As características políticas do Oriente Médio passaram
por importantes mudanças nos últimos anos. Apesar da manutenção
de vários dos problemas clássicos da região, suas
principais características continuam sendo o declínio do
conflito árabe - israelense, uma maior prioridade para o desenvolvimento
econômico, uma diminuição na importância dos
países radicais e um novo conceito de segurança no Golfo
Pérsico.
Os principais fatores por trás destas mudanças consistem
de: final da Guerra Fria; colapso da União Soviética e fim
de seu auxílio aos Estados radicais; invasão do Kuwait pelo
Iraque e sua derrota por uma coalizão liderada pelos E.U.A e com
a participação de diversos países árabes; acordo
de paz de Oslo, entre israelenses e palestinos; acordo de paz entre Israel
e a Jordânia; diminuição do envolvimento dos países
árabes no conflito árabe – israelense; ameaça, no
Golfo Pérsico, de grupos revolucionários, do Irã e
do Iraque; incapacidade dos governantes árabes de desenvolver-se
rapidamente, alcançar a unidade intra-árabe, de expulsar
as influências ocidentais ou de destruir Israel; Os árabes
estão profundamente divididos; vários países estão
envolvidos em guerras civis (Argélia, Líbano, Iraque), a
Líbia, o Iraque e o Irã estão à mercê
de sanções e boicotes, e suas posições em relação
à política externa variam de incondicional aliado americano
(Arábia Saudita) a inimigo declarado dos E.U.A (Irã e Iraque);
de paz com Israel (Egito e Jordânia, Marrocos, Monarquias do Golfo
e a OLP) a oposição absoluta à existência do
Estado judeu (Irã).
As seguidas derrotas e o alto custo da luta contra Israel gradualmente
afastaram os países árabes do envolvimento no conflito tornado-os
desinteressados em novas guerras, porém ao mesmo tempo incapazes
de buscar a paz. As monarquias do Golfo sempre
estiveram à mercê de seus poderosos vizinhos e os países,
como um todo, não se opuseram à ocupação do
Líbano por Israel em 1982 nem apoiaram, mais que retóricamente,
a Intifada nos territórios ocupados.
A capacidade de Israel de defender-se, com um auxílio e um compromisso
cada vez mais absoluto por parte dos E.U.A tornam um novo conflito armado
cada vez mais improvável.
Entre os próprios países árabes parecem existir suficientes
tensões capazes de gerar conflitos: continuam existindo rivalidades
entre os Estados árabes - Irã e Iraque continuam a competir
pela hegemonia no Golfo e uma nova guerra poderia envolver armas de destruição
em massa; a Síria continua com sua ambição de
domínio sobre os Estados vizinhos (além de, "de fato" ,dominar
o Líbano). a intensidade do nacionalismo árabe e do radicalismo
islâmico como ideologias transnacionais ainda provoca o desejo de
Estados individuais de intervir nos assuntos internos de outros países.
países árabes podem vir a confrontar-se com Israel devido
a interesses antagônicos específicos , e não no contexto
do conflito clássico. a alternativa de baixo custo e baixo risco
continua sendo a guerra de guerrilha através de grupos revolucionários.
O Irã, a Líbia, a Síria, o Sudão e o Iraque
patrocinam os grupos que tem atacado em Israel, na Argélia, no Egito,
no Líbano e vários outros países. as disputas
internas entre grupos étnicos/nacionais e/ou ideológicos
tendem a gerar conflitos violentos. a presença - e eventual utilização
- de arsenais não convencionais (nuclear, químico, biológico
ou balístico) tendem a fomentar ou disseminar o conflito. uma revolução,
em um dos Estados chave da região poderia criar um desequilíbrio
fatal para a estabilidade regional, reforçando grandemente o bloco
radical (como aconteceu com o Irã em 1979). as incertezas mantém
acesa uma corrida armamentista ,que por sua vez gera tensões devido
aos graves problemas econômicos e sociais que ajuda a perpetuar.
Apesar da existência destas ameaças e tensões, vários
elementos contribuem para sua relativização.
Os Estados mais radicais, ao não ter acesso a armamentos ocidentais,
perderão cada vez mais sua capacidade de equiparar-se tecnologicamente,
devido à obsolescência das armas soviéticas em seu
poder.
Os países moderados, além disso, também tem acesso
a generosas contribuições financeiras dos Estados Unidos.
Não menos importante é o exemplo, representado pela coalizão
contra o Iraque, da possível reação a uma atitude
agressiva por parte de qualquer dos países radicais da região.
A definição de como os Estados moderados podem limitar a
capacidade dos Estados e organizações radicais de estender
sua influência foi dada já em maio de 1994 por Tony Lake,
assessor de segurança nacional dos Estados Unidos : "Aos extremistas
lhes será negado conclamar que são a tendência do futuro.
Eles terão que se confrontar com a realidade de seu fracasso, enquanto
governos moderados encontram força e estímulo para conter
o extremismo
interno assim como fora de suas fronteiras".
As diferenças fundamentais situam-se entre os países ou forças
radicais e os moderados, alinhados com os E.U.A entre os quais encontram-se:
Marrocos, Tunísia, Argélia, Egito, Arábia Saudita,
Jordânia, Kuwait, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Oman e Bahrain.
O Egito continua tentando firmar-se como líder do mundo árabe,com
a Síria e a OLP seguindo sua liderança. O Líbano certamente
já teria firmado a paz com Israel e se incorporado ao bloco moderado
não fosse sua posição como fantoche da Síria
que ocupa grande parte de seu território.
A Turquia e Israel obviamente fazem parte deste grupo.
Samuel Feldberg é mestrando em Ciência Política e pesquisador
do Núcleo de Estudos Estratégicos (NAIPPE) da USP.
Carta Internacional, Número 68, Ano VI, Outubro de 1998