A DOUTRINA TRUMAN - GUERRA FRIA OU PAZ QUENTE??
 

Neresgton Ribeiro Mendes Neto.

No dia 21 de fevereiro de 1947 a Embaixada britânica em Washington entregou ao Departamento de Estado duas notas relativas ao futuro da política britânica na Grécia e na Turquia. A Grã-Bretanha pretendia retirar suas tropas desses países.
Essas duas notas deram margem a uma serie de decisões que muito tem influenciado o teor geral da política externa americana desde então. Essas decisões - que foram posteriormente batizadas pelos jornalistas de Doutrina Truman - conduziram os eventos que se seguiram a Segunda Guerra Mundial a um desenvolvimento diverso daquele ocorrido após a Primeira Grande Guerra. A diferença se situa sobretudo entre isolacionismo e participação na política mundial. A Doutrina Truman, embora tenha aflorado a partir da situação na Grécia e na Turquia, não tem sua importância ligada a esses países, mas sim ao anuncio das intenções americanas com relação ao seu próprio papel no mundo. Ela foi um alerta dirigido tanto aos adversários quanto aos aliados em potencial. Mostrava que os Estados Unidos estavam se preparando para assumir a liderança de uma coalizão do status quo, coalizão essa que vigoraria entre as grandes potências capitalistas.
A decisão formal foi anunciada pelo Presidente Harry Truman e seu secretario de Estado, o General George C. Marshall, mas o verdadeiro idealizador dessa política foi indubitavelmente o subsecretário de Estado, Dean Acheson. Alem de defender os interesses ocidentais, seu espirito temia sobretudo um aumento do poderio da União Soviética: Ele definia a situação mundial, nos primeiros meses de 1947, da seguinte maneira: "Havia poucas probabilidades de que as instituições governamentais, políticas e econômicas da Europa ocidental pudessem sobreviver ao fim de cada esperança e a drástica privação de suas necessidades elementares que se seguiria a exaustão da capacidade de compra no exterior. A probabilidade esmagadora era de que o controle - com a exceção da Grã-Bretanha - passasse para aqueles que tivessem a audácia e a organização, alem do apoio estrangeiro, para assumir poderes ditatoriais, e que pudessem apresentar-se como advogados de seus países junto a potência que controlava todos os recursos desde a Polônia ate as províncias marítimas do Pacifico. "Essa situação - mais do que qualquer apelo intrínseco do comunismo, mesmo o estimulado por uma propaganda bem organizada e eficiente que pode ter levado os dirigentes do Kremlin a pensar que estariam a ponto de conquistar o maior prêmio da História sem qualquer esforço militar de sua parte: um sistema de poder que se estenderia do Pacifico ao Atlântico, incluindo o Mediterrâneo e o norte da África, e a maior parte da população e dos recursos mundiais".
Essa avaliação das perspectivas tal como, supunha Acheson, estariam sendo vistas pelo Kremlin, não coincidia exatamente com a visão do próprio Stalin. Homem cauteloso, esse ultimo sempre tendia a insistir no fato de que a burguesia mantinha-se forte por toda a parte, ate mesmo na China, onde a vitoria comunista demoraria apenas mais dois anos. Os russos estavam bem menos otimistas do que Acheson supunha a respeito do "maior prêmio da Historia", a ser conquistado "sem qualquer esforço militar de sua parte". Não obstante isso, o Departamento de Estado norte-americano tinha razoes suficientes para receber com agrado a nota britânica sobre a Grécia e a Turquia, utilizando-a como pretexto para dramatizar o que considerava um desgaste decisivo do poderio ocidental. Por mais de um ano, os responsáveis pela política externa americana vinham procurando a melhor maneira de enfrentar o que alegavam ser uma tendência inexorável da União Soviética para expandir-se, especialmente em direção ao sul e a oeste. Até então, seus esforços para chamar a atenção sobre o problema tinham encontrado pouca ressonância. O embaixador americano, George Kennan, por ocasião de sua estada em Moscou no inicio de 1946, fornecera uma longa analise dessa suposta propensão soviética e sugerira que fosse contida. Mas, recém-saído da guerra, o Congresso dos Estados Unidos não se mostrava inclinado a qualquer esforço ou risco excessivo ao nível internacional. Parecia improvável que o Congresso mudasse de opinião, pois a maioria no Senado era republicana, e Truman, que na época não era um político de muito prestigio, não estava em condições de impor uma política impopular. Por outro lado, também não sofria grandes pressões nesse sentido, pois o Departamento de Estado tinha, então, pouca influencia junto ao presidente. É verdade que o predecessor de Acheson como secretário de Estado, James Byrnes, já indicara a direção que a política externa poderia seguir (ou pelo menos a direção que o Departamento de Estado desejava que seguisse), num discurso por ocasião da crise do Irã: "Embora o status quo não seja sagrado nem imutável, não podemos negligenciar a sua corrosão (. . . ); não podemos permitir que sejam realizadas agressões por meio de coerção, pressões ou subterfúgios". Mas não houve resposta a esse alerta e mesmo as relações entre Byrnes e Truman não eram das melhores. O que abriu caminho para uma nova política foi a ascensão do General George Marshall ao cargo de secretario de Estado e o conseqüente aumento do poder de Acheson, enquanto Chefe do Estado-Maior de Marshall, encarregado da formulação da política externa.
Acheson era um homem combativo e seguro de si, impaciente com os que apresentavam duvidas, hesitações e disposição para pensar e repensar as questões. Sua objetividade e clareza na exposição de seus propósitos permitiram-lhe estabelecer boas relações com os três homens mais importantes para a condução de sua política: o Presidente Truman, o Senador Vandenberg (presidente temporário do Senado) e Ernest Bevin, na Grã-Bretanha.
O fato de a Embaixada britânica ter entregue (talvez não por acaso) as notas sobre a Grécia e a Turquia numa sexta-feira de um longo fim de semana, no qual Marshall estaria ausente de Washington, e a dez dias de sua partida para Moscou, realça ainda mais o grau de controle que Acheson tinha (e continuaria a ter) sobre a política externa norte-americana. Contudo, a ocasião da entrega refletia de fato os problemas que assolavam a Grã-Bretanha. O inicio de 1947 fora o pior momento do mais terrível inverno do pós-guerra. O frio cortante daquele janeiro e fevereiro, a escassez de carvão, que obrigou ao racionamento ate mesmo da iluminação e do aquecimento domestico, e a conseqüente queda nas exportações fortaleceram a determinação do Tesouro britânico de cortar a ajuda a Grécia e a Turquia. Bevin testara anteriormente as propostas de High Dalton em favor dessa redução nos gastos, temendo que produzisse um colapso da posição ocidental nos Balcãs e no Mediterrâneo oriental. Mas a essa altura Bevin deixara de opor-se à redução, talvez porque soubesse que as perspectivas de uma transferencia de responsabilidade para os Estados Unidos haviam aumentado com o novo regime em vigor do Departamento de Estado norte-americano. A situação na Grã-Bretanha era, de fato, bastante critica. Mas ela seria de fato tão negra quanto se pintou no tocante à Grécia e à Turquia? Isso parece bastante duvidoso, especialmente com relação a Turquia.
Nos meses anteriores tinha havido alguma pressão por parte dos soviéticos para a revisão da Convenção Montreux, o acordo que dava a Turquia o controle do estreito de Dardanelos, mas e difícil interpreta-la como um sinal claro da intenção russa de esmagar a resistência turca. Sem duvida alguma, o Exército turco necessitava de equipamento novo, mas essa afirmação é válida tanto para o período anterior como para o posterior a 1947. Na Grécia a situação era mais instável: a insurreição liderada pelos comunistas (que persistiria ate quase o inicio da década de 50) parecia mais perigosa em 1947. O embaixador americano em Atenas remetia a Acheson informes alarmantes sobre a situação. No entanto, e difícil interpretar as guerrilhas como instrumentos conscientes e controlados da política exterior soviética, sobretudo quando se considera a grande adesão popular com que contavam, o que praticamente colocou a Grécia em guerra civil. O auxilio fornecido sob os auspícios da Doutrina Truman ajudou consideravelmente o governo grego a reduzir a força da insurreição, porem o verdadeiro golpe mortal nas esperanças guerrilheiras adveio com o rompimento entre a Iugoslavia e a URSS, em 1948. A maioria das armas utilizadas pelos guerrilheiros provinha da URSS, alcançando a Grécia através da Iugoslavia. Em seus atritos com os soviéticos, Tito acabou fechando suas fronteiras, interrompendo, assim, essa remessa de armamentos.

                                    Um pretexto para uma política

Mesmo considerando-se todos esses aspectos, a perspectiva de uma intromissão soviética na Grécia e na Turquia era muito longínqua. A situação desses países não passou de um pretexto fornecido publicamente, para não dizer ostensivamente, pelos britânicos. Uma das ironias da formulação dessa nova política e que tal pretexto talvez nem tenha sido essencial para os esforços do Departamento de Estado em promover uma "nova imagem" da política externa. No encontro crucial de 27 de fevereiro de 1947 (entre o pessoal do Departamento de Estado e os senadores veteranos), Acheson "vendeu" sua nova política com uma brilhante exposição sobre o desequilíbrio de poder existente na Europa, tendo defendido sua tese geral com tal convicção que o senador V3ndenberg - antigo líder das forças favoráveis ao isolacionismo - acabou sugerindo que o quadro mais amplo da discussão fosse apresentado ao povo americano e as necessidades da Grécia e da Turquia expostas como um caso especial dessa questão mais ampla. Por outro lado, junto ao eleitorado americano, a escolha da crise grega para dramatizar a erosão potencial da posição do Ocidente no Mediterrâneo foi explorada com habilidade por Acheson: muitos eleitores americanos são de origem grega. A situação na Turquia foi negligenciada na exposição pública da nova política e o fato de os Estados Unidos estarem assumindo as responsabilidades do Império britânico foi habilmente ignorado por todos, exceto pelos críticos da nova política.
A doutrina foi formulada numa mensagem ao Congresso, apresentada pelo Presidente Truman a 12 de março de 1947. Seu ponto básico não se encontra nas passagens iniciais sobre a Grécia e a Turquia, mas numa seção posterior: "No presente momento praticamente todas as nações devem escolher entre formas de vida alternativas. Muito freqüentemente essa escolha não e livre. "Uma forma de vida o baseada na vontade da maioria e distingue-se por instituições livres, governo representativo, eleições livres, garantias a liberdade individual, liberdade de expressão e eleição, e ausência de opressão política. "Uma segunda forma de vida e baseada na vontade de uma minoria. imposta pela for4a a maioria. Recorre ao terror e a opressão, a um radio e uma imprensa controlados. a eleições decididas de antemão e a supressão das liberdades pessoais. "Creio que a política dos Estados Unidos deve consistir no apoio aos povos livres que estão resistindo a subjuga4ao por minorias armadas ou pressões externas". Passados 28 anos a mensagem ainda e historicamente pertinente. Embora a natureza do conflito não estivesse expressa de maneira correta e nem todas as sociedades "livres" a serem apoiadas pudessem ser assim definidas pelos critérios do liberalismo, pode-se dizer que o re- conhecimento e a definição do conflito assim como a aceitação do papel de liderança dos Estados Unidos nele, se constituiriam na base para a manutenção do poder ocidental no mundo por meios que não envolviam o conflito generalizado. Três pontos devem ser ressaltados. Primeiro, essa não era, de forma alguma, uma doutrina de aplicação regional. Não estava confinada à Europa e muito menos à Grécia ou a Turquia. A Guerra do Vietnâ e uma decorrência dela, bem como o Plano Marshall. Em segundo lugar, a idéia de "apoiar os povos livres" continha o germe de um comprometimento tanto militar quanto econômico; foi a precursora da organização cio Tratado do Atlântico Norte (OTAN)- Em terceiro lugar, o objetivo era impedir novos atritos na esfera de poder dos países capitalistas, e não interferir nos conflitos que, de alguma forma, já estavam solidamente encaminhados. De fato, em 1948, a URSS consolidaria sua posição em mais um pais da Europa oriental, a 'Tchecoslovaquia. A Doutrina Truman não causaria ir URSS qualquer redução da área já sob seu controle ou influencia direta. Como mais tarde afirmaram os críticos, a Doutrina Truman correspondeu a uma declaração de guerra: a guerra-fria. Mas essa foi, antes de mais nada, uma manobra destinada a preservação do status quo.
No tocante a defesa da Grécia e da Turquia foi solicitado ao Congresso americano o fornecimento de 400 milhões de dólares para o período que se estenderia ate junho de 1948. Depois foram votados novos fundos. As tropas britânicas, cuja retirada era prevista na nota original, não abandonaram a Grécia ate I950. A ameaça russa à Turquia -- se é que em algum momento ela fora de fato iminente reassumiu seu caráter habitual de especulação. A rea6ao inicial dos senadores era ligeiramente favorável a nova política e o Senador Vandenberg aumentou as chances de aprovação com a sua habitual rudeza: "A verdade em que as relações americano-sovieticas e que estão no cerne do problema". Dois grupos de oposição a doutrina cristalizaram-se imediatamente: um grupo de liberais internacionalistas de orientação esquerdista, que não desejavam o estabelecimento de uma relação de adversário com a URSS, e um grupo de isolacionistas ferrenhos de extrema direita, irritados com os custos previstos para a nova política. A ala esquerda era dirigida por Henry Wallace, que quase fora reindicado para a vice-presidência em 1944 e que, não fossem as singularidades do processo americano de seleção de candidatos, teria chegado a presidência com a morte de Roosevelt. Num discurso, em 13 de março, ele descreveu a nova política como "completamente inútil, eqüivalendo a um programa de empréstimos militares", e acusou o presidente de "trair a grande tradição americana" e provocar "um século de medo". Wallace combateu tanto a política da Grã-Bretanha como a dos Estados Unidos. A direita foi desarmada em parte pela conversão de Vandenberg, vendo-se forçado a valer-se de argumentos como o de que o programa levaria o pais a bancarrota. Houve apenas 23 votos contra quando o projeto foi apresentado ao Senado, no dia 22 de abril.
 

                                   Nasce um mundo de dois blocos

Desse modo, oito semanas após a apresentação das notas britânicas, os Estados Unidos estavam constitucionalmente equipados para assumir suas novas funções diplomáticas como principal arrimo do cambaleante status quo mundial. Feito isso, a redefinição do equilíbrio de poder mundial e das esferas de influência teve rápido seguimento: estava firmemente esboçada em junho de 1947, embora não tenha sido confirmada em sua totalidade senão um ano mais tarde. As linhas mais decisivas apresentadas nessa divisão eram as relativas a Alemanha. De fato, o Conselho dos Ministros do Exterior reuniu-se em Moscou de 10 de março a 24 de abril (período de anuncio e do auge dos debates em torno da Doutrina Truman), discutindo o futuro da Alemanha. Não havia muitas esperanças de obter um acordo nesse encontro, nem mesmo acordos de menor importância para o estabelecimento de laços políticos e econômicos entre as zonas ocupadas pelas quatro grandes potências (os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a França e a URSS). A política dessa ultima, na época, exigia um governo central forte em Berlim (que, as Potências Ocidentais alegavam, tenderia a cair sob controle soviético) e 10 bilhões de dólares de reparações da Alemanha como um todo (proposta que as potências ocidentais interpretavam como significando o gasto de milhões de dólares em suas zonas de controle para permitir a sobrevivência da Alemanha, ao passo que os russos transportavam a maior parte da produção alemã para a URSS). Mesmo assim, antes da Doutrina Truman, um acordo parecia apenas remotamente viável.
A admissão oficial de uma relação de oposição a URSS e a improbabilidade de uma rápida reunificação da Alemanha significava que a atenção do Ocidente poderia voltar-se quase que imediatamente para o projeto alternativo de reintegrarem-se apenas as três zonas ocidentais da Alemanha, primeiro numa unidade (que se tornaria a Republica Federal da Alemanha) e, depois, na vida econômica européia. Nos Estados Unidos, então, logo tomou corpo a idéia de que o processo de reconstrução econômica da Europa poderia ser usado como um instrumento para promover um tipo de integração política docontinente. Uma semana antes do envio da mensagem presidencial ao Congresso, Acheson já organizara uma investigação para examinar, entre outras coisas, a maneira pela qual deveria ser encaminhada a ajuda econômica. A 22 de março, o Senador Fulbright apresentou uma resolução ao Congresso que visava o estabelecimento dos "Estados Unidos da Europa". Já o influente jornalista Walter Lippmann demonstrou que apenas a união conômica poderia levar a esse resultado. Como afirmaria mais tarde o próprio Presidente Truman, a Doutrina Truman e o Plano Marshall eram duas faces da mesma moeda.
Dada a incompatibilidade desses projetos com a perspectiva soviética sobre o futuro da Europa (e particularmente da Alemanha), logo tornou-se evidente que deveria ocorrer uma certa polarização política entre comunistas e não-comunistas. De fato, assim sucedeu. Na evolução da política interna da França e da Itália, por exemplo, os membros comunistas afastaram-se rapidamente dos governos de coalizão de que vinham tomando parte desde o fim da guerra. Nesses dois países, a força eleitoral dos comunistas era considerável - cerca de um quarto do eleitorado -, mas a resistência que opuseram a nova orientação política não foi muito radical. Talvez isso se deva ao fato de que a Doutrina Truman tenha sido rapidamente seguida pelo Plano Marshall, que tinha o objetivo paralelo de restaurar um certo grau de prosperidade na Europa ocidental. Ou talvez se deva ao fato de os comunistas não pretenderem qualquer radicalização da política interna daqueles países, o que só ocorreria em seu próprio prejuízo, na medida em que ainda não possuíam força suficiente para tomarem o poder sozinhos.
Com exceção das suspeitas da extrema esquerda, a reação inicial da Europa ocidental a doutrina foi cautelosa e muito ambivalente. Na Grã-Bretanha, por exemplo, ela foi recebida com muito mais cordialidade pela oposição do que pelo Partido Trabalhista. O discurso de Churchill sobre a "cortina de ferro", pronunciado no ano anterior nos Estados Unidos indubitavelmente fora um dos fatores que ajudaram a cristalizar a concepção de Truman a respeito da política soviética do pós-guerra. Por ouro lado, muitos deputados trabalhistas estavam irritados com vários aspectos da política exterior de Bevin e relutavam em aceitara idéia de uma ameaça soviética. Na França, socialistas como Leon Blum também não a aceitavam, pelo menos ate a mudança do regime tcheco, que ocorreria um ano mais tarde. Na direita surgiram alguns ressentimentos de origem nacionalista, provocados pelo fato de os Estados Unidos terem assumido responsabilidades na Europa (ou em lugar desta). Sobre isso, os grupos britânicos e que deveriam ter-se inflamado mais, já que o Mediterrâneo oriental, que tradicionalmente pertencera a esfera de influencia britânica, estava sendo ocupado pelos Estados Unidos. Mas o governo, dada a situação econômica difícil, estava desesperadamente ansioso por livrar-se de compromissos externos: o próprio Attlee proclamara que, se necessário, a Grã-Bretanha deveria retirar-se unilateralmente do Mediterrâneo e do Oriente Médio, argumentando que sozinha ela não teria condições de defender a área da pressão soviética em direção ao sul. Bevin pensava em garantir a situação ate que os americanos estivessem prontos para substituir a Grã-Bretanha. Os conservadores, na sua maior parte, apoiavam a visão de Churchill sobre uma aliança anglo-americana. Desse modo, somente a esquerda do Partido Trabalhista - o grupo Keep Left ("Manter-se à Esquerda") li-derado por Richard Crossman e Michael Foot ofereceu uma política alternativa, baseada na noção de um equilíbrio triangular entre a URSS, os Estados Unidos e uma "terceira força", a Europa. Essa idéia estava dez anos adiantada para a época.
Os críticos da Doutrina Truman estavam perfeitamente corretos, num determinado sentido: as políticas que resultaram de ta1 doutrina enrijeceram e mantiveram uma divisão da Europa (e do mundo) que inicialmente nada mais fora que uma conseqüência do movimento dos exércitos durante a Segunda Grande Guerra. A doutrina impôs aos Estados Unidos um encargo crescente, tanto econômica como militarmente, que só entraria em crise com o prolongamento da Guerra do Vietnã. Transformou a divisão da Alemanha em dois países numa realidade política praticamente irreversível. Conduziu a um período de "hostilidades totais, próximo de uma guerra global" entre a URSS e o Ocidente, que se refletiu praticamente na evolução política de todo o globo terrestre.
 

                           O Plano Marshall - Uma estratégia de hegemonia.

Apesar de Winston Churchill ter afirmado que o Plano Marshall era "o ato menos egoísta da Historia", o plano não era uma política destituída de interesse para os Estados Unidos. A relevância e a função do plano, como instrumento realista de uma política baseada na análise objetiva da situação do capitalismo na Europa, contribuiu diretamente para seu êxito. A afinidade de interesses era, agora, visivelmente grande entre o capitalismo europeu e o norte-americano. O isolacionismo americano fora enfraquecido, se não inteiramente destruído, pela Segunda Guerra Mundial. A compreensão crescente da natureza e do poder do sistema soviético levou ao reconhecimento, pelos Estados Unidos, de que seu sistema econômico não poderia sobreviver sozinho em um mundo onde, pouco a pouco, se expandia o socialismo. Para muitos americanos, parecia fazer sentido que parte de sua riqueza nacional fosse utilizada para auxiliar a recuperação das economias européias ocidentais, de modo a garantir a sobrevivência do próprio sistema norte-americano.
As economias nacionais européias estavam num estado de caos. Grandes partes do continente haviam sido devastadas pela guerra, e as potências. imperialistas haviam exaurido a maior parte de suas reservas ultramarinas na luta contra o nazismo. Não possuíam capital para reconstruir e readaptar as industrias para a produção de tempo de paz. Havia grande escassez de comida, combustível e matérias-primas. A situação da Inglaterra era seria. Apesar de uma ajuda material no valor de 21 bilhões de dólares, os investimentos ultramarinos no valor de 4,5 bilhões de dólares haviam sido liquidados para pagar os suprimentos da guerra e no rim do conflito a divida externa atingia a quase 14 bilhões de dólares. O empréstimo especial de 3,75 bilhões, concedido pelos americanos em 1946, proporcionou ótimo auxílio a curto prazo, mas pouco fez no sentido de estabilizar a situação a longo prazo. Do tempo da guerra até o início do Plano Marshall, em 1948, os Estados Unidos concederam empréstimos no valor de 4,5 bilhões de dólares a Europa ocidental e ainda ofereceram um credito suplementar 6,8 bilhões de dólares; mas em 1947, o déficit europeu ainda atingia a casa dos 8 bilhões de dólares e sua posição parecia perigosa. A divisão da Europa em uma parte capitalista e outra socialista agravou ainda mais os problemas do pós-guerra, pois a economia européia foi dividida em duas unidades econômicas distintas, simbolizada pela Alemanha dividida. Tanto em 1946 como em 1947 a produção industrial e agrícola de todos os países europeus atingiu níveis mais baixos do que antes da guerra, e foi inadequada para suprir as necessidades da população, que, apesar das terríveis perdas dos anos de guerra, era mais numerosa do que nunca. As forças da natureza também pareciam conspirar contra a rccuperação. O terrível inverno de 1946/47 foi seguido por enchentes e depois por secas. Conseqüência importante do deslocamento econômico foi a instabilidade política. O circulo fechou-se quando a fraqueza política contribuiu para as tensões econômicas: governos instáveis eram incapazes de tomar as medidas rigorosas que se faziam necessárias para conseguir a restauração econômica. Na época em que a Doutrina Truman estava tomando forma, o Conselho dos Ministros do Exterior reunia-se em Moscou, e, apesar das grandes esperanças de que era depositário, os resultados do encontro foram nulos. As quatro grandes potências não conseguiram entrar em acordo sobre o futuro da Alemanha e o secretario de Estado George Marshall professou a opinião de que a União Soviética estava procurando ganhar tempo e esperando o colapso econômico da Europa. Proclamou que "a única solução" seria a ação imediata dos Estados Unidos. O Departamento de Estado já iniciara o planejamento de um programa de ajuda sob a direção do Subsecretário Dean Acheson. Num discurso no dia 8 de maio, Acheson defendeu tal programa, no interesse da economia americana, da sobrevivência das "instituições democráticas" na Europa e da preocupação "humanitária em geral". O discurso de Marshall na Universidade de Harvard, no dia 5 de junho de 1947, expressou vigorosamente o
interesse americano na reabilitação da Europa, e geralmente encarado como o lançamento oficial do Plano Marshall.
Desde o inicio, entendia-se que as iniciativas deveriam partir da Europa e que a participação no plano estaria aberta a todos os países da Europa, inclusive a União Soviética, embora, obviamente, não se acreditasse que os soviéticos se comprometessem com essa iniciativa, que visava interesses puramente americanos e capitalistas ocidentais. As principais nações européias estabeleceram uma Comissão para a cooperação Econômica Européia e, no dia 22 de setembro de 1947, esta comissão - CEEC - apresentou um relatório ao governo dos Estados Unidos, no qual advogava um programa de quatro anos para a recuperação econômica. O programa envolveria dezesseis países da Europa e mais a Alemanha ocidental. Foram esboçados quatro objetivos principais: um aumento na produtividade agrícola e industrial, que atingisse pelo menos os níveis do pré guerra; alcançar a estabilidade financeira; a cooperação econômica entre os países participantes e uma solução para o problema do déficit de dólares por meio do aumento das exportações. Os membros prometeram cooperação, redução das tarifas e, por fim, a conversibilidade da moeda. Paralelamente ao trabalho da CEEC havia grupos de estudo nos Estados Unidos traçando planos para fazer frente a emergência O Conselho de Consultores Econômicos fez analises detalhadas da situação geral; a Comissão Presidencial para Ajuda Estrangeira, sob a direção do secretário de Comércio, Averell Harriman, explorou as ramificações de um amplo programa de auxilio; e uma terceira comissão, sob a direção do secretario do Interior, Julius Krug, estudou a capacidade dos Estados Unidos, em termos de recursos, para manter um vasto programa de ajuda econômica. Nos relatórios apresentados pelas comissões, no outono de 1947, todos apoiavam a concepção presente no Plano Marshall e baseavam seus argumentos no fato de que, por diversas maneiras, os interesses nacionais americanos seriam servidos por esse programa. Todos concordavam em que a segurança dos Estados Unidos estaria em risco se a Europa capitalista entrasse em colapso. Segundo o Conselho de Consultores Econômicos, caso não houvesse um amplo programa de ajuda, as exportações americanas cairiam rapidamente, trazendo problemas para a economia interna. A Comissão Harriman calculou que seriam necessários de 12 bilhões a 17 bilhões de dólares para a recuperação européia, e que tal ajuda não seria caridade, mas um investimento no interesse publico. Todos eles definiram os interesses nacionais americanos, enfatizando os fatores econômico, político, estratégico e "humanitário'. Um tema constante era o de que os Estados Unidos não deveriam dirigir as operações, mas sim cooperar num programa inspirado pelos europeus. Cinco meses depois do discurso de Marshall em Harvard, o trabalho preparatório do Plano Marshall já estava realizado e, no dia 19 de dezembro, o Presidente Truman enviou uma
mensagem ao Congresso relativa ao apoio americano à recuperação da Europa. As audiências relativas ao Programa de Recuperação Européia começaram em janeiro de 1948. Alem de ser discutida nas comissões do governo e do Congresso, essa política já se tornara objeto de debate público. O maior propagandista de seus objetivos foi a Comissão para o Plano Marshall, composta de "cidadãos preeminentes", que conduziram uma campanha de grande importância para a propaganda interna. Embora as consultas sobre o plano não fossem mera formalidade, muito do trabalho básico já fora feito. A conversão da Checoslováquia ao socialismo, em fevereiro de 1948, agravou o medo dos norte-americanos a vitoria do comunismo e, ao fim de um mês, as comissões do Congresso pronunciaram-se, de modo unanime, a favor do plano. O tom do debate no Senado foi dado pelo Senador Vandenberg, de Michigan, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado. Esse antigo isolacionista relacionou o programa de ajuda com a Doutrina Truman, falando "em nome do próprio interesse americano". Sobre o plano, disse: "Ele sustenta a civilização ocidental. Significa libertar a Europa ocidental dos donativos americanos". O debate que se seguiu ao discurso de Vandenberg caracterizou-se por um desejo de compreender todas as implicações da legislação concernente a recuperação, e não por uma oposição obstinada a um compromisso tão grande assumido pelos Estados Unidos - ainda que em interesse próprio. A lei foi aprovada no dia 3 de abril de l948. O ato tinha em mente um plano de quatro anos para implementar o programa de recuperação e autorizou uma dotação de cerca de 4,3 bilhões de dólares para o primeiro ano. Foram feitos acordos colaterais com os países participantes e cada governo estrangeiro deveria depositar, em sua própria moeda, "fundos de reserva", equivalentes as dotações recebidas, que pudessem ser utilizados para assistência à recuperação econômica.
Cada pais participante devia auxiliar os Estados Unidos a acumular estoques de materiais estratégicos, alem de diversas exigências especificas, destinadas a proteger a Marinha Mercante americana, e outros interesses ianques. A Administração de Cooperação Econômica (ECA) foi estabelecida para implementar o programa e era chefiada por um administrador
diretamente responsável perante o presidente e com o mesmo status dos chefes de departamentos executivos. Em abril de 1948, Pau1 G. Hoffman, presidente da Companhia Studebaker, tornou-se o administradora ECA. A concepção de trabalho do Programa para a Recuperação Européia permaneceu a mesma do inicio do planejamento. O próprio Hoffman declarou: "Acredito firmemente que nenhum padrão imposto por um grupo de planejadores de Washington possa ser eficaz (...); a responsabilidade deve caber aos próprios europeus". Averell Harriman foi nomeado representante especial na Europa e trabalhou em intima colaboração com a Organização para a Cooperação Econômica Européia (OEEC), que surgiu a partir da CEEC. Embora os países membros mantivessem a autonomia econômica, concordaram em tomar decisões à 1uz das possíveis conseqüências para os outros países participantes, em reduzir as tarifas alfandegárias e em trabalhar em favor de um sistema de pagamentos multilateral. A medida que o programa se desenvolvia, viu-se que eram necessárias diferentes prioridades nas diversas partes da Europa e o planejamento passou a ser feito pais por pais. A aquisição de materiais era realizada diretamente pelos países participantes; desse modo, a ECA não teve necessidade, como ocorrera com a UNRRA (Administrarão das Nações Unidas para a Reabilitação e Assistência), de criar uma extensa burocracia de agências de mediação. As requisições para autorização de aquisição, submetidas por cada governo, eram entregues a Administração de Cooperação Econômica em Washington, onde se verificava se estavam dentro dos limites das cotas autorizadas e se não tinham implicações contrarias à economia interna americana.
Enquanto durou o Plano Marshall, de 1948 a 1952, o Congresso destinou um total de 13,l5 bilhões de dólares para o programa de recuperação, sendo que a dotação anual mais elevada foi a do primeiro ano. A ênfase inicial estava na provisão de alimentos, rações para animais e fertilizantes, visando sobretudo aumentar a produtividade agrícola e aliviar a escassez na Europa. Mais tarde, a ênfase passou para as matérias-primas e produtos semi-industrializados, bem como maquinaria, veículos e combustível. 69,7% de todos os bens eram adquiridos nos Estados Unidos, entre os quais 98% o dos veículos e da maquinaria, o que trazia, como esperavam os promotores do plano, grandes benefícios para a economia interna americana. A Grã-Bretanha foi a nação que recebeu maior "ajuda", num total de 3,176 bilhões de dólares, seguida pela França, que recebeu 2,706 bilhões de dólares, e Alemanha Ocidental, que só recebeu pouco mais da metade da quantia destinada a França.
Os efeitos do programa fizeram-se sentir rapidamente em todos os países e em todos os ramos da industria e da agricultura. Contribuiu para projetos de recuperação da terra na Itália, construção de navios na Grã-Bretanha, melhoramentos agrícolas na Alemanha e introduziu o cultivo do milho entre os monges beneditinos dos Pirineus. Durante os dois primeiros anos de ajuda, a produção industrial na Europa ocidental como um todo aumentou mais de 25% em todos os países, ultrapassou os níveis de 1938. Em 1951, terceiro ano, o progresso continuou, mas no ano seguinte começou a decrescer. Em 1952 o Plano Marshall já atingira seus principais objetivos, e o meio em que se desenvolvia a política internacional havia mudado. Isto era de esperar. O problema da recuperação européia era uma questão a curto prazo. Embora a guerra houvesse arrasado a economia da Europa ocidental, não destruíra a capacidade para a ajuda mutua. Essas economias necessitavam apenas de estimulo para voltarem a desenvolver-se. A nova vitalidade surgida encontrou expressão quase imediata na União Européia de Pagamentos (1950) e na Comunidade Européia do Carvão e do Aço, formada por seis países em 1952. Outro movimento genuinamente europeu foi a tendência para descartar o conceito de confederação, que era inerente à OEEC e ao Programa de Recuperação Européia, e transferir elementos de economia nacional para as autoridades supranacionais. Depois da ratificação do tratado da OTAN em 1949, houve uma mudança de ênfase da recuperação econômica para a segurança militar.
O Plano Marshall assegurara aos sistemas capitalistas da Europa ocidental a possibilidade de passarem a desempenhar o seu papel na defesa de seu próprio território, e salvara, sobretudo do risco de uma catástrofe, o sistema americano: não poderia - nem pretendia - devolver à Europa a sua antiga grandeza.
 

                                         O Plano Marshall

O fim da II Guerra Mundial significou a destruição da Europa. Os países do Continente Europeu foram reduzidos a escombros: centros urbanos arrasados, produção industrial restringida aos seus limites mínimos, lavouras destruídas, desemprego, falta de alimentos, combustíveis, matérias-primas e moedas. Era uma situação caótica e de difícil recuperação.
Nesse contexto, surgem os Estados Unidos como capazes de colaborar com as nações sacrificadas pelo Conflito e ajudá-las a sair da grande crise em que se encontravam. É nesse contexto que surge o chamado Plano Marshall cujo nome se deve ao Secretário de Estado norte-americano George Marschall.
Dois grande motivos levaram à edição do Pano Marshall :

1) a ameaça da União Soviética que, no Pós-guerra, surge como uma superpotência a exercer influência sobre os países do Leste Europeu, ameaçando a hegemonia política norte-americana na Europa Ocidental;
2) a necessidade de manter e Europa como importante parceiro comercial, na qualidade de mercado importador de produtos "made in USA" e, portanto, área de grande importância para a estabilidade da economia norte-americana.
Na tentativa de evitar a influência comunista sobre a Europa Ocidental, o governo dos Estados Unidos já haviam realizado empréstimos a alguns países europeus, como foi o caso da Grécia e da Turquia, ambos palcos de movimentos guerrilheiros incentivados por governos pró-soviéticos.
Além disso, os Partidos Comunistas proliferavam nos países do Ocidente Europeu, principalmente na França e na Itália. Eranecessário socorrer a economia desses países ou, de outra forma, eles se tornariam "satélites" da União Soviética.
Em março de 1948, o Congresso americano aprovou o Plano Marshall que entrou em vigor no dia 3 de abril do mesmo ano com a criação da Organização Européia de Cooperação Econômica ( OECE). Caberia a OECE a distribuição de US$13,15 bilhões reservados ao programa de apoio.
Inglaterra, França, Itália, Alemanha Ocidental e Holanda foram os principais beneficiários dos recursos destinados pelo Plano Marshall.
Em 1950, os países europeus já apresentavam um significativo crescimento nos seus PIBs , na sua produção industrial e na sua produção agrícola.