Neresgton Ribeiro Mendes Neto.
No dia 21 de fevereiro de 1947 a Embaixada britânica em Washington
entregou ao Departamento de Estado duas notas relativas ao futuro da política
britânica na Grécia e na Turquia. A Grã-Bretanha pretendia
retirar suas tropas desses países.
Essas duas notas deram margem a uma serie de decisões que
muito tem influenciado o teor geral da política externa americana
desde então. Essas decisões - que foram posteriormente batizadas
pelos jornalistas de Doutrina Truman - conduziram os eventos que se seguiram
a Segunda Guerra Mundial a um desenvolvimento diverso daquele ocorrido
após a Primeira Grande Guerra. A diferença se situa sobretudo
entre isolacionismo e participação na política mundial.
A Doutrina Truman, embora tenha aflorado a partir da situação
na Grécia e na Turquia, não tem sua importância ligada
a esses países, mas sim ao anuncio das intenções americanas
com relação ao seu próprio papel no mundo. Ela foi
um alerta dirigido tanto aos adversários quanto aos aliados em potencial.
Mostrava que os Estados Unidos estavam se preparando para assumir a liderança
de uma coalizão do status quo, coalizão essa que vigoraria
entre as grandes potências capitalistas.
A decisão formal foi anunciada pelo Presidente Harry Truman
e seu secretario de Estado, o General George C. Marshall, mas o verdadeiro
idealizador dessa política foi indubitavelmente o subsecretário
de Estado, Dean Acheson. Alem de defender os interesses ocidentais, seu
espirito temia sobretudo um aumento do poderio da União Soviética:
Ele definia a situação mundial, nos primeiros meses de 1947,
da seguinte maneira: "Havia poucas probabilidades de que as instituições
governamentais, políticas e econômicas da Europa ocidental
pudessem sobreviver ao fim de cada esperança e a drástica
privação de suas necessidades elementares que se seguiria
a exaustão da capacidade de compra no exterior. A probabilidade
esmagadora era de que o controle - com a exceção da Grã-Bretanha
- passasse para aqueles que tivessem a audácia e a organização,
alem do apoio estrangeiro, para assumir poderes ditatoriais, e que pudessem
apresentar-se como advogados de seus países junto a potência
que controlava todos os recursos desde a Polônia ate as províncias
marítimas do Pacifico. "Essa situação - mais do que
qualquer apelo intrínseco do comunismo, mesmo o estimulado por uma
propaganda bem organizada e eficiente que pode ter levado os dirigentes
do Kremlin a pensar que estariam a ponto de conquistar o maior prêmio
da História sem qualquer esforço militar de sua parte: um
sistema de poder que se estenderia do Pacifico ao Atlântico, incluindo
o Mediterrâneo e o norte da África, e a maior parte da população
e dos recursos mundiais".
Essa avaliação das perspectivas tal como, supunha
Acheson, estariam sendo vistas pelo Kremlin, não coincidia exatamente
com a visão do próprio Stalin. Homem cauteloso, esse ultimo
sempre tendia a insistir no fato de que a burguesia mantinha-se forte por
toda a parte, ate mesmo na China, onde a vitoria comunista demoraria apenas
mais dois anos. Os russos estavam bem menos otimistas do que Acheson supunha
a respeito do "maior prêmio da Historia", a ser conquistado "sem
qualquer esforço militar de sua parte". Não obstante isso,
o Departamento de Estado norte-americano tinha razoes suficientes para
receber com agrado a nota britânica sobre a Grécia e a Turquia,
utilizando-a como pretexto para dramatizar o que considerava um desgaste
decisivo do poderio ocidental. Por mais de um ano, os responsáveis
pela política externa americana vinham procurando a melhor maneira
de enfrentar o que alegavam ser uma tendência inexorável da
União Soviética para expandir-se, especialmente em direção
ao sul e a oeste. Até então, seus esforços para chamar
a atenção sobre o problema tinham encontrado pouca ressonância.
O embaixador americano, George Kennan, por ocasião de sua estada
em Moscou no inicio de 1946, fornecera uma longa analise dessa suposta
propensão soviética e sugerira que fosse contida. Mas, recém-saído
da guerra, o Congresso dos Estados Unidos não se mostrava inclinado
a qualquer esforço ou risco excessivo ao nível internacional.
Parecia improvável que o Congresso mudasse de opinião, pois
a maioria no Senado era republicana, e Truman, que na época não
era um político de muito prestigio, não estava em condições
de impor uma política impopular. Por outro lado, também não
sofria grandes pressões nesse sentido, pois o Departamento de Estado
tinha, então, pouca influencia junto ao presidente. É verdade
que o predecessor de Acheson como secretário de Estado, James Byrnes,
já indicara a direção que a política externa
poderia seguir (ou pelo menos a direção que o Departamento
de Estado desejava que seguisse), num discurso por ocasião da crise
do Irã: "Embora o status quo não seja sagrado nem imutável,
não podemos negligenciar a sua corrosão (. . . ); não
podemos permitir que sejam realizadas agressões por meio de coerção,
pressões ou subterfúgios". Mas não houve resposta
a esse alerta e mesmo as relações entre Byrnes e Truman não
eram das melhores. O que abriu caminho para uma nova política foi
a ascensão do General George Marshall ao cargo de secretario de
Estado e o conseqüente aumento do poder de Acheson, enquanto Chefe
do Estado-Maior de Marshall, encarregado da formulação da
política externa.
Acheson era um homem combativo e seguro de si, impaciente com os
que apresentavam duvidas, hesitações e disposição
para pensar e repensar as questões. Sua objetividade e clareza na
exposição de seus propósitos permitiram-lhe estabelecer
boas relações com os três homens mais importantes para
a condução de sua política: o Presidente Truman, o
Senador Vandenberg (presidente temporário do Senado) e Ernest Bevin,
na Grã-Bretanha.
O fato de a Embaixada britânica ter entregue (talvez não
por acaso) as notas sobre a Grécia e a Turquia numa sexta-feira
de um longo fim de semana, no qual Marshall estaria ausente de Washington,
e a dez dias de sua partida para Moscou, realça ainda mais o grau
de controle que Acheson tinha (e continuaria a ter) sobre a política
externa norte-americana. Contudo, a ocasião da entrega refletia
de fato os problemas que assolavam a Grã-Bretanha. O inicio de 1947
fora o pior momento do mais terrível inverno do pós-guerra.
O frio cortante daquele janeiro e fevereiro, a escassez de carvão,
que obrigou ao racionamento ate mesmo da iluminação e do
aquecimento domestico, e a conseqüente queda nas exportações
fortaleceram a determinação do Tesouro britânico de
cortar a ajuda a Grécia e a Turquia. Bevin testara anteriormente
as propostas de High Dalton em favor dessa redução nos gastos,
temendo que produzisse um colapso da posição ocidental nos
Balcãs e no Mediterrâneo oriental. Mas a essa altura Bevin
deixara de opor-se à redução, talvez porque soubesse
que as perspectivas de uma transferencia de responsabilidade para os Estados
Unidos haviam aumentado com o novo regime em vigor do Departamento de Estado
norte-americano. A situação na Grã-Bretanha era, de
fato, bastante critica. Mas ela seria de fato tão negra quanto se
pintou no tocante à Grécia e à Turquia? Isso parece
bastante duvidoso, especialmente com relação a Turquia.
Nos meses anteriores tinha havido alguma pressão por parte
dos soviéticos para a revisão da Convenção
Montreux, o acordo que dava a Turquia o controle do estreito de Dardanelos,
mas e difícil interpreta-la como um sinal claro da intenção
russa de esmagar a resistência turca. Sem duvida alguma, o Exército
turco necessitava de equipamento novo, mas essa afirmação
é válida tanto para o período anterior como para o
posterior a 1947. Na Grécia a situação era mais instável:
a insurreição liderada pelos comunistas (que persistiria
ate quase o inicio da década de 50) parecia mais perigosa em 1947.
O embaixador americano em Atenas remetia a Acheson informes alarmantes
sobre a situação. No entanto, e difícil interpretar
as guerrilhas como instrumentos conscientes e controlados da política
exterior soviética, sobretudo quando se considera a grande adesão
popular com que contavam, o que praticamente colocou a Grécia em
guerra civil. O auxilio fornecido sob os auspícios da Doutrina Truman
ajudou consideravelmente o governo grego a reduzir a força da insurreição,
porem o verdadeiro golpe mortal nas esperanças guerrilheiras adveio
com o rompimento entre a Iugoslavia e a URSS, em 1948. A maioria das armas
utilizadas pelos guerrilheiros provinha da URSS, alcançando a Grécia
através da Iugoslavia. Em seus atritos com os soviéticos,
Tito acabou fechando suas fronteiras, interrompendo, assim, essa remessa
de armamentos.
Um pretexto para uma política
Mesmo considerando-se todos esses aspectos, a perspectiva de uma
intromissão soviética na Grécia e na Turquia era muito
longínqua. A situação desses países não
passou de um pretexto fornecido publicamente, para não dizer ostensivamente,
pelos britânicos. Uma das ironias da formulação dessa
nova política e que tal pretexto talvez nem tenha sido essencial
para os esforços do Departamento de Estado em promover uma "nova
imagem" da política externa. No encontro crucial de 27 de fevereiro
de 1947 (entre o pessoal do Departamento de Estado e os senadores veteranos),
Acheson "vendeu" sua nova política com uma brilhante exposição
sobre o desequilíbrio de poder existente na Europa, tendo defendido
sua tese geral com tal convicção que o senador V3ndenberg
- antigo líder das forças favoráveis ao isolacionismo
- acabou sugerindo que o quadro mais amplo da discussão fosse apresentado
ao povo americano e as necessidades da Grécia e da Turquia expostas
como um caso especial dessa questão mais ampla. Por outro lado,
junto ao eleitorado americano, a escolha da crise grega para dramatizar
a erosão potencial da posição do Ocidente no Mediterrâneo
foi explorada com habilidade por Acheson: muitos eleitores americanos são
de origem grega. A situação na Turquia foi negligenciada
na exposição pública da nova política e o fato
de os Estados Unidos estarem assumindo as responsabilidades do Império
britânico foi habilmente ignorado por todos, exceto pelos críticos
da nova política.
A doutrina foi formulada numa mensagem ao Congresso, apresentada
pelo Presidente Truman a 12 de março de 1947. Seu ponto básico
não se encontra nas passagens iniciais sobre a Grécia e a
Turquia, mas numa seção posterior: "No presente momento praticamente
todas as nações devem escolher entre formas de vida alternativas.
Muito freqüentemente essa escolha não e livre. "Uma forma de
vida o baseada na vontade da maioria e distingue-se por instituições
livres, governo representativo, eleições livres, garantias
a liberdade individual, liberdade de expressão e eleição,
e ausência de opressão política. "Uma segunda forma
de vida e baseada na vontade de uma minoria. imposta pela for4a a maioria.
Recorre ao terror e a opressão, a um radio e uma imprensa controlados.
a eleições decididas de antemão e a supressão
das liberdades pessoais. "Creio que a política dos Estados Unidos
deve consistir no apoio aos povos livres que estão resistindo a
subjuga4ao por minorias armadas ou pressões externas". Passados
28 anos a mensagem ainda e historicamente pertinente. Embora a natureza
do conflito não estivesse expressa de maneira correta e nem todas
as sociedades "livres" a serem apoiadas pudessem ser assim definidas pelos
critérios do liberalismo, pode-se dizer que o re- conhecimento e
a definição do conflito assim como a aceitação
do papel de liderança dos Estados Unidos nele, se constituiriam
na base para a manutenção do poder ocidental no mundo por
meios que não envolviam o conflito generalizado. Três pontos
devem ser ressaltados. Primeiro, essa não era, de forma alguma,
uma doutrina de aplicação regional. Não estava confinada
à Europa e muito menos à Grécia ou a Turquia. A Guerra
do Vietnâ e uma decorrência dela, bem como o Plano Marshall.
Em segundo lugar, a idéia de "apoiar os povos livres" continha o
germe de um comprometimento tanto militar quanto econômico; foi a
precursora da organização cio Tratado do Atlântico
Norte (OTAN)- Em terceiro lugar, o objetivo era impedir novos atritos na
esfera de poder dos países capitalistas, e não interferir
nos conflitos que, de alguma forma, já estavam solidamente encaminhados.
De fato, em 1948, a URSS consolidaria sua posição em mais
um pais da Europa oriental, a 'Tchecoslovaquia. A Doutrina Truman não
causaria ir URSS qualquer redução da área já
sob seu controle ou influencia direta. Como mais tarde afirmaram os críticos,
a Doutrina Truman correspondeu a uma declaração de guerra:
a guerra-fria. Mas essa foi, antes de mais nada, uma manobra destinada
a preservação do status quo.
No tocante a defesa da Grécia e da Turquia foi solicitado
ao Congresso americano o fornecimento de 400 milhões de dólares
para o período que se estenderia ate junho de 1948. Depois foram
votados novos fundos. As tropas britânicas, cuja retirada era prevista
na nota original, não abandonaram a Grécia ate I950. A ameaça
russa à Turquia -- se é que em algum momento ela fora de
fato iminente reassumiu seu caráter habitual de especulação.
A rea6ao inicial dos senadores era ligeiramente favorável a nova
política e o Senador Vandenberg aumentou as chances de aprovação
com a sua habitual rudeza: "A verdade em que as relações
americano-sovieticas e que estão no cerne do problema". Dois grupos
de oposição a doutrina cristalizaram-se imediatamente: um
grupo de liberais internacionalistas de orientação esquerdista,
que não desejavam o estabelecimento de uma relação
de adversário com a URSS, e um grupo de isolacionistas ferrenhos
de extrema direita, irritados com os custos previstos para a nova política.
A ala esquerda era dirigida por Henry Wallace, que quase fora reindicado
para a vice-presidência em 1944 e que, não fossem as singularidades
do processo americano de seleção de candidatos, teria chegado
a presidência com a morte de Roosevelt. Num discurso, em 13 de março,
ele descreveu a nova política como "completamente inútil,
eqüivalendo a um programa de empréstimos militares", e acusou
o presidente de "trair a grande tradição americana" e provocar
"um século de medo". Wallace combateu tanto a política da
Grã-Bretanha como a dos Estados Unidos. A direita foi desarmada
em parte pela conversão de Vandenberg, vendo-se forçado a
valer-se de argumentos como o de que o programa levaria o pais a bancarrota.
Houve apenas 23 votos contra quando o projeto foi apresentado ao Senado,
no dia 22 de abril.
Nasce um mundo de dois blocos
Desse modo, oito semanas após a apresentação
das notas britânicas, os Estados Unidos estavam constitucionalmente
equipados para assumir suas novas funções diplomáticas
como principal arrimo do cambaleante status quo mundial. Feito isso, a
redefinição do equilíbrio de poder mundial e das esferas
de influência teve rápido seguimento: estava firmemente esboçada
em junho de 1947, embora não tenha sido confirmada em sua totalidade
senão um ano mais tarde. As linhas mais decisivas apresentadas nessa
divisão eram as relativas a Alemanha. De fato, o Conselho dos Ministros
do Exterior reuniu-se em Moscou de 10 de março a 24 de abril (período
de anuncio e do auge dos debates em torno da Doutrina Truman), discutindo
o futuro da Alemanha. Não havia muitas esperanças de obter
um acordo nesse encontro, nem mesmo acordos de menor importância
para o estabelecimento de laços políticos e econômicos
entre as zonas ocupadas pelas quatro grandes potências (os Estados
Unidos, a Grã-Bretanha, a França e a URSS). A política
dessa ultima, na época, exigia um governo central forte em Berlim
(que, as Potências Ocidentais alegavam, tenderia a cair sob controle
soviético) e 10 bilhões de dólares de reparações
da Alemanha como um todo (proposta que as potências ocidentais interpretavam
como significando o gasto de milhões de dólares em suas zonas
de controle para permitir a sobrevivência da Alemanha, ao passo que
os russos transportavam a maior parte da produção alemã
para a URSS). Mesmo assim, antes da Doutrina Truman, um acordo parecia
apenas remotamente viável.
A admissão oficial de uma relação de oposição
a URSS e a improbabilidade de uma rápida reunificação
da Alemanha significava que a atenção do Ocidente poderia
voltar-se quase que imediatamente para o projeto alternativo de reintegrarem-se
apenas as três zonas ocidentais da Alemanha, primeiro numa unidade
(que se tornaria a Republica Federal da Alemanha) e, depois, na vida econômica
européia. Nos Estados Unidos, então, logo tomou corpo a idéia
de que o processo de reconstrução econômica da Europa
poderia ser usado como um instrumento para promover um tipo de integração
política docontinente. Uma semana antes do envio da mensagem presidencial
ao Congresso, Acheson já organizara uma investigação
para examinar, entre outras coisas, a maneira pela qual deveria ser encaminhada
a ajuda econômica. A 22 de março, o Senador Fulbright apresentou
uma resolução ao Congresso que visava o estabelecimento dos
"Estados Unidos da Europa". Já o influente jornalista Walter Lippmann
demonstrou que apenas a união conômica poderia levar a esse
resultado. Como afirmaria mais tarde o próprio Presidente Truman,
a Doutrina Truman e o Plano Marshall eram duas faces da mesma moeda.
Dada a incompatibilidade desses projetos com a perspectiva soviética
sobre o futuro da Europa (e particularmente da Alemanha), logo tornou-se
evidente que deveria ocorrer uma certa polarização política
entre comunistas e não-comunistas. De fato, assim sucedeu. Na evolução
da política interna da França e da Itália, por exemplo,
os membros comunistas afastaram-se rapidamente dos governos de coalizão
de que vinham tomando parte desde o fim da guerra. Nesses dois países,
a força eleitoral dos comunistas era considerável - cerca
de um quarto do eleitorado -, mas a resistência que opuseram a nova
orientação política não foi muito radical.
Talvez isso se deva ao fato de que a Doutrina Truman tenha sido rapidamente
seguida pelo Plano Marshall, que tinha o objetivo paralelo de restaurar
um certo grau de prosperidade na Europa ocidental. Ou talvez se deva ao
fato de os comunistas não pretenderem qualquer radicalização
da política interna daqueles países, o que só ocorreria
em seu próprio prejuízo, na medida em que ainda não
possuíam força suficiente para tomarem o poder sozinhos.
Com exceção das suspeitas da extrema esquerda, a reação
inicial da Europa ocidental a doutrina foi cautelosa e muito ambivalente.
Na Grã-Bretanha, por exemplo, ela foi recebida com muito mais cordialidade
pela oposição do que pelo Partido Trabalhista. O discurso
de Churchill sobre a "cortina de ferro", pronunciado no ano anterior nos
Estados Unidos indubitavelmente fora um dos fatores que ajudaram a cristalizar
a concepção de Truman a respeito da política soviética
do pós-guerra. Por ouro lado, muitos deputados trabalhistas estavam
irritados com vários aspectos da política exterior de Bevin
e relutavam em aceitara idéia de uma ameaça soviética.
Na França, socialistas como Leon Blum também não a
aceitavam, pelo menos ate a mudança do regime tcheco, que ocorreria
um ano mais tarde. Na direita surgiram alguns ressentimentos de origem
nacionalista, provocados pelo fato de os Estados Unidos terem assumido
responsabilidades na Europa (ou em lugar desta). Sobre isso, os grupos
britânicos e que deveriam ter-se inflamado mais, já que o
Mediterrâneo oriental, que tradicionalmente pertencera a esfera de
influencia britânica, estava sendo ocupado pelos Estados Unidos.
Mas o governo, dada a situação econômica difícil,
estava desesperadamente ansioso por livrar-se de compromissos externos:
o próprio Attlee proclamara que, se necessário, a Grã-Bretanha
deveria retirar-se unilateralmente do Mediterrâneo e do Oriente Médio,
argumentando que sozinha ela não teria condições de
defender a área da pressão soviética em direção
ao sul. Bevin pensava em garantir a situação ate que os americanos
estivessem prontos para substituir a Grã-Bretanha. Os conservadores,
na sua maior parte, apoiavam a visão de Churchill sobre uma aliança
anglo-americana. Desse modo, somente a esquerda do Partido Trabalhista
- o grupo Keep Left ("Manter-se à Esquerda") li-derado por Richard
Crossman e Michael Foot ofereceu uma política alternativa, baseada
na noção de um equilíbrio triangular entre a URSS,
os Estados Unidos e uma "terceira força", a Europa. Essa idéia
estava dez anos adiantada para a época.
Os críticos da Doutrina Truman estavam perfeitamente corretos,
num determinado sentido: as políticas que resultaram de ta1 doutrina
enrijeceram e mantiveram uma divisão da Europa (e do mundo) que
inicialmente nada mais fora que uma conseqüência do movimento
dos exércitos durante a Segunda Grande Guerra. A doutrina impôs
aos Estados Unidos um encargo crescente, tanto econômica como militarmente,
que só entraria em crise com o prolongamento da Guerra do Vietnã.
Transformou a divisão da Alemanha em dois países numa realidade
política praticamente irreversível. Conduziu a um período
de "hostilidades totais, próximo de uma guerra global" entre a URSS
e o Ocidente, que se refletiu praticamente na evolução política
de todo o globo terrestre.
O Plano Marshall - Uma estratégia de hegemonia.
Apesar de Winston Churchill ter afirmado que o Plano Marshall era
"o ato menos egoísta da Historia", o plano não era uma política
destituída de interesse para os Estados Unidos. A relevância
e a função do plano, como instrumento realista de uma política
baseada na análise objetiva da situação do capitalismo
na Europa, contribuiu diretamente para seu êxito. A afinidade de
interesses era, agora, visivelmente grande entre o capitalismo europeu
e o norte-americano. O isolacionismo americano fora enfraquecido, se não
inteiramente destruído, pela Segunda Guerra Mundial. A compreensão
crescente da natureza e do poder do sistema soviético levou ao reconhecimento,
pelos Estados Unidos, de que seu sistema econômico não poderia
sobreviver sozinho em um mundo onde, pouco a pouco, se expandia o socialismo.
Para muitos americanos, parecia fazer sentido que parte de sua riqueza
nacional fosse utilizada para auxiliar a recuperação das
economias européias ocidentais, de modo a garantir a sobrevivência
do próprio sistema norte-americano.
As economias nacionais européias estavam num estado de caos.
Grandes partes do continente haviam sido devastadas pela guerra, e as potências.
imperialistas haviam exaurido a maior parte de suas reservas ultramarinas
na luta contra o nazismo. Não possuíam capital para reconstruir
e readaptar as industrias para a produção de tempo de paz.
Havia grande escassez de comida, combustível e matérias-primas.
A situação da Inglaterra era seria. Apesar de uma ajuda material
no valor de 21 bilhões de dólares, os investimentos ultramarinos
no valor de 4,5 bilhões de dólares haviam sido liquidados
para pagar os suprimentos da guerra e no rim do conflito a divida externa
atingia a quase 14 bilhões de dólares. O empréstimo
especial de 3,75 bilhões, concedido pelos americanos em 1946, proporcionou
ótimo auxílio a curto prazo, mas pouco fez no sentido de
estabilizar a situação a longo prazo. Do tempo da guerra
até o início do Plano Marshall, em 1948, os Estados Unidos
concederam empréstimos no valor de 4,5 bilhões de dólares
a Europa ocidental e ainda ofereceram um credito suplementar 6,8 bilhões
de dólares; mas em 1947, o déficit europeu ainda atingia
a casa dos 8 bilhões de dólares e sua posição
parecia perigosa. A divisão da Europa em uma parte capitalista e
outra socialista agravou ainda mais os problemas do pós-guerra,
pois a economia européia foi dividida em duas unidades econômicas
distintas, simbolizada pela Alemanha dividida. Tanto em 1946 como em 1947
a produção industrial e agrícola de todos os países
europeus atingiu níveis mais baixos do que antes da guerra, e foi
inadequada para suprir as necessidades da população, que,
apesar das terríveis perdas dos anos de guerra, era mais numerosa
do que nunca. As forças da natureza também pareciam conspirar
contra a rccuperação. O terrível inverno de 1946/47
foi seguido por enchentes e depois por secas. Conseqüência importante
do deslocamento econômico foi a instabilidade política. O
circulo fechou-se quando a fraqueza política contribuiu para as
tensões econômicas: governos instáveis eram incapazes
de tomar as medidas rigorosas que se faziam necessárias para conseguir
a restauração econômica. Na época em que a Doutrina
Truman estava tomando forma, o Conselho dos Ministros do Exterior reunia-se
em Moscou, e, apesar das grandes esperanças de que era depositário,
os resultados do encontro foram nulos. As quatro grandes potências
não conseguiram entrar em acordo sobre o futuro da Alemanha e o
secretario de Estado George Marshall professou a opinião de que
a União Soviética estava procurando ganhar tempo e esperando
o colapso econômico da Europa. Proclamou que "a única solução"
seria a ação imediata dos Estados Unidos. O Departamento
de Estado já iniciara o planejamento de um programa de ajuda sob
a direção do Subsecretário Dean Acheson. Num discurso
no dia 8 de maio, Acheson defendeu tal programa, no interesse da economia
americana, da sobrevivência das "instituições democráticas"
na Europa e da preocupação "humanitária em geral".
O discurso de Marshall na Universidade de Harvard, no dia 5 de junho de
1947, expressou vigorosamente o
interesse americano na reabilitação da Europa, e geralmente
encarado como o lançamento oficial do Plano Marshall.
Desde o inicio, entendia-se que as iniciativas deveriam partir da
Europa e que a participação no plano estaria aberta a todos
os países da Europa, inclusive a União Soviética,
embora, obviamente, não se acreditasse que os soviéticos
se comprometessem com essa iniciativa, que visava interesses puramente
americanos e capitalistas ocidentais. As principais nações
européias estabeleceram uma Comissão para a cooperação
Econômica Européia e, no dia 22 de setembro de 1947, esta
comissão - CEEC - apresentou um relatório ao governo dos
Estados Unidos, no qual advogava um programa de quatro anos para a recuperação
econômica. O programa envolveria dezesseis países da Europa
e mais a Alemanha ocidental. Foram esboçados quatro objetivos principais:
um aumento na produtividade agrícola e industrial, que atingisse
pelo menos os níveis do pré guerra; alcançar a estabilidade
financeira; a cooperação econômica entre os países
participantes e uma solução para o problema do déficit
de dólares por meio do aumento das exportações. Os
membros prometeram cooperação, redução das
tarifas e, por fim, a conversibilidade da moeda. Paralelamente ao trabalho
da CEEC havia grupos de estudo nos Estados Unidos traçando planos
para fazer frente a emergência O Conselho de Consultores Econômicos
fez analises detalhadas da situação geral; a Comissão
Presidencial para Ajuda Estrangeira, sob a direção do secretário
de Comércio, Averell Harriman, explorou as ramificações
de um amplo programa de auxilio; e uma terceira comissão, sob a
direção do secretario do Interior, Julius Krug, estudou a
capacidade dos Estados Unidos, em termos de recursos, para manter um vasto
programa de ajuda econômica. Nos relatórios apresentados pelas
comissões, no outono de 1947, todos apoiavam a concepção
presente no Plano Marshall e baseavam seus argumentos no fato de que, por
diversas maneiras, os interesses nacionais americanos seriam servidos por
esse programa. Todos concordavam em que a segurança dos Estados
Unidos estaria em risco se a Europa capitalista entrasse em colapso. Segundo
o Conselho de Consultores Econômicos, caso não houvesse um
amplo programa de ajuda, as exportações americanas cairiam
rapidamente, trazendo problemas para a economia interna. A Comissão
Harriman calculou que seriam necessários de 12 bilhões a
17 bilhões de dólares para a recuperação européia,
e que tal ajuda não seria caridade, mas um investimento no interesse
publico. Todos eles definiram os interesses nacionais americanos, enfatizando
os fatores econômico, político, estratégico e "humanitário'.
Um tema constante era o de que os Estados Unidos não deveriam dirigir
as operações, mas sim cooperar num programa inspirado pelos
europeus. Cinco meses depois do discurso de Marshall em Harvard, o trabalho
preparatório do Plano Marshall já estava realizado e, no
dia 19 de dezembro, o Presidente Truman enviou uma
mensagem ao Congresso relativa ao apoio americano à recuperação
da Europa. As audiências relativas ao Programa de Recuperação
Européia começaram em janeiro de 1948. Alem de ser discutida
nas comissões do governo e do Congresso, essa política já
se tornara objeto de debate público. O maior propagandista de seus
objetivos foi a Comissão para o Plano Marshall, composta de "cidadãos
preeminentes", que conduziram uma campanha de grande importância
para a propaganda interna. Embora as consultas sobre o plano não
fossem mera formalidade, muito do trabalho básico já fora
feito. A conversão da Checoslováquia ao socialismo, em fevereiro
de 1948, agravou o medo dos norte-americanos a vitoria do comunismo e,
ao fim de um mês, as comissões do Congresso pronunciaram-se,
de modo unanime, a favor do plano. O tom do debate no Senado foi dado pelo
Senador Vandenberg, de Michigan, presidente da Comissão de Relações
Exteriores do Senado. Esse antigo isolacionista relacionou o programa de
ajuda com a Doutrina Truman, falando "em nome do próprio interesse
americano". Sobre o plano, disse: "Ele sustenta a civilização
ocidental. Significa libertar a Europa ocidental dos donativos americanos".
O debate que se seguiu ao discurso de Vandenberg caracterizou-se por um
desejo de compreender todas as implicações da legislação
concernente a recuperação, e não por uma oposição
obstinada a um compromisso tão grande assumido pelos Estados Unidos
- ainda que em interesse próprio. A lei foi aprovada no dia 3 de
abril de l948. O ato tinha em mente um plano de quatro anos para implementar
o programa de recuperação e autorizou uma dotação
de cerca de 4,3 bilhões de dólares para o primeiro ano. Foram
feitos acordos colaterais com os países participantes e cada governo
estrangeiro deveria depositar, em sua própria moeda, "fundos de
reserva", equivalentes as dotações recebidas, que pudessem
ser utilizados para assistência à recuperação
econômica.
Cada pais participante devia auxiliar os Estados Unidos a acumular
estoques de materiais estratégicos, alem de diversas exigências
especificas, destinadas a proteger a Marinha Mercante americana, e outros
interesses ianques. A Administração de Cooperação
Econômica (ECA) foi estabelecida para implementar o programa e era
chefiada por um administrador
diretamente responsável perante o presidente e com o mesmo
status dos chefes de departamentos executivos. Em abril de 1948, Pau1 G.
Hoffman, presidente da Companhia Studebaker, tornou-se o administradora
ECA. A concepção de trabalho do Programa para a Recuperação
Européia permaneceu a mesma do inicio do planejamento. O próprio
Hoffman declarou: "Acredito firmemente que nenhum padrão imposto
por um grupo de planejadores de Washington possa ser eficaz (...); a responsabilidade
deve caber aos próprios europeus". Averell Harriman foi nomeado
representante especial na Europa e trabalhou em intima colaboração
com a Organização para a Cooperação Econômica
Européia (OEEC), que surgiu a partir da CEEC. Embora os países
membros mantivessem a autonomia econômica, concordaram em tomar decisões
à 1uz das possíveis conseqüências para os outros
países participantes, em reduzir as tarifas alfandegárias
e em trabalhar em favor de um sistema de pagamentos multilateral. A medida
que o programa se desenvolvia, viu-se que eram necessárias diferentes
prioridades nas diversas partes da Europa e o planejamento passou a ser
feito pais por pais. A aquisição de materiais era realizada
diretamente pelos países participantes; desse modo, a ECA não
teve necessidade, como ocorrera com a UNRRA (Administrarão das Nações
Unidas para a Reabilitação e Assistência), de criar
uma extensa burocracia de agências de mediação. As
requisições para autorização de aquisição,
submetidas por cada governo, eram entregues a Administração
de Cooperação Econômica em Washington, onde se verificava
se estavam dentro dos limites das cotas autorizadas e se não tinham
implicações contrarias à economia interna americana.
Enquanto durou o Plano Marshall, de 1948 a 1952, o Congresso destinou
um total de 13,l5 bilhões de dólares para o programa de recuperação,
sendo que a dotação anual mais elevada foi a do primeiro
ano. A ênfase inicial estava na provisão de alimentos, rações
para animais e fertilizantes, visando sobretudo aumentar a produtividade
agrícola e aliviar a escassez na Europa. Mais tarde, a ênfase
passou para as matérias-primas e produtos semi-industrializados,
bem como maquinaria, veículos e combustível. 69,7% de todos
os bens eram adquiridos nos Estados Unidos, entre os quais 98% o dos veículos
e da maquinaria, o que trazia, como esperavam os promotores do plano, grandes
benefícios para a economia interna americana. A Grã-Bretanha
foi a nação que recebeu maior "ajuda", num total de 3,176
bilhões de dólares, seguida pela França, que recebeu
2,706 bilhões de dólares, e Alemanha Ocidental, que só
recebeu pouco mais da metade da quantia destinada a França.
Os efeitos do programa fizeram-se sentir rapidamente em todos os
países e em todos os ramos da industria e da agricultura. Contribuiu
para projetos de recuperação da terra na Itália, construção
de navios na Grã-Bretanha, melhoramentos agrícolas na Alemanha
e introduziu o cultivo do milho entre os monges beneditinos dos Pirineus.
Durante os dois primeiros anos de ajuda, a produção industrial
na Europa ocidental como um todo aumentou mais de 25% em todos os países,
ultrapassou os níveis de 1938. Em 1951, terceiro ano, o progresso
continuou, mas no ano seguinte começou a decrescer. Em 1952 o Plano
Marshall já atingira seus principais objetivos, e o meio em que
se desenvolvia a política internacional havia mudado. Isto era de
esperar. O problema da recuperação européia era uma
questão a curto prazo. Embora a guerra houvesse arrasado a economia
da Europa ocidental, não destruíra a capacidade para a ajuda
mutua. Essas economias necessitavam apenas de estimulo para voltarem a
desenvolver-se. A nova vitalidade surgida encontrou expressão quase
imediata na União Européia de Pagamentos (1950) e na Comunidade
Européia do Carvão e do Aço, formada por seis países
em 1952. Outro movimento genuinamente europeu foi a tendência para
descartar o conceito de confederação, que era inerente à
OEEC e ao Programa de Recuperação Européia, e transferir
elementos de economia nacional para as autoridades supranacionais. Depois
da ratificação do tratado da OTAN em 1949, houve uma mudança
de ênfase da recuperação econômica para a segurança
militar.
O Plano Marshall assegurara aos sistemas capitalistas da Europa
ocidental a possibilidade de passarem a desempenhar o seu papel na defesa
de seu próprio território, e salvara, sobretudo do risco
de uma catástrofe, o sistema americano: não poderia - nem
pretendia - devolver à Europa a sua antiga grandeza.
O Plano Marshall
O fim da II Guerra Mundial significou a destruição
da Europa. Os países do Continente Europeu foram reduzidos a escombros:
centros urbanos arrasados, produção industrial restringida
aos seus limites mínimos, lavouras destruídas, desemprego,
falta de alimentos, combustíveis, matérias-primas e moedas.
Era uma situação caótica e de difícil recuperação.
Nesse contexto, surgem os Estados Unidos como capazes de colaborar
com as nações sacrificadas pelo Conflito e ajudá-las
a sair da grande crise em que se encontravam. É nesse contexto que
surge o chamado Plano Marshall cujo nome se deve ao Secretário de
Estado norte-americano George Marschall.
Dois grande motivos levaram à edição do Pano
Marshall :
1) a ameaça da União Soviética que, no Pós-guerra,
surge como uma superpotência a exercer influência sobre os
países do Leste Europeu, ameaçando a hegemonia política
norte-americana na Europa Ocidental;
2) a necessidade de manter e Europa como importante parceiro comercial,
na qualidade de mercado importador de produtos "made in USA" e, portanto,
área de grande importância para a estabilidade da economia
norte-americana.
Na tentativa de evitar a influência comunista sobre a Europa
Ocidental, o governo dos Estados Unidos já haviam realizado empréstimos
a alguns países europeus, como foi o caso da Grécia e da
Turquia, ambos palcos de movimentos guerrilheiros incentivados por governos
pró-soviéticos.
Além disso, os Partidos Comunistas proliferavam nos países
do Ocidente Europeu, principalmente na França e na Itália.
Eranecessário socorrer a economia desses países ou, de outra
forma, eles se tornariam "satélites" da União Soviética.
Em março de 1948, o Congresso americano aprovou o Plano Marshall
que entrou em vigor no dia 3 de abril do mesmo ano com a criação
da Organização Européia de Cooperação
Econômica ( OECE). Caberia a OECE a distribuição de
US$13,15 bilhões reservados ao programa de apoio.
Inglaterra, França, Itália, Alemanha Ocidental e Holanda
foram os principais beneficiários dos recursos destinados pelo Plano
Marshall.
Em 1950, os países europeus já apresentavam um significativo
crescimento nos seus PIBs , na sua produção industrial e
na sua produção agrícola.