Promotor estima que grupos criminosos controlem a metade
do PIB do país
A queda nos preços das commodities estava provocando
ondas por todo o mundo. As ondas foram especialmente brutais na Rússia,
onde os principais produtos de exportação são petróleo
e gás e a verdade é que a economia russa estava caindo aos
pedaços.
Ninguém notou quase nada no começo. Como
ocorrera com a Ásia um ano antes, era fácil demais ficar
deslumbrado com as Mercedes-Benz pretas, os anéis de brilhante e
as discotecas abarrotadas. Em 1997, o mercado acionário russo teve
o melhor desempenho do mundo, subindo 149% em dólares, de acordo
com os cálculos da International Finance Corporation.
Nas lojas da GUM, Solomatin, o presidente, estava igualmente
otimista. Ele havia investido cada rublo que a GUM possuía no seu
colchão de ativos líquidos – na época, avaliados em
US$ 33 milhões – nos mercados de ações e bônus.
Parecia um bom negócio na ocasião, pois os bônus estavam
pagando juros de 100% ou mais.
Mas, nos bastidores, a economia russa estava mostrando
sérios sinais de estresse e vários desses sinais não
estavam relacionados à crise asiática. A arrecadação
de impostos era ridícula, o déficit fiscal estava crescendo,
bem como a dívida de curto prazo e a saúde do presidente
Boris Yeltsin pareciam estar sumindo.
Países asiáticos tinham tido problemas
com dívidas privadas, mas as mazelas da Rússia eram um pouco
diferentes: o próprio governo era viciado em dívida. E, com
um terço das receitas saindo dos impostos sobre petróleo
e gás natural, cujos preços não paravam de cair, era
difícil ver qualquer sinal de melhora.
"Acho que a principal razão para a nossa crise
não foi a crise asiática", disse Sergei Kiriyenko, que, aos
37 anos, tornou-se primeiro-ministro da Rússia, no ano passado.
"É que, por vários anos nossas despesas foram maiores que
nossas receitas." Em termos mais amplos, em contraste com a Ásia
e América Latina, onde os mercados já haviam criado raízes
mais profundas, a Rússia tinha apenas os mais tênues dos laços
com os princípios de mercado e estava sendo atropelada pela corrupção
e o crime organizado.
O promotor público federal russo Yuri Skuratov
estima que metade dos bancos comerciais do país sejam controlados
pela máfia e os criminosos administram cerca de metade do Produto
Interno Bruto.
Enquanto a economia russa se desintegrava na surdina,
o apoio público vindo dos Estados Unidos, Alemanha e outros países
reforçou a impressão de que, como disse um economista, a
Rússia era "nuclear demais para arrebentar". Em julho de 1998, o
governo Clinton acionou o FMI para um grande pacote de resgate, embora
as autoridades tivessem, privadamente, fortes dúvidas de que fosse
dar certo. No fim, o Fundo preparou um negócio de US$ 17,1 bilhões.
Talvez os americanos não tenham reparado direito
na crise que evoluía, mas os russos notaram – e seu comportamento
abala a noção de que em todo o mundo foram apenas os banqueiros
ocidentais que limparam os pobres habitantes locais. Na Rússia,
foi bem o oposto. A fuga de capitais da Rússia registrava média
mensal contínua de US$ 1 bilhão durante os últimos
três anos, mudando-se para lugares como a Grã-Bretanha e Suíça,
nos quais os russos sentiam que podiam confiar. A primeira tranche de US$
4,8 bilhões do pacote do FMI desapareceu rapidamente, pois os oligarcas
russos trataram de vender seus rublos e tirar o dinheiro do país.
Como Charles Dallara, do Institute of International Finance
em Washington, descreveu: "De maneira geral, tínhamos o Ocidente,
o FMI, bancos e governos ocidentais despejando dinheiro pela porta da frente
e um seleto grupo de cidadãos russos levando o dinheiro embora pela
porta dos fundos." Enquanto isso, o Parlamento russo torcia o nariz para
várias das reformas exigidas. Os investidores entraram em pânico
e no dia 17 de agosto as telas de computador estamparam a má notícia:
o resgate havia falhado, a Rússia deixou de defender o rublo e declarou
moratória aos detentores de títulos da dívida interna.
Da noite para o dia, os bônus não valiam praticamente nada
e os preços das ações caíram de dólares
para centavos.
Mesmo assim, Rubin diz que não se arrepende do
pacote de julho. "Eu faria a mesma coisa de novo", afirma ele. "Dado o
nosso interesse numa Rússia economicamente viável, era um
risco que valia a pena assumir. Havia uma chance realística." A
GUM, que vinha tentando registrar suas ações em bolsas estrangeiras,
naquele dia enviou faxes desconsolados aos bancos de investimento com que
mantinha relações, adiando indefinidamente aqueles planos.
A crise empurrou o rublo ladeira abaixo, do nível
de 6 por dólar para mais de 18 por dólar, de maneira que
todos os artigos importados na GUM (e a maior parte do estoque é
importada) tiveram seus preços triplicados bem quando os russos
estavam perdendo seus empregos.
As ondas de choque da moratória russa foram sentidas
em todo o mundo, em parte por terem estilhaçado a suposição
de que existia uma rede de segurança internacional. Os Estados Unidos
e o Fundo Monetário quiseram salvar a Rússia, mas seu fracasso
devolveu a sobriedade aos investidores, dando o sinal de largada para uma
nova corrida para bem longe do risco.
Depois da crise russa, os tumultos em mercados internacionais
quase destruíram o Long-Term Capital Management, o mais glamuroso
dos fundos de hedge americano. Mais de um ano antes, os fundos de hedge
ajudaram a detonar a crise financeira da Tailândia, pondo em movimento
uma reação em cadeia que no final voltou para levar o Long-Term
Capital para a beira do abismo.
O Long-Term Capital tropeçou pelas mesmas razões
que a Tailândia. Financistas americanos podem pensar que estão
a um mundo de distância dos banqueiros tailandeses, mas houve uma
certa simetria no que deu errado.
A Tailândia e o Long-Term Capital foram ambos vitimas
de seus próprios sucessos, que geraram esnobismo e descuido em relação
a riscos. Ambos também tomaram mais dinheiro emprestado do que deviam
e ficaram em apuros quando suas apostas deram errado. E, por questão
de justiça, ambos tiveram uma certa dose de má sorte.
Sobre quando resgatar
A moratória russa esbarrou no Brasil, que durante
algum tempo perdeu dinheiro de reservas cambiais na base de US$ 1 bilhão
por dia. Assim, quando o Brasil cambaleou, os Estados Unidos prepararam-se.
Em novembro de 1998, o governo brasileiro concordou com um pacote de resgate
de US$ 41,3 bilhões do Fundo, que Clinton organizou depressa, enquanto
o Brasil ainda estava solvente. Para os Estados Unidos, foi uma virada
notável. Pouco mais de um ano antes, o governo Clinton havia-se
recusado a contribuir para o resgate da Tailândia e boicotou o plano
do Japão para distribuir ajuda. Desta vez, o próprio Clinton
liderou a intervenção e os Estados Unidos entraram com US$
5 bilhões no pacote.
Contudo, foi uma má aposta. Apesar do amplo reconhecimento
de que a moeda brasileira, o real, estava supervalorizado, Washington cometeu
essencialmente o mesmo erro que havia cometido com a Rússia: confiou
que os Legisladores aprovariam rapidamente reformas capazes de acalmar
investidores. Mais uma vez os mercados venceram e em janeiro o Brasil foi
forçado a deixar flutuar o real.
Por sua vez, o colapso da moeda forçou o Brasil
a aumentar as taxas de juros para tentar atrair dinheiro externo – a receita-padrão
que havia sido aplicada um ano antes na Indonésia ou na Coréia
do Sul. E os altos juros, por sua vez, estão deprimindo a economia
brasileira e espalhando uma nuvem escura sobre a Argentina, o México
e toda a América Latina.
Na Aracruz, Aguiar assistiu solenemente à queda
das ações de US$ 22 no verão de 1997 para US$ 11,81
na terça-feira.
Através dos anos ele tem adotado medidas desesperadas
para competir globalmente, reduzindo a força de trabalho da Aracruz
em quase dois terços, reduzindo benefícios médicos
e dentários, e mudando para uma empresa que forneça refeições
mais baratas no restaurante da companhia.Só depois que a crise atacou,
no outono, ele reduziu o staff em mais 10%, e está rezando para
que seja suficiente.
Do outro lado do globo, na sala do conselho deliberativo
da GUM, no terceiro andar, Solomatin tem uma vista grandiosa da Praça
Vermelha - e uma vista horrorosa do futuro de sua companhia. Todos os planos
para a empresa estão parados; o dinheiro aplicado nos títulos
sob moratória está trancado; a soma do valor das ações
agora é de apenas US$ 36 milhões, mais ou menos o custo de
estoque.
Isso faz da GUM uma candidata para ser absorvida por
uma empresa estrangeira e há rumores de que duas empresas européias
estão de olho no empreendimento. Mas Solomatin parece céptico.
"Quem iria absorver-nos?" ele perguntou. "O medo que os investidores têm
da Rússia é tão grande que ninguém iria pensar
em comprar-nos."