngaros das planícies da Voivodina, sem falar da Búlgária.
Isto posto, é válido lembrar que durante a guerra,
todas as reportagens veiculadas aqui no Brasil sobre a crise iugoslava
tiveram origem na Alemanha, Estados Unidos e Itália. Todas anti-Sérvia.
Um massacre. Vimos a guerra de um único ângulo.Em última
análise, o que temos aqui é um choque de civilizações:
a ocidental contra a oriental; a católica romana, contra a ortodoxa,
a democracia contra o comunismo. A este respeito, vale lembrar que as fronteiras
da Sérvia com a Croácia coincidem, exatamente, com os limites
dos impérios Áustro-Húngaro e Otomano.
Origens do conflito
As raízes da crise iugoslava podem ser compreendidas, em
parte, pela história da rivalidade entre sérvios e croatas.
Quatro são os fatos principais nessa rivalidade: 1. sérvios
na Croácia;
2. hegemonia sérvia; 3. invasão da Iugoslávia
pelo III Reich; 4. luta pela sucessão de Tito.
Os primeiros desentendimentos entre sérvios e croatas ocorreram
ainda durante o Império Otomano, no século XIV a XIX. Os
turcos, que ocupavam a Sérvia, eram muito violentos e a cláusula
principal de sua constituição era a espada. A vizinha Croácia
pertencia ao Império Áustro-Húnaaro, muito mais civilizado
e avançado. Por esta razão, muitos sérvios procuravam
refúgio na Croácia e, devido a seu prestígio de bons
guerreiros, conseguiram um vantajoso pacto com o império: formariam
um cinturão defensivo contra os turcos, recebendo, em contrapartida,
certos privilégios. Justamente esses privilégios teriam enfurecido
os croatas que, embora nativos, gozavam de condições inferiores
às dos sérvios perante o Império. Além disso,
para se formar o citado cinturão, muitos croatas foram retocados.
Começaram, desta forma, os conflitos entre os dois povos, conflitos
esses, que seriam os mais antigos ancestrais dos atuais acontecimentos.
Em fins do século XlX, os sérvios expulsaram os turcos e
reorganizaram seu reinado. A I Guerra Mundial resultou na independência
da Croácia e da Eslovênia, pois aí, o Império
Áustro-Húngaro se desintegrou. Croatas e eslovenos, não
possuindo a organização político-militar dos sérvios,
propuseram e foram aceitos num reino composto com os sérvios, onde
o rei era sérvio. Formava-se, então, o Império de
sérvios, croatas e eslovenos (1918). Os desentendimentos foram tais
e de tal monta, que passaram, todo o entre-guerras brigando. Entre outras
"façanhas", conseguiram assassinar o rei. Uma das razões
sempre alegadas para a diferença entre eles é o fato de os
sérvios serem ortodoxos e croatas e eslovenos serem católicos
romanos. A grande justificativa política, todavia, era a acusação
da tentativa sérvia de hegemonia sobre os dois outros parceiros.
Esta seria, pois, a segunda origem histórica das diferenças
entre eles. A II Guerra Mundial encontrou o império cambaleando.
Falava-se em separação. Croatas e eslovenos tudo faziam para
"fugir dos sérvios". A invasão alemã caiu do céu
para os croatas, pois, rapidamente se renderam e, traindo a União,
passaram-se para o lado de Hitler, mediante um acordo que lhes dava a independência.
Valendo-se, provavelmente da teoria hitlerista de "pureza racial", passaram
a promover uma limpeza de seu território, eliminando os incômodos
sérvios que ali moravam desde os tempos dos turcos (há, aproximadamente
300 anos). Dados disponíveis (e plenamente divulgados pela mídia)
dão conta de que entre 1941 e 1943 foram mortos cerca de 800 mil
sérvios. Com a queda de Hitler essa dívida de sangue só
não foi cobrada porque o Marechal Tito (croata), que subiu ao poder,
trouxe um discurso conciliatório sob o lema "Unidade e Fraternidade",
que pregava a união de todos povos da região. Essa "química"
retirou a Croácia do bloco dos perdedores e a fez figurar no dos
vencedores. Tito manteve a situação sob controle até
1980, quando faleceu. Seria essa conta pendente há 50 anos, e seus
juros naturais, o terceiro grande motivo para os atuais desentendimentos.
A quarta e definitiva razão para os conflitos seria a ambição
política desmedida de lideranças regionais que tentam, a
qualquer preço, abocanhar o posto de "maestro", vago há anos
com a morte de Tito. Com tantos e tão fortes motivos, não
poderíamos minimizar a complexidade do quadro iugoslavo.
História recente
A atual crise teve origem imediata em dois fatos recentes: a morte
de Tito e a abertura política do bloco comunista, proporcionada
pela Perestroika. A morte do grande líder mostrou que o país
não dispunha de uma liderança capaz de manter coesas as diversas
correntes iugoslavas no sentido de um rumo comum. Aos poucos as lutas políticas
intestinas foram surgindo e as querelas entre repúblicas e nacionalidades
vieram à tona. A Perestroika, desta forma, constituiu-se na centelha
que faltava para a precipitação dos acontecimentos. Além
disso, a revolução romena que resultou na deposição
e morte de Nicolae Ceaucescu, teve grande influência, à medida
que expôs, de forma crua, as limitações do regime unipartidário.
Em janeiro de 1990, a Liga dos Comunistas da Iugoslávia -
LCI (Partido Comunista), que de há muito enfrentava problemas internos,
não conseguiu realizar seu Congresso Extraordinário. Depois
de acirradas discussões, os representantes da Eslovênia se
retiraram, rompendo com o partido. Esse foi o embrião do multipartidarismo
no país. Começou, imediatamente, a campanha nas diversas
repúblicas para realização das primeiras eleições
diretas, em 50 anos. De um modo geral, as eleições trouxeram
transformações. Três repúblicas, porém,
sentiram-nas de forma mais acentuada. A Eslovênia, precursora do
movimento em prol do multipartidarismo, imprimiu um cunho vanguardista,
valendo-se da sua condição de república mais desenvolvida
da Federação e de seus laços "espirituais" com o Ocidente.
A Croácia, que ao eleger Franjio Tudjman (ex-general do EPI) e separatista
"juramentado", colocou-se em rota de colisão com o sistema vigente
e, antes de tudo, com a própria Iugoslávia. Finalmente, a
Sérvia, como a mais importante unidade da federação
e sede do poder central, ao insistir na manutenção do "status"
que, colocou-se em posição antagônica às duas
anteriormente citadas. Eslovênia e Croácia, até por
coincidência de propósitos, ficaram de um lado, e a Sérvia,
pela razão oposta, de outro. Não nos esqueçamos das
"Origens do Conflito", anteriormente citadas. Os ânimos já
estavam suficientemente exaltados, faltava, porém, algo concreto
para se iniciar o conflito. Esse "algo concreto" foi providenciado pelo
Parlamento Croata ao aprovar proposta do Govemo Tudjman de revisão
da Constituição da República. Entre as mudanças
propostas estava a definição do estado croata. O texto em
vigor definia a Croácia como "um estado de croatas e sérvios…",
e a nova proposta retirou esse "... e sérvios". A reação
da população de nacionalidade sérvia da república,
aproximadamente 20%, foi imediata. Reagiram inicialmente na esfera política
e, não tendo obtido resultados, declararam-se separados da Croácia.
Foi assim criada a chamada Região Autônoma de Krajina, composta
de 13 (treze) municípios. Organizaram-se em todos os níveis:
político, administrativo e militar. Argumentaram para isso, receio
de que se repetissem agora, os massacres como 1941 a 1943. Ocorre que,
além dessa área, onde predominavam, os sérvios estavam
espalhados por todo o território da Croácia. Justamente esses
últimos passaram a sofrer represálias por parte da população
e do governo croata. Como a toda ação corresponde a uma reação,
os sérvios passaram a revidar e os conflitos se generalizaram.
À medida que os choques iam se alastrando, o governo federal
travava uma luta verbal com o governo croata, acusando-o de importação
ilegal de grandes quantidades de armamento. O ponto culminante dessa contenda
foi a divulgação, pelo EPI, na televisão, de farto
material comprobatório de uma grande remessa de armas importadas
ilegalmente através da Hungria. O conflito entre governos estava
selado. Nessa ocasião, a Croácia divulgou que se separaria,
formalmente, da Iugoslávia a 30 de junho de 1991, e a Eslovênia,
a 26 de junho do mesmo ano.
Evolução histórica
1) Origem dos Povos Balcânicos
Os primeiros eslavos começaram a chegar à região
durante o Século VII, vindos da Bielo-Rússla. À medida
que ocupavam a região, iam empurrando os habitantes originais, os
albaneses, que acabaram por ficar comprimidos na Albânia que hoje
conhecemos.
Como a região se constitui em importante corredor entre Ocidente
e Oriente, os eslavos dali terminaram por sofrer influências diferenciadas,
identificando-se mais com o Oriente ou com o Ocidente. Os sérvios,
mais expostos às ondas de conquistadores, forjaram em si um espírito
mais aguerrido. Sua capital, Belgrado, foi destruída inúmeras
vezes. Movidos pela necessidade constante de defender-se, os sérvios
organizaram-se melhor ( reino, exército e maior resistência
aos invasores). Apesar disso, a parte sérvia da região esteve
ocupada, de 1389 a 1837, pelos turcos do Império Otomano e, de 1941
a 1943, pelas forças nazistas.
Durante o mesmo período, croatas e eslovenos permaneceram
sob o domínio de outros povos, notadamente, os húngaros.
Desse processo resultou a diferença principal entre os três
povos: a religião. Os sérvios, por inspiração
russa, abraçaram o catolicismo ortodoxo e, croatas e eslovenos,
em razão do domínio húngaro, o catolicismo romano.
Com histórias tão diversas, só em duas oportunidades
tentaram unir-se, sem êxito. A primeira vez, 1918-1941, resultou
em massacre de cerca de 800 mil sérvios na Croácia. A segunda
tentativa, 1946-1991, produz ainda seus funestos resultados.
A longevidade da segunda tentativa de união só se
explica pelo estilo de governar do Marechal Josip Broz Tito.
Vários eram os campos de concentração patrocinados
por seu governo, para "hospedar" os inimigos políticos, sendo o
mais famoso localizado em uma ilha das costas adriáticas, denominada
Goli Otok (Ilha Nua). Para se ter uma idéia da voracidade do titoísmo
(versão pessoal de Tito para o Comunismo), é voz corrente
na região que seu governo fez mais vítimas que a Segunda
Guerra Mundial, e vitimou seis por cento da população do
país. Mais um dado: os nazistas foram confrontados, de 1941 a 1943,
por dois líderes militares: Tito e Draja Mihajlovic. Expulsos os
alemães, uma das primeiras ações de Tito foi mandar
executar Mlhajlovic.
2) Invasão dos Bálcãs pelo Império Otomano
(Resumo)
- O sultão Ali Pacha invade a região, em 1389 (Batalha
do Kossovo). - Rei sérvio morre em combate.
- Belgrado é destruída e ocupada. - Cinco séculos
de guerra de guerrilha (nunca houve rendição).
- Surgimento dos sérvios-muçulmanos - Os turcos passaram
a "confiscar" todos os primogênitos sérvios e a mandá-los
para a Turquia para que fossem educados na fé muçulmana.
Ao retomarem, eram grandes inimigos dos sérvios. Daí, principalmente,
surgiram os muçulmanos da Bósnia. A Constituição
da Iugoslávia de 1973, reconheceu-os como nacionalidade __ caso
único no mundo em que o credo é sinônimo de nacionalidade.
- Expulsão dos turcos - 1837. - Novo Reino Sérvio
- 1903.
3) Reino de Sérvios, Croatas e Eslovenos
Em 1914, o príncipe Ferdinando, herdeiro do trono Áustro-Húngaro,
foi assassinado por um sérvio, em Sarajevo, como reação
à recente anexação da Bósnia-Herzegovina àquele
império. Esse incidente acabou se constituindo no início
da Primeira Guerra Mundial. No final da guerra, o Império Áustro-Húngaro
estava desfeito.
Croatas e eslovenos, após séculos de submissão
aos húngaros, sentiam-se ameaçados e propuseram, já
em 1918, uma união ao Império Sérvio. O rei seria
sérvio. Os problemas, desde então, foram inúmeros
e culminaram com o assassinato do rei, por um croata, em 1934. A preocupação
maior do povo croata era com a hegemonia sérvia. A conseqüência
desse incidente foi uma onda popular incontrolável de repulsa ao
povo croata.
Como o príncipe-herdeiro só contasse com onze anos
de idade, sobe ao trono um príncipe-regente, que governou até
1941.
4) Invasão da Iugoslávia pelos Nazistas
Ao final de 1940, o príncipe-regente assinou com a Alemanha
e a Itália o chamado Tratado Triangular. O povo, que não
fora consultado, manifestou-se de tal forma contrário a esse ato,
que o príncipe-regente renunciou.
Prestes a completar dezoito anos, sobe ao trono o príncipe-herdeiro,
que, ouvindo o grito das ruas, denuncia o Tratado Triangular, assinado
por seu antecessor. A reação de Hitler foi imediata. Em abril
de 1941, auxiliado pela Itália, Hungria e Bulgária, Hitler
invade a Iugoslávia, o príncipe exila-se na Inglaterra. As
forças armadas são desbaratadas, as perdas são imensas.
Hitler avança pelo país e Belgrado é ocupada em poucos
dias. Mais uma vez, não há rendição. O cidadão
Josip Broz Tito e o Tenente-Coronel do exército iugoslavo Draja
Mihajlovic organizam, separadamente, grupos de resistência. A luta
segue cruenta. As forças guerrilheiras não dão quartel
aos nazistas, que também sofrem pesadas perdas.
O avanço das forças nazistas foi facilitado por um
fato imprevisto. Após três dias de combate, a Croácia
incapaz de fazer frente ao rolo compressor do III Reich e, ela própria,
desejosa de liberdade, rendeu-se a uma engenhosa proposta de Hitler: em
troca da promessa de tornar-se um estado independente após a guerra,
migrou para as hostes nazistas, passando a combater seus compatriotas sérvios.
A Eslovênia já estava subjugado. Aí, precisamente,
residem os maiores ressentimentos entre os dois povos, já que, ao
que se diz, morreram cerca de 800 mil sérvios residentes na Croácia
(uma limpeza étnica). Em 1943, os nazistas são expulsos da
Iugoslávia.
5) Proclamação da República Socialista Federativa
da Iugoslávia
Expulsos os alemães, um sexto da população
havia perecido, mas o país era vitorioso. Com o fim da guerra, Draja
Mihajlovic, monarquista convicto, manifestou desejo de promover o retorno
do príncipe, que se exilara na Inglaterra. Tito, que tinha outros
planos, determinou sua execução e a de seus principais colaboradores.
Como único líder, Tito proclamou, em 1946, a República
Socialista da Iugoslávia.
Após rápida aproximação com a URSS,
a Iugoslávia, em 1948, desalinhou-se do bloco socialista. Devido
à maneira extremamente personalista de governar de Tito, o socialismo
iugoslavo é, às vezes, chamado de titoísmo.
Em 1973, sentindo a situação interna muito tensa,
Tito promulga nova Constituição que, entre outras medidas,
concede maior autonomia às repúblicas e províncias
e declara vitalício o cargo de presidente da república, que
ocupava desde 1946.
Com a morte do grande líder, em 1980, a Iugoslávia
começou padecer da falta de uma liderança forte que lhe pudesse
determinar os rumos. Além disso, agravavam-se os problemas econômicos
do país. A partir da morte de Tito, a presidência do país
passou a ser exercida por um colegiado em que todas as repúblicas
eram representadas, com os representantes revezando-se anualmente no cargo
de Presidente.
Esse arranjo, naturalmente, não satisfazia aos anseios dos
diversos povos que, na verdade, já não se sentiam tão
entusiasmados com a união. Desta forma, começam a surgir
as lideranças locais, cada uma delas, após constatar a impossibilidade
de suceder a Tito, pugnava pela independência de sua república.
Assim, na Sérvia surgiu Slobodan Milosevic; na Croácia, Franjio
Tudjman e na Bósnia, Alia lzetbegovic.
6) Esfacelamento da União Soviética
O clima na Iugoslávia era tenso. O desejo de separação
em cada república era manifestado abertamente. Foi nesse ambiente
que começaram a chegar ao país as notícias do desmoronamento
da URSS. A queda do Muro de Berlim funcionou como uma senha. O desejo de
separar-se virou decisão. Campanhas públicas contra o poder
central ganharam as ruas. Foram abertas feridas antigas e ódios
históricos, especialmente entre a Sérvia e a Croácia.
A igreja, símbolo histórico da resistência, volta à
cena.
7) Declaração de Independência das Repúblicas
O processo foi disparado a partir da Assembléia Extraordinária
da Liga Comunista da Iugoslávia (LC), realizada em janeiro de 1990.
Já no segundo dia, a delegação da Eslovênia
retirou-se, seguida pela da Croácia. Segue-se a isso a proclamação
da independência de ambas, em 26 de junho de 1991. No ano seguinte
separam-se também a Bósnia-Herzegovina e a Macedônia.
8) O Problema das Forças Armadas lugoslavas
As Forças Armadas da Iugoslávia tinham a seguinte
constituição: - Exército Popular da Iugoslávia
(EPI) - formado por força naval, terrestre e aérea; - Força
de Defesa Territorial - força terrestre circunscrita a cada república.
Sendo o efetivo do EPI proporcional à população
de cada república, e tendo a Sérvia mais de um terço
da população do país, os sérvios sempre foram
mais numerosos no EPI. À medida que a crise no país se aprofundava
o percentual de sérvios crescia ainda mais. O resultado foi que,
com a retirada do EPI da Eslovênia e da Croácia, os componentes
sérvios foram recambiados para a Bósnia e para a própria
Sérvia. Esta é uma das razões pelas quais os combates
na Bósnia foram tão dramáticos. Para o EPI, permitir
que a Bósnia se tomasse independente significava desemprego em uma
economia cambaleante.
9) Conjuntura dos Novos Estados
a) Eslovênia - Católica romana, língua
eslovena, etnicamente pura, integrada com o Ocidente. Independência
consolidada.
b) b) Croácia - Católica romana, língua
croata (durante a união era servo-croata), 23% de sérvios,
30% do território em poder da população sérvia.
A ONU continua a manter um corredor de isolamento para evitar o recrutamento
das lutas. Futuro ainda indefinido.
c) Bósnia-Herzegovina - religiões: islamismo,
católica romana e católica ortodoxa. Habitada por muçulmanos,
sérvios, croatas e outros. Alguns fatores carregam de incerteza
o futuro do país:
- o fato de a liderança muçulmana pretender dar ao
país "status" de república islâmica;
- a composição e distribuição étnica
do país; - ambição política de cada uma das
partes, obstando as possibilidades de formação de um governo
de coalisão.
d) Macedônia - católica ortodoxa, população
homogênea, língua macedônica, grega e búlgara.
Enfrentou problemas com a Grécia, mas está conseguindo alguma
estabilidade.
10) Os Grandes Problemas da Região Questão Territorial
Existem na região várias pendências de natureza
territorial: - sérvios na Croácia __ ocupam cerca de 30%
de seu território; - sérvios e croatas na Bósnia -
é o mais grave problema do país. Entre as várias teorias
levantadas para sua solução está a cantonização,
mas restaria a questão da propriedade privada;
- costas da Croácia __ Bósnia e a Nova Iugoslávia
têm pretensões sobre parte do litoral croata, por questões
econômicas e estratégicas.
Questão de Política Interna
Persistem muitas reivindicações entre as repúblicas,
baseadas em alegação de investimentos especiais feitos pela
Federação lugoslava, durante o regime comunista. - contra
a Eslovênia - Macedônia, Nova Iugoslávia, Croácia
e Bósnia. Motivo: a única usina nuclear do país, universidades,
hospitais, estações de rádio e de televisão.
A Eslovênia era o cartão-postal do regime. - contra a Croácia
- Eslovênia, Bósnia, Macedônia e Nova Iugoslávia.
Motivo: os modernos portos do Adriático, especialmente o de Split.
Além disso, existe o temor geral do poderio militar sérvio
e as aspirações de independência de Montenegro, Voivodina
e Kossovo. O problema do Kossovo é muito complexo, já que
sua população é composta de 90% de albaneses muçulmanos
e em seu território estão as raízes históricas
da Sérvia.
Questão Religiosa
- A presença muçulmana na Bósnia e no Kossovo
inquietam a Europa. - Rusga centenária entre católicos ortodoxos
(croatas) e católicos romanos.(sérvios).
Questão de Política Externa
Persistem, entre vários países da região, pendências
históricas com inquietante potencial desestabilizador.
- Albânia e Nova Iugoslávia __ a questão do
Kossovo. - Grécia e Macedônia __ "Macedônia" é
o nome da maior região natural da Grécia. Por esta razão,
aquele país luta intensamente junto à comunidade internacional
contra o reconhecimento do nome do novo país. - Nova Iugoslávia
e Croácia __ Irã e Mundo Árabe __ presença
muçulmana na área. - A aliança histórica entre
Sérvia e Rússia inquieta a região.
- Alemanha, Itália, Áustria, Hungria e Bulgária
ressentimentos contra os sérvios em função, ainda,
da Segunda Guerra Mundial.
CONCLUSÃO
Da multiplicidade de fatores que alimentam a crise balcânica,
um parece predominar: o religioso. As tentativas de equacioná-lo
tem esbarrado em alguns obstáculos até aqui insuperáveis.
Em primeiro lugar, os organismos internacionais, notadamente a ONU
e a CSCE, mostram-se incapazes de resolver a questão. Muitas parecem
ser as causas da incapacidade, entre elas, podemos destacar:
- parcialidade demonstrada por esses organismos em alguns estágios
da crise, aliada à falta de objetividade, o que resultou em perda
de credibilidade junto às partes envolvidas na crise; falta de vontade
política da comunidade internacional; - interesses conflitantes
dos países que ocupam assento na ONU (Rússia, EUA, Inglaterra);
- sentimento ambíguo em relação à Bósnia-Herzegovina
- por um lado não desejam a permanência muçulmana no
poder e, por outro, não querem privilegiar os sérvios que
poderiam ampliar sua influência na região; - a presença
sérvia na Croácia continua a representar grande fonte de
preocupação para a comunidade internacional, principalmente
porque pode resultar na entrada da Sérvia no conflito. Essa possibilidade
resultaria na internacionalização da guerra, com conseqüências
imprevisíveis;
- por fim, é importante ressaltar que só com a presença
dos sessenta mil soldados da OTAN a situação se acalmou.
As questões geradoras da crise continuam intactas. Apesar das eleições
que acabam de ser realizadas na Bósnia, sob a supervisão
da ONU, a situação é tensa. Até quando a OTAN
e a ONU permanecerão na região? O que acontecerá,
então?
Resumo
Este trabalho objetiva analisar a crise no Leste Europeu, como um
todo, a partir do estudo da crise iugoslava. Apesar de algumas incursões
pelo campo econômico, psicossocial e militar, a análise privilegia
o processo histórico, em sentido lato. Dessa forma, faremos um passeio
pelos fatos históricos na região, desde o Século VII
até as eleições na Bósnia, há alguns
dias. A última parte da exposição dedica-se ao levantamento
dos principais problemas que afligem a região e a um delineamento
de algumas perspectivas
Abstract
Having Yugoslav crisis as starting point, this paper aims at analyzing
the crisis in East Europe, as a whole. In spite of some incursions in the
economic, psycho-social and military fields, the text is focused on the
historical process. As a result we will "travel" through the historical
facts in the Region from VII Centrury till Bosnian elections, held some
days ago. The last part of the paper is devoted to outlining the main problems
in Balkan region and delineating some perspectives for it
Resumen
Este trabajo tiene por objetivo analizar la crisis en el Este Europeo,
como un todo, a partir del estudo de la crisis Yugoslava. A pesar de algunas
incursiones por el campo económico, psicosocial y militar, el análisis
privilegia el proceso histórico, en sentido lato. De esta forma
haremos un paseo por los hechos históricos en la región desde
el siglo VII hasta las elecciones en Bosnia, hace algunos días.
La última parte de la exposición se dedica al levantamiento
de los principales problemas que afligen a la región y a un delineamiento
de algunas perspectivas.