"Uma doença social percorre a Terra, contaminando
as nações com a pestilência da morte. O terror colhe
sua safra sinistra em todas as partes do planeta."
Este o início de um dos muitos editoriais de jornais
publicados nos últimos tempos sobre o terrorismo no mundo. As nações
assistem perplexas ao aumento quase inacreditável desse tipo de
violência que com carros-bombas, cartas-bombas e até homens-bombas,
dilacera cidadãos e abala governos, em nome de causas religiosas,
políticas, econômicas, sociais, étnicas…
O jornalista Luis Carlos Lisboa resumiu desta forma (muito
apropriadamente) a sua visão do fenômeno: "Entre os horrores
de um final de século apocalíptico, que incluem a corrupção
moral generalizada e a indiferença diante da pobreza absoluta, surge
da sombra o terrorismo para mostrar ao mundo o lado mais cruel do homem."
O terrorismo é um fenômeno típico
do século XX. Crimes e guerras sempre existiram na história
conhecida da humanidade, mas os atos terroristas, que em violência
podem ser situados entre esses dois, é uma característica
do nosso século.
É verdade que em séculos passados houve
atentados contra autoridades e órgãos públicos, mas
estes quase sempre resultaram da ação deliberada de uma pessoa
ou no máximo de um grupo formando um complô, montado exclusivamente
com aquele objetivo e que após consumado o atentado se dissolvia.
O terrorismo é diferente. Trata-se de grupos organizados
que agem sob uma bandeira qualquer, sempre com o objetivo de destruir.
Todos os membros desses grupos estão absolutamente convencidos da
nobreza de suas causas e da justeza de suas ações. Na correta
análise do jornalista francês Gilles Lapouge, "esses assassinos
cegos consideram-se santos, heróis, pessoas sacrificadas, que hoje
provocam a desgraça com o objetivo de preparar a felicidade do amanhã."
O termo "terrorismo" apareceu pela primeira vez em 1798,
no Suplemento do Dicionário da Academia Francesa. Referia-se ao
regime de terror em que a França mergulhou entre setembro de 1793
e julho de 1794. Alguns historiadores denominam também de terrorismo
a onda anarquista que grassou na Europa em fins do século XIX.
Os primeiros atos terroristas com as características
que hoje conhecemos apareceram em 1912, quando um grupo de macedônios,
hostis à Turquia, começou a colocar bombas nos trens internacionais.
Por essa época, no início do século, os dicionários
ainda traziam uma singela explicação para o termo terrorista:
"Pessoa que espalha boatos assustadores; que prediz catástrofes
ou acontecimentos funestos; pessimista."
Como veremos mais à frente, daquela época
até os nossos dias, o número de organizações
terroristas e suas ações aumentaram em progressão
geométrica, a tal ponto, que hoje é raro passar uma semana
ou mesmo alguns dias sem o registro de uma ação terrorista
de porte em alguma parte do mundo. Em 1970 foram registrados 300 atentados
terroristas no mundo, em 1975 foram 349 e em 1980 foram 500 atentados.
O comum hoje, e que já está se tornando
normal, é a ocorrência de várias ações
terroristas simultâneas. Um outro extrato do editorial jornalístico
mencionado no início deste tópico dá uma imagem clara
da situação em que vive o mundo atualmente: "Em uma só
rodada, um suicida explode um ônibus em Tel-Aviv; um trem vai pelos
ares em Paris; um carro-bomba mata perto de Argel; vírus de antraz
foram espalhados pelas ruas de Tóquio; no Peru uma mina detona sob
um caminhão; na Índia é uma motocicleta carregada
de explosivos; na Colômbia um ataque a dinamite. (…) O contágio
é universal. Diferenças entre chechenos e russos são
resolvidas num país báltico. A virtual guerra civil argelina
traslada-se para Paris. Um desequilibrado de Michigan mata em Oklahoma
para se vingar de algo ocorrido no Texas. O ódio anti-semita explode
em Buenos Aires. O vingativo fundamentalismo egípcio faz ninho onde
Paraguai, Argentina e Brasil confluem."
Esta sinopse pode ser complementada com o extrato do
editorial a seguir, publicado num periódico logo após um
novo ataque suicida do grupo extremista Hamas ("Fervor") em Israel: "Da
Argentina à Espanha, dos Estados Unidos ao Japão, nenhum
país pode considerar-se a salvo desse inimigo [o terrorismo] que
se move nas sombras, escolhe suas vítimas ao acaso e já está,
na avaliação de especialistas, na iminência de ter
acesso aos recursos da energia nuclear, com seu poder apocalíptico
de destruição."
Que o terrorismo, hoje, já atingiu o mundo todo,
demonstram as notícias sobre a explosão de cartas-bomba e
carros-bomba em países tão diferentes entre si como: Suíça
e Albânia, Inglaterra e Paquistão, Áustria e Etiópia,
Espanha e Sri Lanka.
O chamado "terrorismo de estado" é algo à
parte. Pois nesse caso a violência dos governantes em relação
à população se estende geralmente durante vários
anos, às vezes por décadas, e as vítimas são
contadas em dezenas de milhões. Seria mais apropriado denominar
esses acontecimentos de genocídios ou guerras civis abertas, invariavelmente
desencadeadas "em nome do estado", "da segurança nacional", "contra
anti-revolucionários", "contra subversivos", etc. Em todos os casos
a motivação é política (veja alguns exemplos
no tópico Política).
Mas voltemos à história do surgimento do
terrorismo, que vai crescendo em nosso século no mesmo ritmo em
que os anos se vão transformando em décadas.
Em seqüência às ações
dos terroristas macedônios de 1912, o mundo conhecia a primeira das
últimas três guerras mundiais que assolariam a humanidade
antes de se ter consumado o Juízo1. Após a Primeira Guerra
Mundial, algumas nações começaram a ajudar grupos
revolucionários de outros países. A Itália e a Hungria,
por exemplo, apoiaram nessa época os revolucionários croatas.
Em 1920, um dos expoentes da revolução russa, Leon Trotski,
preconizava que o terror era a "continuação natural da insurreição
armada", e que a intimidação era o "mais poderoso meio de
ação política"2…
Depois da Segunda Guerra Mundial, particularmente a partir
dos anos 60, o financiamento estrangeiro ao terrorismo tornou-se regra.
União Soviética, Argélia e Líbia, entre outros,
fomentaram o terrorismo no mundo, o qual, a partir dessa época fazia
o "trabalho sujo" da política internacional.
A década de 70 foi a época do apogeu das
grandes organizações terroristas de cunho eminentemente político,
como as "Brigadas Vermelhas" na Itália, a "Ação Direta"
na França, o "Baader Meinhof" na Alemanha. Seqüestros e grandes
atentados à bomba foram a marca registrada desses grupos.
Nas décadas de 80 e 90 o terrorismo se disseminou
em inúmeras organizações espalhadas pelo mundo, todas
elas tendo como objetivo último a destruição. No próprio
Oriente Médio, que sempre esteve mergulhado em violência e
sangue desde o final da Segunda Guerra, os atos terroristas eram acontecimentos
esporádicos durante as décadas de 50 e 60; porém,
a partir da década de 80 o terrorismo se espalhou na região
como um câncer incontrolável, atingindo tanto o bloco muçulmano
como o israelita.
Há hoje várias dezenas, talvez centenas
de grupos terroristas atuando em todos os cantos do planeta. Algumas dessas
organizações ostentam nomes absurdos, incríveis mesmo,
quando comparados às suas formas de ação e seus objetivos:
Grupo Antiterrorista de Libertação (Espanha – anos 80), Partidários
do Direito e da Liberdade (França – anos 80), Grupo da Justiça
Internacional (Egito – 1995), Hezbollah — Partido de Deus (Israel – anos
80 e 90). Há também nomes esdrúxulos, como: Tigres
da Libertação Tâmil, Células do Mártir
Engenheiro, Frente Tigre de Libertação da Bodolândia.
Nos anos 90 a tônica dos atentados terroristas
são os carros-bombas e os "mártires" suicidas, que com explosivos
presos a seus corpos procuram causar o maior número possível
de mortes e destruição, geralmente em locais com grande concentração
de pessoas, como a saída de uma escola, um ônibus lotado,
etc. Na França, chegou-se ao ponto de proibir os pais de acompanhar
seus filhos até dentro das escolas, pois terroristas poderiam infiltrar-se
entre eles e provocar uma tragédia. Em agosto de 95, a polícia
francesa conseguiu desativar uma bomba que se verificou posteriormente
estar cheias de parafusos e pregos, o que demonstrava a intenção
de causar o maior número possível de vítimas fatais
ou de feridos.
A Europa, aliás, é o campo preferido da
atuação do terrorismo mundial. De acordo com o cômputo
do Jane's Word Insurgency Terrorism, em 1996 houve 121 ações
terroristas no continente europeu.
Mas as novidades no campo do terror não se restringem
apenas à explosão de "idealistas kamikases". Já há,
pois, quem alerte contra possíveis atentados com armas nucleares
e sabotagens cibernéticas. Em relação à primeira
possibilidade, só podemos acrescentar que é cada vez maior
o número de apreensões em vários países de
material radioativo roubado (veja os últimos casos registrados no
tópico Conflitos Bélicos). O general russo Alexander Lebed
alertou o mundo que seu país produziu armas atômicas portáteis
durante a guerra fria, chamadas de "maletas nucleares"; ele não
tem certeza se todas elas estão sob controle do governo da Rússia,
e manifestou preocupação ante a possibilidade de os cientistas
que as construíram venderem seus conhecimentos para grupos terroristas.
Quanto à segunda possibilidade, só há
conjecturas por enquanto. Imagina-se, por exemplo, que podem ser criadas
armas de rádio-freqüência de alta energia, capazes de
inutilizar um alvo eletrônico qualquer, como cabines de aviões
ou controles de tanques e mísseis. "Bombas lógicas" poderiam
paralisar os mercados financeiros e destruir os registros de transações...
Ficção? Utopia? Todos nós esperamos que sim. Contudo,
já vimos até aqui exemplos bastante concretos do que a índole
do ser humano é capaz de realizar...
Sempre que uma tragédia humana atinge proporções
inesperadas, os governos dos países se reúnem para tratar
do assunto e tomar deliberações. Com o terrorismo não
é diferente. Em março de 1996 teve lugar no Egito a "Conferência
Internacional dos Pacificadores", reunindo 27 países. As resoluções
da conferência, resumindo, foram: "repúdio ao terrorismo",
"apoio às iniciativas de paz", "criação de uma comissão
para preparar recomendações sobre a melhor maneira de por
em prática as decisões tomadas". Um resultado tão
pífio que mostra claramente, mais uma vez, a incapacidade de a humanidade
se defender com êxito dos seus maus efeitos retroativos.
E acompanhando durante certo tempo as notícias
sobre esse efeito retroativo tão sanguinário, pude constatar
que a repercussão de um atentado depende mais do local onde ele
é praticado do que dos danos que causa. A desativação
de três bombas colocadas por terroristas argelinos em Paris teve
muito mais espaço na mídia do que a notícia da explosão
de um caminhão-bomba no Sri Lanka, que matou cerca de 500 pessoas
segundo informações do governo local. A explosão de
um carro-bomba na Croácia abalada pela guerra sequer foi noticiada
pelos jornais.
Isso mostra duas coisas. Primeiro, que a violência
terrorista praticada em regiões menos conhecidas do planeta é
considerada como algo absolutamente corriqueiro, natural, típico
dessas regiões ou de nossa época, não causando mais
a menor comoção. Em algumas décadas passadas um desses
atentados teria sido noticiado nas primeiras páginas dos jornais,
seguidos de comentários indignados e cheios de perplexidade; hoje,
quando muito, aparece perdido num canto de página, juntamente com
outras notícias internacionais "comuns", como furacões e
terremotos. Em segundo lugar, o desejo das pessoas de não querer
ver ou de não querer saber sobre o aumento das tragédias
em nosso tempo, reflete-se, muito naturalmente, na forma e disposição
das notícias veiculadas pela imprensa. Em razão disso, essas
notícias também não mostram a realidade dos fatos.
Por isso, pode-se afirmar com segurança que, apesar de todo o horror
mostrado pelas notícias sobre atentados terroristas, a situação
real no mundo é muito pior.
A título de ilustração, indica-se
abaixo os dados coletados de notícias efetivamente veiculadas pelos
jornais durante um período de oito meses, abrangendo as ações
terroristas de grande porte no mundo3:
Atentado a gás:
1
Atentados com cartas-bombas e pacotes-bombas:
3
Explosões detonadas por terroristas suicidas:
6
Atentados praticados com armas de fogo:
10
Explosões de bombas programadas:
18
Atentados com carros-bombas:
24
—
TOTAL :
62
Países atingidos:
254
A maior parte dos atentados terroristas dos últimos
anos foram praticados com carros-bombas ou caminhões-bombas, detonados
por controle remoto, e também através de motoristas suicidas,
como foi o atentado contra a força multinacional estacionada em
Beirute em 1983 — o pior até hoje registrado (março de 1997)
— onde morreram 241 americanos e 58 franceses. As embaixadas americanas
nessa região do mundo são hoje verdadeiras fortalezas, com
portas de aço de 30 cm de espessura e vidros à prova de bala.
Os atentados suicidas praticados com carros, e também
aqueles onde o terrorista explode bombas presas em seu próprio corpo
são, em sua quase totalidade, praticados por fanáticos religiosos.
Esses extremistas acreditam estar participando de uma "guerra santa", e
assim nada mais fazem senão executar uma determinação
divina quando exterminam os infiéis, isto é, todos os que
não professam a mesma crença. Um dirigente religioso egípcio
chegou a afirmar: "Aqueles que não se engajam na violência
em nome [da doutrina] não são [fiéis] e não
representam [a doutrina], são criminosos que devem ser punidos."
Os extremistas muçulmanos que praticam atentados
suicidas acreditam que suas ações lhes garantem o direito
de ingressar no Paraíso, onde terão dezenas de virgens
à sua disposição para satisfazê-los sexualmente.
Também lhes é assegurado que suas famílias farão
jus a vagas reservadas no Paraíso… Talvez seja por isso que a família
de um terrorista suicida colocou na entrada da casa, para recepcionar as
pessoas que foram oferecer condolências, pequenos cartazes com os
dizeres: "Não aceitamos pêsames, e sim congratulações."
Na Argélia, o Grupo Islâmico Armado (GIA)
— ala radical da insurreição islâmica especializada
em terrorismo urbano — invoca a prática do Mut'a (casamento temporário),
para abordar as famílias e exigir suas filhas. Às vezes,
quando não as consegue, o grupo corta a garganta das moças
em represália. Em seis anos, as ações terroristas
do GIA deixaram o país mergulhado na guerra civil, com mais de 65
mil mortes. Os terroristas chegaram ao requinte de criar uma máquina
de degolar: uma espécie de guilhotina rudimentar, transportada em
caminhão e utilizada inclusive em mulheres e crianças. Em
alguns casos, as mulheres têm o couro cabeludo arrancado e o ventre
aberto a facadas antes de serem degoladas… Os ativistas do GIA degolam
suas vítimas para que elas não possam gritar o nome de Alá,
pois assim acreditam que elas ficarão impedidas de ingressar no
Paraíso.
Todas as formas de ódio alimentadas continuamente
pelos povos da região ajudam a manter o terrorismo sempre atuante.
No mundo palestino, as letras de rock do grupo Hamas, incentivando à
guerra santa e aos ataques suicidas contra os israelenses, vendem mais
do que qualquer outro gênero nas lojas de disco. No Egito, mulheres
muçulmanas que se convertem ao cristianismo são violentadas
e os homens assassinados. O assassino do presidente egípcio Anuar
Sadat foi homenageado com um selo postal e nome de rua no Irã.
Mas a insanidade religiosa, é bom esclarecer,
utilizada como justificativa para atos terroristas, não é
exclusividade de extremistas muçulmanos. Um rabino ultra-ortodoxo,
assassinado em 1990 em Nova York, costumava ensinar a seus alunos que "a
violência de judeus contra não judeus é sagrada…"
Em fevereiro de 1994, o extremista judeu Baruch Goldstein
entrou na mesquita da cidade de Hebron, onde uma multidão de fiéis
árabes estava reunida para a oração da sexta-feira,
e disparou diversas rajadas de fuzil, matando 29 pessoas e deixando 125
feridas, antes de ser morto pelos sobreviventes. No túmulo desse
terrorista sanguinário está escrito: "O santo Dr. Baruch
Goldstein, morto quando santificava o nome de Deus." Sobre esse túmulo,
um grupo de judeus radicais construiu uma espécie de templo.
Logo após o assassinato do primeiro ministro de
Israel, Yitzhak Rabin, por um terrorista judeu em novembro de 1995, apareceram
nos noticiários televisivos cenas inconcebíveis: extremistas
judeus de um lado e extremistas árabes de outro festejando com o
mesmo ardor aquele assassinato. Ambos os grupos estavam satisfeitos por
poderem continuar com a sua justa "guerra santa". O jornalista Issa Goraieb
comentou desta forma o espetáculo dantesco: "Os ‘ultras’ judeus
e os ‘ultras’ muçulmanos celebrando com a mesma alegria o trágico
acontecimento. (…) Os loucos de Jeová revelando-se aliados objetivos
dos loucos de Alá, já que uns e outros se opõem violentamente
a uma paz de compromisso e desejam perpetuar uma guerra que chamam de ‘santa’,
convencidos de que ela é comandada de fato pelo Criador."
Mais alguns exemplos do grau de demência que os
grupos terroristas lograram atingir: Depois um atentado suicida duplo num
mercado de Jerusalém, a organização extremista Hamas
expediu o seguinte comunicado: "Em nome e com a benção de
Deus, a Unidade de Mártires das Brigadas do Qassam para libertação
de prisioneiros declara sua responsabilidade pela operação
de martírio em Jerusalém." Numa outra ocasião, depois
que seu principal fabricante de bombas foi morto, a mesma organização
divulgou um vídeo em que um de seus líderes afirmava: "Pelo
mérito de nossa guerra santa e dos combatentes sagrados em nossas
fileiras, levaremos tristeza e horror ao coração e à
casa de todo sionista." Numa entrevista concedida a um jornal francês,
um dos líderes do GIA afirmou que era irrelevante o fato de mulheres
e crianças estarem sendo assassinadas pelo grupo na Argélia,
pois segundo ele "Alá reconhece imediatamente os inocentes". Num
outro comunicado, o GIA declarou: "Nós somos o grupo que mata, trucida,
queima e pilha com a permissão de Deus."
Constata-se de forma muito nítida que na década
de 90 o terrorismo político foi sobrepujado pelo religioso. A diferença
agora é que os crimes são cometidos sob a invocação
do Criador, assim como já ocorrera na época da Inquisição.
Esta circunstância bizarra não escapa ao questionamento de
muitos, que não encontram resposta para uma tal inversão
de conceitos e valores. Em novembro de 1995, o jornalista francês
Gilles Lapouge perguntava perplexo: "Por qual aberração,
sob o peso de qual fatalidade, as religiões do amor se transformam
nesse formidável instrumento de assassinato, de negação
do outro, de desprezo e ódio?"
A resposta para isso, assim como para todos os outros
flagelos que castigam a humanidade nesse final de século é,
como já foi dito, o efeito das irradiações julgadoras
do Juízo Final que, ao forçar a exteriorização
de tudo, de todo o mal, retribui a cada nação, a cada povo
e a cada ser humano em particular, aquilo que foi gerado outrora. Quem
em outras vidas provocou sofrimento, morte e destruição,
não pode esperar nada de diferente agora, na época do acerto
final de contas.
Não é possível descrever todo o
horror que o terrorismo já proporcionou ao mundo neste nosso século.
Uma breve sinopse de alguns fatos mais relevantes, porém, servem
para dar uma idéia do ponto a que já chegou essa materialização
do ódio humano:
Uma estatística demonstra
que houve apenas um grande atentado no século XIX nos Estados Unidos,
quando em 4 de maio de 1886 um grupo de anarquistas fez explodir uma bomba
durante uma passeata de sindicalistas em Chicago, matando 11 pessoas e
ferindo mais de cem. Já na segunda metade do século XX os
atos terroristas foram se sucedendo ininterruptamente ao longo das décadas,
e somente no período compreendido de 1989 a 1993 o FBI qualificou
32 atentados como sendo produtos do terrorismo em solo americano.
Nos Estados Unidos, um terrorista
desconhecido enviou cartas-bombas pelo correio desde 1978, na tentativa
de combater a "revolução industrial". Até agosto de
1995 ele já havia matado 3 pessoas e ferido outras 235.
Em 15 anos de atividades, o
grupo terrorista peruano "Sendero Luminoso" provocou 25 mil mortes e danos
de mais de 22 bilhões de dólares.
Em 1986, um terrorista árabe
explodiu o Boeing em que viajava, matando 166 pessoas.
Em dezembro de 1988, uma bomba
fez um avião explodir sobre a cidade escocesa de Lockerbie, matando
270 pessoas. O atentado foi atribuído a terroristas líbios.
Em julho de 1994, um carro-bomba
destruiu o prédio de uma entidade israelita na Argentina, matando
98 pessoas.
Nos Estados Unidos, no ano de
1994, a Ku Klux Klan, uma das 17 mil organizações racistas
atuantes no país, cometeu 18 assassinatos, 146 agressões,
228 atos de vandalismo e provocou 12 incêndios.
Em março de 1995, uma
seita apocalíptica japonesa, intitulada "Ensino da Verdade Suprema"6
cometeu um atentado com gás venenoso no metrô de Tóquio,
matando 12 pessoas e intoxicando cerca de cinco mil.
Em abril de 1995, um grupo terrorista
americano de extrema direita destruiu com um carro-bomba um prédio
federal na cidade de Oklahoma, nos Estados Unidos, matando 168 pessoas
e ferindo 460. O especialista em terrorismo, Laird Wilcox, declarou: "O
estado geral das pessoas que costumam refletir sobre a realidade do país
é de estarrecimento e confusão mental."
Mais de cem pessoas morreram
em vários ataques suicidas em Israel, desde setembro de 1993, com
explosões dentro de ônibus. Testemunhas falaram de cabeças
e membros voando pelas janelas dos coletivos. Uma dessas explosões
foi tão poderosa que restos humanos foram encontrados nos andares
superiores de edifícios das redondezas. O Hamas prometeu suspender
as ações contra Israel se o governo daquele país "parasse
com o terrorismo contra o grupo".
Em setembro de 1995, as "Forças
de Libertação do Calistão" explodiram duas bombas
na Índia, ferindo 50 pessoas, com o objetivo manifesto de "por um
fim às atrocidades cometidas pelas autoridades contra a minoria
sikh".
De janeiro a julho de 1995 a
Colômbia registrou 592 seqüestros, repartidos entre quatro organizações
terroristas que atuam no país. Em dezembro de 1996, 600 municípios
do país, de um total de 1024, haviam registrados ações
terroristas, contra 173 municípios nesta situação
em 1985.
Nos meses de setembro e outubro
de 1995 a França sofreu seis atentados terroristas, um por semana.
Em janeiro de 1996, a explosão
de uma bomba no prédio do Banco Central do Sri Lanka matou cem pessoas.
Em março de 1997, dois
terroristas suicidas, cada qual transportando 10 quilos de TNT misturados
com pregos, explodiram seus corpos num mercado de Jerusalém, matando
13 pessoas e ferindo 170. (De acordo com especialistas em explosivos, 100
gramas de TNT são suficientes para provocar a ruptura de uma tonelada
de rocha).
Em abril de 1997, num massacre
de 31 civis na Argélia, três mulheres grávidas tiveram
o ventre aberto e os fetos arrancados.
Em agosto de 1997, na Argélia,
entre 100 e 300 pessoas foram degoladas ou queimadas vivas pelo GIA.
Em setembro de 1997, um atentado
suicida triplo matou quatro pessoas e feriu 192 em Jerusalém. Uma
testemunha conta que a medula espinhal de um dos terroristas entrou dentro
da sua loja e a cabeça parou diante da porta de entrada. Ainda em
setembro, 252 pessoas foram degoladas ou executadas a tiros pelo GIA. Um
repórter da agência France Presse descreveu dessa forma o
local da tragédia: "É um cenário de horror. Corpos
de adultos e crianças mutilados e carbonizados, casas fumegando...
" O primeiro ataque ocorreu um dia depois de o chefe do governo argelino
ter ocupado a televisão para anunciar que "o terrorismo residual
estava praticamente extinto." Uma sobrevivente do segundo ataque contou
que os terroristas jogavam bebês dos terraços das casas e
os despedaçavam com machadadas. O mês terminou com os terroristas
degolando 11 professoras de uma escola rural diante dos olhares apavorados
dos alunos. Os que conseguiram escapar disseram que durante a ação
os extremistas gritavam: "Sangue! Sangue! Destruição! Destruição!"
Em outubro de 1997, uma bomba
matou 15 pessoas no Sri Lanka e feriu pelo menos 110, no que foi considerado
"um dos mas graves episódios de violência nos 14 anos de guerra
étnica." Em novembro de 1997, um ataque de integristas islâmicos
a um grupo de turistas no Egito deixou um saldo de 57 mortos. Uma sobrevivente
disse que os terroristas dançavam entre os cadáveres gritando:
"Alá! Alá!" O Ministro do Turismo, procurando minimizar o
acontecimento declarou o seguinte: "É um fato da vida que
estejamos num mundo violento."
O ano de 1998 começou
com algumas centenas de argelinos queimados vivos e 117 degolados em mais
dois ataques do GIA em janeiro.
"Estamos provavelmente à beira de um novo período
da História. O maior trabalho dos governos ocidentais, nos próximos
anos, deverá ser a luta sem piedade contra todas as formas imagináveis
de terrorismo. Se perderem essa luta, nossa civilização corre
o risco de sofrer ferimentos irreparáveis."
Esse desabafo de Gilles Lapouge, quase sem esperança,
é compreensível em vista da situação caótica
provocada pelo terrorismo no mundo. A solução, contudo, não
está nas mãos dos homens. Nenhuma autoridade constituída
tem o poder de eliminar essa doença do século XX, pois ela
faz parte do processo de fermentação e depuração
por que atravessa a humanidade. Como produto das trevas, o terrorismo só
pode atingir as próprias trevas. Essas, porém, não
poderão subsistir ao Juízo Final, apenas continuarão
agindo ainda durante certo tempo, até se destruírem mutuamente
de forma total. Mas, nessa ação de auto-aniquilamento, as
trevas se comportam na verdade como instrumentos da Luz. Elas são
obrigadas a servir a Luz durante o Juízo Final, ao terem de colaborar
de forma ativa, compulsoriamente, para a limpeza na Criação.
Notas de Texto
1. A eclosão da Terceira Guerra Mundial é
inevitável, por ser um retorno cármico coletivo da humanidade.
Ver, a respeito, O Livro do Juízo Final, de Roselis von Sass. voltar
2. Trotski foi assassinado no México em 1940,
a mando de Stalin. voltar
3. Não há menção sobre mortos
e feridos por serem muito díspares as informações
a respeito. O fundamental é considerar que cada ato terrorista tem
o objetivo de causar o maior número possível de danos e vítimas.
Voltar
4. Os 25 países atingidos naquele período
(alguns por várias vezes) foram: Japão, Espanha, Estados
Unidos, Peru, Iêmen, Colômbia, Portugal, Israel, França,
Argélia, Sri Lanka, Canadá, Finlândia, Geórgia,
Índia, Macedônia, Áustria, Arábia Saudita, Croácia,
Azerbaijão, Iraque, Angola, Paquistão, Afeganistão
e Egito. Voltar
5. O terrorista solitário, apelidado de "Unabomber",
acabou sendo identificado e preso em 1996. Voltar
6. É realmente um escárnio das trevas que
a palavra Verdade seja colocada no nome de uma agremiação
como esta. voltar