PERSPECTIVAS DE PAZ NO ORIENTE MÉDIO
                                                        SAMUEL FELDBERG

                   As características políticas do Oriente Médio passaram por importantes mudanças nos últimos anos. Apesar da manutenção de vários dos problemas clássicos da região, suas principais características continuam sendo o declínio do conflito árabe - israelense, uma maior prioridade para o desenvolvimento econômico, uma diminuição na importância dos países radicais e um novo conceito de segurança no Golfo Pérsico.
                 Os principais fatores por trás destas mudanças consistem de: final da Guerra Fria; colapso da União Soviética e fim de seu auxílio aos Estados radicais; invasão do Kuwait pelo Iraque e sua derrota por uma coalizão liderada pelos E.U.A e com a participação de diversos países árabes; acordo de paz de Oslo, entre israelenses e palestinos; acordo de paz entre Israel e a Jordânia; diminuição do envolvimento dos países árabes no conflito árabe – israelense; ameaça, no Golfo Pérsico, de grupos revolucionários, do Irã e do Iraque; incapacidade dos governantes árabes de desenvolver-se rapidamente, alcançar a unidade intra-árabe, de expulsar as influências ocidentais ou de destruir Israel; Os árabes estão profundamente divididos; vários países estão envolvidos em guerras civis (Argélia, Líbano, Iraque), a Líbia, o Iraque e o Irã estão à mercê de sanções e boicotes, e suas posições em relação à política externa variam de incondicional aliado americano (Arábia Saudita) a inimigo declarado dos E.U.A (Irã e Iraque); de paz com Israel (Egito e Jordânia, Marrocos, Monarquias do Golfo e a OLP) a oposição absoluta à existência do Estado judeu (Irã).
                 As seguidas derrotas e o alto custo da luta contra Israel gradualmente               afastaram os países árabes do envolvimento no conflito tornado-os desinteressados em novas guerras, porém ao mesmo tempo incapazes de buscar a paz. As monarquias do Golfo sempre                 estiveram à mercê de seus poderosos vizinhos e os países, como um todo, não se opuseram à ocupação do Líbano por Israel em 1982 nem apoiaram, mais que retóricamente, a Intifada nos territórios ocupados.
                 A capacidade de Israel de defender-se, com um auxílio e um compromisso cada vez mais absoluto por parte dos E.U.A tornam um novo conflito armado cada vez mais improvável.
                 Entre os próprios países árabes parecem existir suficientes tensões capazes de gerar conflitos: continuam existindo rivalidades entre os Estados árabes - Irã e Iraque continuam a competir pela hegemonia no Golfo e uma nova guerra poderia envolver armas de destruição em massa; a  Síria continua com sua ambição de domínio sobre os Estados vizinhos (além de, "de fato" ,dominar o Líbano). a intensidade do nacionalismo árabe e do radicalismo islâmico como ideologias transnacionais ainda provoca o desejo de Estados individuais de intervir nos assuntos internos de outros países. países árabes podem vir a confrontar-se com Israel devido a interesses antagônicos específicos , e não no contexto do conflito clássico. a alternativa de baixo custo e baixo risco continua sendo a guerra de guerrilha através de grupos revolucionários. O Irã, a Líbia, a Síria, o Sudão e o Iraque patrocinam os grupos que tem atacado em Israel, na Argélia, no Egito, no Líbano e vários  outros países. as disputas internas entre grupos étnicos/nacionais e/ou  ideológicos tendem a gerar conflitos violentos. a presença - e eventual utilização - de arsenais não convencionais (nuclear, químico, biológico ou balístico) tendem a fomentar ou disseminar o conflito. uma revolução, em um dos Estados chave da região poderia criar um desequilíbrio fatal para a estabilidade regional, reforçando grandemente o bloco radical (como aconteceu com o Irã em 1979). as incertezas mantém acesa uma corrida armamentista ,que por sua vez gera tensões devido aos graves problemas econômicos e sociais que ajuda a perpetuar.
                 Apesar da existência destas ameaças e tensões, vários elementos  contribuem para sua relativização.
                 Os Estados mais radicais, ao não ter acesso a armamentos ocidentais, perderão cada vez mais sua capacidade de equiparar-se tecnologicamente, devido à obsolescência das armas soviéticas em seu poder.
                 Os países moderados, além disso, também tem acesso a generosas  contribuições financeiras dos Estados Unidos.
                 Não menos importante é o exemplo, representado pela coalizão contra o Iraque, da possível reação a uma atitude agressiva por parte de qualquer dos países radicais da região.
                 A definição de como os Estados moderados podem limitar a capacidade dos Estados e organizações radicais de estender sua influência foi dada já em maio de 1994 por Tony Lake, assessor de segurança nacional dos Estados Unidos : "Aos extremistas lhes será negado conclamar que são a tendência do futuro. Eles terão que se confrontar com a realidade de seu fracasso, enquanto governos moderados encontram força e estímulo para conter o extremismo                 interno assim como fora de suas fronteiras".
                 As diferenças fundamentais situam-se entre os países ou forças radicais e os moderados, alinhados com os E.U.A entre os quais encontram-se: Marrocos, Tunísia, Argélia, Egito, Arábia Saudita, Jordânia, Kuwait, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Oman e Bahrain.
                 O Egito continua tentando firmar-se como líder do mundo árabe,com a Síria e a OLP seguindo sua liderança. O Líbano certamente já teria firmado a paz com Israel e se incorporado ao bloco moderado não fosse sua posição como fantoche da Síria que ocupa grande parte de seu território.
                 A Turquia e Israel obviamente fazem parte deste grupo.
                 Samuel Feldberg é mestrando em Ciência Política e pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos (NAIPPE) da USP.
                 Carta Internacional, Número 68, Ano VI, Outubro de 1998