Friedrich Ratzel vai ser responsável por novas
formulações no processo de sistematização da
Geografia. Este alemão publica suas obras nos últimos anos
do século XIX, e vivencia também uma nova realidade histórico-política
da Alemanha. Diferente dos outros participantes dos ramos geográficos
como Humboldt e Ritter que vivenciaram o aparecimento do ideal de unificação
alemã, Ratzel vai estar presente na constituição real
do Estado nacional alemão. Com essa diferença história
em que ele vive, suas formulações só são possíveis
de serem compreendidas em função de determinada
época e sociedade.
É a partir de 1754 que entre os alemães,
a Geografia inicia o seu caminho para o status científico. Surgem
na verdade, duas vias para esse estudo: a "geografia político-estatística"
e a "geografia pura", sendo que Ratzel virá a se relacionar com
esta última. A "geografia político-estatística" define
o papel da geografia como sendo o de montagem do painel mais amplo e sistemático
possível de uma dada conjuntura, tomando por base territorial sua
unidade político regional. Enquanto a "geografia pura" assenta as
suas bases numa unidade regional criando critérios que mostram os
limites naturais do terreno.
A geografia no geral na Alemanha, passa por um grande
processo de transformação, sem que haja uma ruptura na questão
do saber institucionalizado. Ao contrário, o que acontece com a
geografia na verdade, é uma mudança com o intuito de servir
aos propósitos daquilo que viria a movimentar a Alemanha: o capitalismo.
Antes de mais nada, se faz necessário compreender
a história da unificação alemã para que somente
assim haja uma maior compreensão da geografia de Ratzel. A Alemanha
daquele época tinha como características, as tardias relações
capitalistas que se conciliaram com as estruturas feudalistas.
Observa-se também que o poder se encontrava disperso
pelas várias unidades confederadas, devido ao fruto de dominações
locais. Havia uma luta pela hegemonia entre a Prússia e a Áustria.
Na verdade dois fatores contribuíram de forma decisiva para a unificação,
a Confederação Germânica e a repressão aos levantes
populares de 1848. Estes levantes populares, tiveram o apoio também
das classes dominantes, estabelecendo-se assim, ligações
políticas e militares, devido ao fato de que essas massas populares
desejarem a unificação do Estado. Em decorrência disso,
a disputa entre Prússia e Áustria tornou-se cada vez mais
acirrada, sendo que a vitória prussiana iria determinar as características
do Estado. Ou seja, uma organização militarizada da sociedade
e do Estado.
O poder do Estado alemão naquele período
ficara nas mãos dos junkers ( proprietários de terras, representantes
da ordem feudal ), o que condicionou a formação de uma imensa
monarquia burocrática. Esta unificação reacionária
juntamente com a organização militarizada e um expansionismo
latente do Estado alemão são explicadas pela situação
da Alemanha no contexto europeu. Isto é, o país emergia como
mais uma unidade do centro capitalista, só que sem a presença
de colônias. Dessa forma, a necessidade de expansionismo aumentava
a medida em que um desenvolvimento interno se consolidava e o estímulo
a fazer a geografia, ou seja, a se pensar nos espaços geográficos.
O capitalismo alemão carecia de soluções práticas,
não mais apenas de informações. As idéias virão
então da geografia, que vai acabar influenciando outros ramos de
estudos. Se para o capitalismo inglês e francês o papel da
geografia é de lhes viabilizar a expansão colonial, para
o capitalismo alemão seu papel será o de dar respostas a
questões ainda preliminares, ou seja, a unidade alemã.
A partir daí a figura de Ratzel começa
a se destacar no cenário alemão. Ele vai ser o representante
engajado a um projeto estatal, em que vai propor uma legitimação
do expansionismo de Bismarck ( primeiro-ministro da Prússia e do
Império Alemão). E é com a sua obra publicada em 1882,
Antropogeografia - fundamentos da aplicação da Geografia
à História, que Ratzel assim funda a Geografia Humana. Nesta
obra, Ratzel procurou definir o objeto geográfico como o estudo
da influência que as condições naturais exerciam sobre
a humanidade. As influências na qual Ratzel afirma, atuariam nos
aspectos fisiológicos, nos psicológicos dos seres humanos
e através deles, na própria sociedade. Outro aspecto a salientar,
é que a natureza influenciaria na constituição social,
devido a riqueza que ela proporciona. A natureza também poderia
possibilitar a expansão de um povo, ou criar barreiras, assim como
o isolamento ou uma possível mestiçagem.
Ratzel fez um estudo minucioso sobre as influências
geográficas criticando as duas posições mais discutidas:
a que nega essas influências e a que visa estabelecê-la de
imediato. Para ele, as influências vão ocorrer através
das condições econômicas e sociais. Ratzel retirará
de Spencer, um importante pensador, a noção da sociedade
como um organismo e a concepção naturalista do desenvolvimento
da sociedade humana. Sendo assim, a cadeia de raciocínio como veremos
é basicamente linear, começando com os homens, estes agrupando-se
em sociedades, as sociedades transformando-se em Estados e o Estado em
um organismo. Sendo que a Sociedade e o Estado são frutos orgânicos
do determinismo do meio.
Segundo Ratzel, a sociedade como um todo, é um
organismo que mantém relações com o solo, nas suas
necessidades de moradia e alimentação. O progresso significa
um maior uso do meio, ou seja, uma relação mais íntima
com a natureza. Quanto maior o vínculo com o solo, tanto maior seria
necessidade de manter a sua posse. Daí advém que a sociedade
cria o Estado, segundo Ratzel. O Estado é um organismo em parte
humano e em parte terrestre. O Estado é assim porque possui uma
relação necessária com a natureza, ou seja, os Estados
necessitam de espaço como as espécies, por isso lutam pelo
seu domínio.
A subsistência, energia, vitalidade e o crescimento
dele têm por motor a busca e conquista de outros espaços.
A análise das relações, entre o Estado e o espaço,
foi um dos pontos privilegiados da Antropogeografia. Para Ratzel, o território
representa as condições de trabalho e da própria existência
da sociedade. Por outro lado, a necessidade de aumentar as expansões
territoriais são consequências do progresso, ou seja, Ratzel
vai justificar suas colocações com o conceito de "espaço
vital", em que este representa uma proporção de equilíbrio
entre a população e os recursos oferecidos para que se possa
suprir as suas necessidades. Dessa forma, é possível ver
a vinculação entre o projeto imperial alemão e as
formulações de Ratzel para a sua época, legitimando
assim o imperialismo bismarckiano.
A Geografia proposta por Ratzel privilegiava o ser humano,
e abriu várias frentes de estudo, valorizando assim questões
referentes à História e ao espaço geográfico
como a formação dos territórios, a dispersão
dos homens no globo, as distribuições dos povos e raças,
seus isolamentos, além de estudos que se referiam as áreas
habitadas. Tudo isto, baseado nas influências que Ratzel propôs
anteriormente. Ele manteve a idéia da Geografia como ciência
empírica, cujos procedimentos de análise seriam a observação
e a descrição, ao mesmo tempo em que proponha ir além
da descrição, buscando a síntese das influências
na escala planetária. De resto, ele manteve a visão de um
naturalista, ou seja, reduziu o homem a um animal ao não diferenciar
as suas qualidades específicas; dessa forma propôs o método
geográfico como análogo as demais ciências e concebia
a causalidade dos fenômenos humanos como idêntica a dos naturais.
Assim, Ratzel ao propor uma Geografia do Homem, entendeu-a como uma ciência
natural.
Os estudos de Ratzel influenciaram muitos outros autores,
sendo que suas colocações foram bastantes radicalizadas constituindo-se
assim a "escola determinista", ou do "determinismo geográfico".
Contudo, muitos desses estudiosos, empobreceram as teorias de Ratzel, por
excluírem as influências geográficas, ou seja, eles
estavam buscando evidências empíricas para as teorias formuladas.
Nomes como E. Semple e E. Huntington estiveram presentes nesta escola.
A primeira apresentou teorias que relacionava as religiões com os
relevos; nas regiões planas, predominavam as religiões monoteístas;
nas regiões acidentadas, as religiões politeístas.
Já para Huntington, ele determinou que as dificuldades do meio é
que fariam com que houvesse um maior desenvolvimento, e isto é explicado
na sua obra chamado Clima e sociedade. Além desta teoria, ele defende
a idéia de que os invernos rigorosos formaram o fator principal
para o desenvolvimento das sociedades européias, principalmente
no que diz respeito aos aspectos de estocagem de alimentos, abrigos, entre
outros.
Outro desdobramento da proposta de Ratzel manifestou-se
na constituição da Geopolítica. Esta corrente, dedicada
ao estudo da dominação dos territórios, partiu das
colocações ratzelianas, referente à ação
do Estado sobre o espaço. Os autores desenvolveram teorias e técnicas
que legitimavam o imperialismo. Ou seja, as formas de se conquistar e manter
os territórios. Entre esses autores, estavam Kjeilen, Mackinder
e Haushofen. O primeiro criou o rótulo Geopolítica. Já
o segundo, trouxe consigo temas e discussões a respeito dos domínios
das rotas marítimas, as áreas de influência de um país
e as relações internacionais. O último, um general
alemão e presidente da Academia Germânica no seu governo,
foi outro teórico da Geopolítica que deu um sentido bélico
definindo-a como parte da estratégia militar. Ele desenvolveu teorias
referentes à ação do clima sobre os soldados e criou
uma escola que mais tarde influenciaria o Nazismo.
Uma última perspectiva saída das formulações
de Ratzel, fora conhecida como escola "ambientalista". Esta mais recente,
não é considerada um ramo da Antropogeografia, embora tenha
sido Ratzel o responsável formulador das suas bases. Esta corrente
vai propor o estudo do homem em relação aos elementos do
meio em que ele está inserido. O conjunto dos elementos naturais
é abordado como o ambiente em que o homem vive. O ambientalismo
representa uma visão determinista bastante atenuada, ou seja, a
natureza é vista como um suporte da vida do ser humano e não
como determinação. O ambientalismo se desenvolveu modernamente
com o apoio da Ecologia. A idéia de estudar as relações
dos organismos que coabitam determinado meio, já estava presente
em Ratzel, devido a influência que sofreu de Haeckel, o primeiro
formulador da Ecologia.
Sendo assim, é notório que o desenvolvimento
da Antropogeografia de Ratzel ajudou não só o interesse imperialista
alemão de Bismarck, mas em entender as relações do
meio com os seres humanos. Entender acima de tudo, a importância
do meio em que vivemos, pode ajudar no desenvolvimento das sociedades não
só daquela época, mas de sociedades que poderão vir.
O que dignifica o trabalho de Ratzel, que veio a ser usado não só
pelo governo alemão, é saber que se transformou numa das
bases mais importantes para os estudos de outros ramos como a Ecologia,
e que aumentou cada vez mais a necessidade de se aprender a lidar com o
meio ambiente, que devido as inúmeras desenvolturas tecnológicas,
vem mudando constantemente a sua face.
Ratzel, Friedrich (1844-1904), German geographer, a founder
of modern political geography, the study of the environment's influence
on politics. After traveling as a journalist in Europe, Cuba, Mexico, and
the United States, Ratzel became professor of geography at the University
of Leipzig in 1886. His Anthropogeographie (2 volumes, 1882-1891) and Politische
Geographie (1897) stress the determining power of the physical environment
in conditioning human activity.